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Ano VI - Nº 312

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Saúde

Câncer: apesar do avanço de tratamentos, custos ainda são empecilhos

No Brasil, 25% dos pacientes diagnosticados com câncer estão cobertos por planos de saúde; os demais 75% dependem do SUS

Postado em 05 de Abril de 2018   - Felipe Floresti e Nathan Fernandes – Revista Galileu

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É difícil curar o câncer porque ele não é um, mas vários. Para cada um dos 200 tipos da doença, responsável por uma a cada seis mortes no mundo, há outras dezenas de subtipos. Não faz muito tempo que a ciência sabe disso, mas com a popularização do mapeamento genético e a evolução da biologia molecular não só tornou-se possível determinar o tipo exato como desenvolver uma forma específica de lidar com ele.

Enquanto a quimioterapia, criada na década de 1970, ataca todas as células de crescimento rápido no corpo, seja dos tumores (neoplásicas), do sistema digestivo, seja do cabelo — o que provoca os efeitos colaterais —, as terapias-alvo atacam somente características específicas das células cancerígenas, bloqueando, assim, o crescimento e a disseminação do câncer. Já a imunoterapia, última grande novidade, “convence” o próprio sistema imunológico de que o tumor deve ser combatido. “É a revolução da oncologia”, ressalta Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia. “Há casos de cura de pacientes com melanoma e câncer de pulmão metastáticos, doenças que antes matavam em seis meses.”

Só tem um problema: o preço. Se a utilização da terapia-alvo em um único paciente pode chegar a R$ 600 mil, na imunoterapia esse valor é anual. “O tratamento tem prazo indefinido, não se sabe que valor será preciso despender”, diz Holtz.

Enquanto isso, o número de novos casos da doença não para de aumentar: a projeção é de que, em todo o mundo, pule dos 14 milhões registrados em 2010 para 21 milhões em 2030. Com isso, os gastos devem subir de US$ 290 bilhões para US$ 458 bilhões no período. Os países ricos devem contribuir de cinco a dez vezes mais que os pobres nesse investimento. Assim, apesar da maior incidência nos países ricos (1,8 vezes mais casos), 70% das mortes ocorrem em locais onde a renda é média e baixa. Essa desigualdade aparece até dentro de um mesmo país. Nos EUA, a chance de um homem negro morrer de câncer é 24% maior que a de um branco.

No Brasil, o salto deve ser dos 490 mil novos casos registrados em 2010 para 600 mil neste ano. Desses pacientes, 25% estão cobertos por planos de saúde; os demais 75% dependem do SUS. De acordo com o Ministério da Saúde, os gastos somente com tratamento mais que dobraram nos últimos anos: de R$ 2,2 bilhões em 2010 para R$ 4,7 bilhões em 2017. É o mesmo que todo o orçamento previsto neste ano para investimento em ciência.

Esse montante não incorpora a maioria dos novos tratamentos, já que 75% dos gastos são com quimioterapia. O acréscimo das despesas com tecnologias mais modernas seria sinônimo de falência, certo? Segundo o economista do banco Interamericano de Desenvolvimento André Medici não é bem assim. “Boa parte do aumento dos gastos se justifica pelos custos associados a tratamentos em estágios avançados da doença.”

Cerca de 60% dos casos são diagnosticados nos estágios 3 e 4 — em uma escala em que 5 é terminal. Neles, os custos são entre 60% e 80% maiores que nos estágios 1 e 2, com chance de cura sensivelmente menor. “A necessidade de medicamentos e terapias, mesmo as novas e mais caras, tende a ser proporcionalmente elevada. No ritmo atual, as necessidades ficarão sempre aquém das possibilidades de financiamento”, afirma Medici.

Um estudo feito pela Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) em 2016 mostra que, no caso do câncer de mama, por exemplo, o custo médio por paciente no estágio 3 é de R$ 65.125, comparado com R$ 11.373 no estágio 1. “Quem depende do SUS não consegue agendar um check-up”, destaca Merula Steagall, presidente da Abrale. “Se a suspeita não está iminente para justificar o pedido de um exame, dificilmente a pessoa vai conseguir um diagnóstico com os primeiros sintomas.”

Paralelamente, as novas tecnologias demandam diagnósticos cada vez mais precisos, com a chamada medicina personalizada. As terapias-alvo e a imunoterapia não funcionam em todo mundo. Para cada subtipo de câncer usa-se um medicamento diferente, além de ser necessário que o paciente apresente um marcador molecular específico que comprove a eficácia do tratamento. “Cada vez que surge um avanço, a tendência é querer aplicar essa tecnologia em todos. Esse é um dos primeiros fatores que levam ao encarecimento”, afirma o oncologista Paulo Hoff. “O custo é importante, mas o retorno é mais ainda. Uma coisa é um remédio custar R$ 60 mil por mês e resolver o problema; mas, se tiver o mesmo custo e propiciar sobrevida de um mês, como sociedade você começa a questionar seu real benefício.”

A OMS preconiza que um medicamento tem custo-benefício adequado quando aumenta a vida do paciente em um ano com o valor de até um PIB per capita (menos de R$ 30 mil no Brasil). “Um caminho são os biossimilares”, aponta Gélcio Mendes, do Instituto Nacional do Câncer. Da mesma forma que, com os genéricos, a quebra da patente baixou os preços para até 15% do original, pode acontecer com a imunoterapia. “O problema é que são técnicas muito avançadas de biologia molecular, com um processo de produção extremamente delicado e complicado. Muitos medicamentos estão perdendo a patente, mas o desafio é produzi-los”, afirma Mendes.

O que não pode ocorrer é a população ficar sem tratamento. Além da questão humana, o prejuízo é muito maior que o custo. Segundo a OMS, dos 225 mil brasileiros mortos pelo câncer em 2012, 87 mil eram economicamente ativos, entre 15 e 65 anos, o que acarretou perda de produtividade equivalente a R$ 15 bilhões. 

Raio X do Câncer
Número de novos casos não para de crescer



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