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Quinta-Feira 03.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Nada a Perder

O pesado investimento da Igreja Universal na indústria do cinema

Postado em 29 de Março de 2018 - Danilo Custódio

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“Os Dez Mandamentos”, adaptação para o cinema da novela da Rede Record lançado em parceria com a Paris Filmes em 2016, acabou se tornando a maior bilheteria do cinema nacional daquele ano, vendendo mais ingressos que franquias já consagradas pelo mercado internacional do entretenimento, como “Mogli: O Menino Lobo”, “Deadpool”, “X-Men: Apocalipse”, “Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos”, “Independence Day: O Ressurgimento” “Animais Fantásticos e Onde Habitam” e “Rogue One - Uma História Star Wars”, só pra citar alguns.

Tudo começou no dia 1 de janeiro daquele ano, quando teve início a pré-venda dos ingressos. De acordo com o portal UOL, a Igreja Universal do Reino de Deus divulgou o filme e fez solicitações em seus cultos para que os fiéis comprassem ingressos do filme e doassem para outas pessoas. Na sequência, o Diário de Pernambuco informou que uma única pessoa comprou 22.700 ingressos por R$ 220 mil em Recife. Apesar dessa estratégia, algumas publicações pela internet revelaram que muitos jornalistas observaram salas vazias na estreia do filme em São Paulo.

Seguindo essa mesma estratégia comercial, a Rede Record, em parceria com a Paris Filmes e a Downtown Filmes, lança seu mais novo mega empreendimento para o cinema. Nada a Perder é uma cinebiografia autorizada e produzida pelo próprio Edir Macedo, que estreia essa semana no circuito comercial tupiniquim com a promessa de se tornar a maior bilheteria do cinema nacional em 2018. Movidos pelas fortes campanhas feitas durante os cultos da Universal do Reino de Deus em todo país, uma multidão de fiéis já fazem filas para garantir seus ingressos desde fevereiro desse ano, conforme informou o portal Campo Grande News.

Mesmo com a Universal negando a compra de bilhetes, o filme já vendeu cerca de 4 milhões de ingressos só na pré-venda. “A imprensa, embasbacada com o espetacular sucesso de bilheteria que se anuncia, esforça-se para inventar uma explicação fajuta para o maior fenômeno cinematográfico brasileiro do ano — ou, talvez, de todos os tempos”, diz o comunicado oficial da Igreja, que admite incentivar seus fiéis a irem ver o filme no cinema e ainda chama a imprensa de “rancorosa e preconceituosa”. O sucesso é tamanho, que a segunda parte da cinebiografia do líder religioso Edir Macedo já foi anunciada. Nada a Perder 2 ainda não teve a sinopse oficial divulgada e seu lançamento está previsto para abril de 2019.

Cinema e Gênero

A Agência Nacional do Cinema publicou na última quinta (29), no OCA - Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, um estudo inédito acerca da programação de obras brasileiras veiculadas na TV Paga ao longo de 2017. As informações revelam um cenário de desigualdade muito similar ao apresentado no segmento de salas de exibição (cinema), revelado pelo estudo Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016 da ANCINE. Isso significa que, em todos os segmentos do audiovisual brasileiro, existe uma enorme desproporção relacionadas a questão de gênero. As mulheres, apesar de atingirem um índice de 53% do total de graduados em cursos de audiovisual e possuírem 52% dos empregos formais em empresas produtoras, assinaram apenas 15% da direção das obras brasileiras veiculadas na TV Paga no ano passado. 79% destas obras foram dirigidas por homens e 6% tiveram direção mista. Em 28 canais de programação qualificada, não foi constatada a exibição de uma obra sequer com direção exclusivamente feminina. Essa realidade se dá porque ainda vivemos em tempos tenebrosos, onde homens poderosos como o deputado federal Jair Bolsonaro e o próprio presidente da república Michel Temer se pronunciam publicamente dizendo que “mulheres precisam ganhar menos porque engravidam” e que “ninguém é mais capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher". Até quando viveremos esse absurdo hein?

Enquanto isso, em Brasília

Em resposta as denúncias feitas de que as novas regras do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) foram criadas para deixar as chamadas públicas mais seletivas, desfavorecendo pequenas produtoras, a ANCINE vem a público esclarecer possíveis dúvidas relacionadas ao novo regramento das linhas de financiamento do Fundo, através de uma “Carta Aberta aos Agentes do Mercado Audiovisual”. Segue o texto na íntegra:

Temos recebido muitos questionamentos e entendemos e compartilhamos a preocupação com o amplo acesso aos recursos públicos destinados ao fomento do audiovisual brasileiro.

Cabe informar que as mudanças divulgadas agora são resultado de um amplo debate iniciado desde o ano passado no âmbito do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual, órgão colegiado onde a sociedade civil está representada ocupando metade das cadeiras.

O Fundo Setorial do Audiovisual trabalha com diversas linhas de ação voltadas para o desenvolvimento e produção de obras audiovisuais em suas mais diversas características, abrangendo todos os níveis de produtoras, de todas as regiões do país. Deste mesmo programa de investimentos, que utiliza recursos do FSA, faz parte o conjunto de 11 editais operados pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura - SAv/MinC voltados para a ampliação da participação no mercado de novos talentos e de realizadores negros, mulheres e indígenas e o estímulo à descentralização do setor audiovisual.

No edital de concurso de cinema, especificamente na Modalidade B, ao designar 40% do peso da nota para a avaliação do projeto artístico e ainda 30% para o desempenho artístico pregresso tanto da produtora (15%) como do diretor (15%), o FSA busca valorizar justamente o mérito artístico, permitindo ampla concorrência independente do porte da produtora. Vale ressaltar ainda que, justamente como medida pensada para promover a desconcentração dos recursos, nesta Chamada cada empresa produtora pode inscrever apenas um projeto.

Até 2017, o FSA havia selecionado mais de 330 produtoras de diferentes níveis no conjunto de linhas de TV e mais de 250 nas linhas de Cinema. Do conjunto de produtoras selecionadas, são consideradas iniciantes (níveis 1 e 2), 81% nas linhas de TV e 52% nas linhas de cinema.

De toda forma, permanecemos em constante avaliação das linhas de ação, de forma que contribuições ao debate são sempre bem vindas. O novo modelo proposto tem como meta reduzir o prazo de análise e contratação pela metade, passando de 18 para apenas 9 meses. Neste formato será possível acompanhar os editais de maneira mais objetiva, identificando as possíveis distorções e podendo ajusta-las com mais agilidade nas próximas edições das Chamadas Públicas.


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