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Ano VI - Nº 312

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3 dados sobre venezuelanos no Brasil que contrariam o senso comum

Estudo analisa a explosão do fluxo de imigrantes em 2017 e mostra o perfil de quem solicita a permanência em território brasileiro

Postado em 16 de Março de 2018   - João Paulo Charleaux – Nexo

Em Caracas, família venezuelana aguarda embarque para Guayaquil
Foto: Carlos García Rawlins - Reuters Em Caracas, família venezuelana aguarda embarque para Guayaquil Foto: Carlos García Rawlins - Reuters

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O fluxo migratório que mais cresceu no Brasil nos últimos quatro anos vem da Venezuela. Desde que o país vizinho mergulhou numa crise econômica e política, milhares de venezuelanos passaram a cruzar a fronteira em busca de recursos e de proteção.

Mais de 1 milhão de venezuelanos saíram do próprio país entre 2014 e 2017, de acordo com o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Entretanto, especialistas em migração dizem que é difícil precisar o número de imigrantes que permanecem no Brasil, dado que, por muitos meses, sobretudo no ano de 2015, muitos deles cruzaram a fronteira apenas para comprar alimentos e remédios, antes de voltar para o próprio país, num movimento chamado “pendular”.

O principal destino dos venezuelanos é a Colômbia – com pelo menos 550 mil imigrantes até hoje. O Brasil tem entre 40 mil e 60 mil, de acordo com as estimativas, que levam em conta imigrantes documentados e sem documentos. Os dados oficiais dão conta de 30 mil pedidos de regularização, mas organizações do setor afirmam tratar-se de um registro incompleto e conservador.

Um grupo específico de imigrantes venezuelanos tem entrado no país pedindo proteção por “temor de perseguição por razões políticas” – são os solicitantes de “refúgio”. O gráfico abaixo mostra como esse grupo cresceu entre 2015 e 2017:

No Brasil, ao pedir refúgio, o imigrante recebe documentos que o permitem estar legalmente no país imediatamente. Além disso, ele não pode ser devolvido a seu próprio país de origem, dado o temor de perseguição. Enquanto dura a análise do caso, o solicitante de refúgio pode trabalhar e estudar legalmente.

Percepção distorcida

Embora os dados mostrem uma explosão no número de entrada de venezuelanos de 2016 para 2017, o número é considerado baixo em termos absolutos, quando comparados com o tamanho da população do Brasil, a extensão territorial e a realidade de outros países de porte semelhante, como dizem os especialistas abaixo:

“O país [Brasil] registra um número baixo de imigrantes, em comparação com o PIB, com a extensão territorial e com a população total. Todos os imigrantes, regulares e irregulares, correspondem hoje, no Brasil, a 1% da população total do país. Nos EUA, é 14%. Na Argentina, 4%. O Brasil recebe pouco e poderia receber muito mais” Camila Asano Coordenadora do Programas da ONG Conectas Direitos Humanos, em entrevista ao Nexo

“Em termos nacionais, o número de entrada de venezuelanos é muito baixo. Estamos falando, na hipótese mais exagerada, em 60 mil (...) O Brasil tem 1% de imigrantes. A média mundial é de 3,7%” João Carlos Jarochinski Coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal de Roraima, em entrevista ao Nexo

Ainda assim, monitoramento das redes sociais feito pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em janeiro e fevereiro de 2018 mostrou “predomínio geral de posicionamentos contrários ao acolhimento de imigrantes no estado [de Roraima], cuja capital, Boa Vista, enfrenta problemas logísticos e financeiros para recebê-los em dignas condições”.

Parte da percepção negativa pode estar ligada a preconceitos em relação aos imigrantes – de que são excessivamente numerosos ou pouco instruídos.

Entretanto, pelo menos três dados colhidos em setembro de 2017, pelo Conselho Nacional de Imigração, mostram o contrário:

MITOS E VERDADES

Sobrecarga de serviços públicos

Os dados mostram que “48,4% dos venezuelanos em Boa Vista, até outubro de 2017, não utilizaram qualquer serviço público”. A percepção de sobrecarga no serviço público deveria levar em conta, segundo estudo feito pela DAPP (Diretoria de Análise de Política Públicas) da FGV, que “a prefeitura [de Boa Vista], sem o apoio dos governos estadual e federal para atrair projetos de desenvolvimento econômico para a região, não consegue prover o necessário a uma população majoritariamente desempregada, ou inserida no mercado informal, e pouco instruída.” A sensação de sobrecarga está mais ligada a problemas estruturais brasileiros do que à ideia de que os venezuelanos são os responsáveis pela piora dos serviços.

Nível de escolaridade

Outro preconceito comum está ligado à ideia de que os imigrantes são sub-qualificados ou simplesmente não são instruídos. Os dados, no entanto, mostram o contrário. Dos venezuelanos que haviam entrado no Brasil até 2017, 78% possuíam nível médio completo e 32% tinham ensino superior completo ou nível de pós-graduação. O estudo da FGV alertou para o fato de que “os venezuelanos não indígenas que migram para Boa Vista possuem nível de escolaridade superior à média da população local”.

Desocupação

Outra sensação é a de que os imigrantes venezuelanos roubam empregos ou simplesmente fazem crescer a fila de desempregados. Nesse sentido, os dados mostram que não há variação significativa sobre um fator ou outro. Em 2017, 60% dos imigrantes venezuelanos estavam empregados em alguma atividade remunerada e enviavam remessas para familiares na Venezuela. “Apesar de subvalorizada profissionalmente, é uma imigração que traz benefícios para o Brasil”, diz a FGV. “Em níveis gerais, o percentual dos venezuelanos inseridos no mercado formal de emprego, 28%, não é muito diferente do percentual de brasileiros, 29,3%, em 2015”, conclui o estudo.


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