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Ano VI - Nº 308

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Porcentagem de filiadas supera a de candidatas nos partidos

Mulheres são 44,27% nas legendas, mas apenas 10,94% no Congresso

Postado em 16 de Fevereiro de 2018   - Redação Semana On

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A desigualdade de gênero na política brasileira vem da base: maioria na população (51,7%), as mulheres são 44,27% dos filiados a partidos.

O descompasso piora na escolha de candidatos, agrava-se nas eleições e situa o Brasil em 151º lugar no mundo.

Em 2016, 31,6% dos candidatos foram mulheres. A assimetria piora entre os eleitos: na composição atual do Congresso, 10,94% dos parlamentares são mulheres. A média mundial é de 23,5%.

Para o professor da Universidade de Brasília e cientista político Wladimir Gramacho, 46, os números refletem uma assimetria social. "Mulheres ainda têm menos chances de ocupar posições de liderança na política e nas empresas".

A situação no Executivo é semelhante. Em 2014, só um Estado elegeu governadora: Suely Campos, do PP, em Roraima, que entrou na disputa após o marido ter a candidatura barrada pelo TSE. Menos de 12% dos municípios elegeram prefeitas em 2016.

"Violência doméstica, deficit salarial, baixo acesso a cargos de chefia: o país não está avançando", reforça a advogada Karina Kufa, 37.

Presidente do Instituto Paulista de Direito Eleitoral, ela critica recentes debates sobre a interrupção de gravidez, embora ressalve que a pauta não é uníssona. "Não apoio o aborto, mas critico fixar a criminalidade na mãe."

A escritora Maria Aparecida Schumaher, 65, a Schuma, reforça essa visão: "Nunca houve responsabilização dos homens no aborto; quem faz as leis são, na maioria, eles".

Ela é coordenadora-executiva da Redeh, que pesquisa dados sobre as mulheres no Brasil, e é coautora de livros como "Mulheres no Poder" (Edições de Janeiro, 2015).

"Não que homens não possam falar de direitos femininos, mas há pautas historicamente lesadas", afirma a jornalista Giulliana Bianconi, 34, uma das diretoras da agência Gênero e Número.

Ela lamenta casos como o de uma deputada no RJ que "tinha tudo para se candidatar a deputada federal, mas desistiu por ter filho pequeno" como exemplo de que a questão é maior: "É preciso rediscutir a divisão do trabalho".

Gramacho vai além: "Estudos sugerem que mulheres têm menos chance de praticar corrupção. Não porque sejam menos corruptas, mas porque os custos que enfrentaram foram em geral mais altos, e faz menos sentido arriscar".

Na Contramão

O assunto sobressai com as recentes discussões sobre empoderamento, as eleições e os cem anos, em 2018, desde que mulheres obtiveram o direito de votar na Inglaterra.

No Brasil, há 90 anos foi eleita a primeira prefeita, Alzira Soriano (1887-1963), em Lajes (RN), cassada em 1930, à ascensão de Getúlio Vargas.

O país teve a primeira deputada federal em 1934: Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982), escolhida por SP para a Assembleia Constituinte.

A primeira senadora veio em 1979: Eunice Michiles (AM), suplente de um senador que morreu. Antes dela, a princesa Isabel havia sido senadora, em 1871, graças a uma reserva a "príncipes".

De 2009, a lei 12.034 destina no máximo 70% das candidaturas a um mesmo sexo —uma reserva às mulheres que fez crescer candidaturas delas, mas teve pouca influência na proporção de eleitas.

A média mundial de legisladoras foi de 23,5% em 2017, segundo a União Inter-Parlamentar, que compara 193 nações. O Brasil caiu do 116º posto para o 151º. "Exemplo negativo", diz a UIP, "destoante da tendência mundial".

Obstáculos

Para estudiosos, os obstáculos para a simetria de gênero na política são o financiamento e a visibilidade.

"Não há reserva de verbas ou de propaganda. Sem dinheiro, ninguém faz campanha; sem visibilidade, ninguém se elege", diz Karina Kufa, presidente do Ipade.

Em 2014, campanhas de mulheres à Câmara arrecadaram, em média, menos de um terço que a dos homens.

"Quando elas gastam o mesmo, têm mesmas chances", diz a socióloga Clara Araújo, coordenadora de núcleo sobre desigualdade na UERJ e autora de "Gênero, Família e Trabalho no Brasil" (Editora FGV, 2005).

A cientista política Patrícia Rangel, 33, que pesquisa o tema em pós-doutorado na USP, adiciona que, segundo estudos, quanto maior o nível de gastos nas campanhas, menos chances as mulheres têm. O problema é maior no Brasil, diz, "que gasta três vezes mais que a média latino-americana".

Rangel denuncia o uso de candidatas "fantasmas", sem chances efetivas, só para cumprir a cota. Em 2016, 10% das candidatas a vereadoras tiveram zero votos ou apenas um. Entre homens, a proporção foi de 0,6%.

Kufa, presidente do Ipade, é a favor de mais cotas, para "forçar uma paridade". As reservas, diz, deveriam cobrir vagas no Congresso e nas direções dos partidos.

Ela também propõe que, mantida a lista aberta, metade dos eleitos "puxados" por votações de outros candidatos sejam mulheres. Isso teria efeito na Câmara, onde cerca de 90% dos deputados se beneficiaram da dilatação do quociente eleitoral.

Já a socióloga Clara Araújo entende que uma eventual cota de assentos "acoberta as bases da desigualdade". A solução, diz, passa por "estimular jovens a crer que podem participar em igualdade de condições".


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