Semana On

Sábado 24.fev.2018

Ano VI - Nº 291

VLB

Saúde

Pessoas que não moram em áreas de risco estão sendo vacinadas, enquanto as que precisam da vacina não a encontram

Segundo o pesquisador Rivaldo Venâncio, quem realmente necessita da vacinação contra febre amarela não está sendo atendido como deveria

Postado em 30 de Janeiro de 2018   - Centro de Estudos Estratégicos -Fiocruz

Embora mais vulneráveis à contaminação por febre amarela, as populações próximas às áreas silvestres não estão sendo alcançadas pela vacinação devido à concentração dos postos e das equipes no ambiente urbano, o que pode vir a provocar uma escalada na ocorrência dos casos.

A análise é do infectologista Rivaldo Venâncio, professor titular da Famed/UFMS e pesquisador associado do CEE-Fiocruz Rivaldo Venâncio. Segundo ele, atualmente, há um deslocamento da ocorrência de casos de febre amarela do ambiente silvestre para o urbano.

Segundo Rivaldo, a febre amarela, como outros problemas de saúde pública, tem origem multifatorial e seu desenvolvimento difere do das outras arboviroses, como a dengue.

“Por estarmos lidando com uma epidemia cujo foco surge em áreas silvestres, a influência marcante que fatores urbanos, como o abastecimento regular de água para consumo doméstico e a coleta regular do resíduo sólido urbano, têm nas epidemias de dengue não é a mesma nas epidemias de febre amarela silvestre, devido às diferentes características dos mosquitos transmissores”.

“Estamos vacinando, em boa parte, pessoas que não estão, de fato, em risco neste momento, isto é, pessoas que vivem em áreas extremamente urbanizadas. Nossos postos e equipes de vacinação estão majoritariamente no asfalto. As pequenas comunidades rurais, sítios e fazendas mais afastados não estão sendo alcançados por essa campanha de intensificação da vacinação na medida que seria necessária”, afirma o pesquisador.

Por não haver em estoque uma capacidade imediata de fornecimento de vacina em tão larga escala – por se tratar de regiões muito populosas, como a região metropolitana de São Paulo –, se optou, em comum acordo entre o Ministério da Saúde e os secretários estaduais e municipais de Saúde dessas localidades, por fazer o fracionamento da vacina. “Ou seja, cada dose da vacina padrão será transformada em cinco outras doses. Um frasco que contenha cinco doses da sua formulação padrão, vai fornecer, em tese, 25 doses da vacina”.

Isso está permitindo que haja um bloqueio imediato e essa preocupação da proximidade do vírus do ambiente silvestre com o ambiente urbano é interrompida e bloqueada por essa proteção da vacina. Em resumo, a tendência neste momento é de haver uma escalada na ocorrência desses casos de febre amarela.

“Me parece que há uma certa deficiência no número e na mobilidade de equipes volantes que pudessem estar caminhando nesses sítios e lugarejos em busca das populações que estão mais vulneráveis à doença”, conclui Rivaldo.


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