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Segunda-Feira 21.mai.2018

Ano VI - Nº 303

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Brasil

Brasileiro começa a se preocupar com compartilhamento de notícias falsas

Passar adiante informação errada foi motivo de vergonha entre familiares ou de amigos, diz pesquisa

Postado em 04 de Janeiro de 2018   - Leonardo Sakamoto – Blog do Sakamoto

Uma pesquisa qualitativa conduzida pela Idea Big Data, com pessoas de 30 a 50 anos das classes C e D, mostrou que eleitores começam se preocupar com o compartilhamento de informação que se revele falsa. De acordo com o diretor da instituição, em entrevista ao jornal Valor Econômico, é a primeira vez que esse comportamento aparece em pesquisa.

Passar adiante informação errada foi motivo de vergonha entre familiares ou de amigos. Nos grupos focais, houve relatos de pessoas que levaram bronca por conta disso. Ou que começaram a checar em veículos de comunicação tradicionais antes de compartilharem conteúdo de redes sociais.

É uma pesquisa qualitativa e, portanto, não afirma qual parcela da sociedade está agindo contra notícias fraudulentas. Mas mostra que há uma luz no final dessa escuridão abissal em que parece ter mergulhado o debate público no Brasil.

Muitos consomem mal e porcamente material distribuído nas redes sociais, passando adiante conteúdo mentiroso em troca de likes porque isso não afeta sua vida e o seu relacionamento com os demais. Afinal de contas, qualquer conhecimento superficial é suficiente para uma conversa de boteco, seja presencialmente, seja nas redes sociais.

Não raro as pessoas não se importam em verificar a origem e a qualidade do conteúdo que estão distribuindo. Se ele confirma suas crenças e pode ser usado como munição na guerra ideológica virtual, é visto como verdade e disparado como tal. Em oposição, tudo aquilo que não vai ao encontro às opiniões do internauta, ele taxa de mentira e segue e frente – mesmo que, por vezes, aquilo seja correto e bem apurado.

Se o debate público fosse mais qualificado, a pessoa se sentiria motivada a ler determinados textos até para não ser humilhada coletivamente ao compartilhar argumentos falsos, preconceituosos, violentos, superficiais.

O problema é que, para isso ganhar escala, teremos que desenvolver não apenas o senso crítico a respeito dos outros quanto a autocrítica em nós mesmos.

Estou sendo um zumbi sem cérebro ao passar uma informação adiante sem checar? Tornei-me um viciado em curtidas na rede que posta tudo o que for polêmico apenas para se sentir querido e popular com chuvas de likes? Será que sou tão tosco a ponto de fazer de tudo para que meu time de futebol leve o campeonato, ops, desculpe, meu candidato ganhe as eleições?

E isso para começar. Até porque há conteúdos claramente falsos, mas também existem aqueles bem produzidos, que embutem distorções dentro de textos repletos de informações verdadeiras. O que os torna menos detectáveis pela maioria das pessoas e, portanto, os mais perigosos.

Ao longo da história, muitos veículos de imprensa, independentemente da coloração ideológica que adotavam, também incorreram nesse tipo de manipulação. A diferença é que, agora, a internet funciona como um catalisador de vozes e processos, fazendo com que uma maré de desinformação ou má formação atinja a massa em tempo real e por todos os lados.

O problema é que não se qualifica o debate apenas através de ações individuais. Você precisa de uma ação em escala. Uma série de instituições, através da própria mídia, podem ter um papel importante apresentando formas de identificar argumentos de qualidade e desconfiar do conteúdo de notícias que pareçam fraudulentas. Ao mesmo tempo, e mais importante, o Estado – instituição que regula a concepção de educação e os parâmetros educacionais – deve agir para introduzir esse debate no ensino público. E de maneira rápida, se quisermos garantir a qualidade de vida das próximas gerações.

O dilema é como avançar nesse debate se, ao mesmo tempo, temos que lutar para que a escola continue sendo um centro de encontro com a diferença e a pluralidade e não uma filial de igreja.


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