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Ano VI - Nº 312

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Mundo

Trump reconhece Jerusalém como capital de Israel

Hamas convoca rebelião e israelenses dizem que países seguirão decisão dos EUA

Postado em 06 de Dezembro de 2017   - Redação Semana On

Palestinos protestam com faixas e fotos de Donald Trump, na cidade de Rafá Palestinos protestam com faixas e fotos de Donald Trump, na cidade de Rafá

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O presidente Donald Trump anunciou na quarta-feira (6) que os EUA passam a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, revertendo quase sete décadas de política externa americana, e determinou o início dos preparativos para a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para a disputada cidade.

"Determinei que este é o momento de reconhecer oficialmente Jerusalém como a capital de Israel", disse Trump em pronunciamento na Casa Branca. "Isso não é nada mais nada menos do que o reconhecimento da realidade."

Trump descreveu a ação como um "passo há muito devido" para avançar um processo de paz no Oriente Médio que seja duradouro. As negociações entre israelenses e palestinos estão congeladas desde 2014.

Nesse sentido, Trump falou que a decisão não equivale a uma tomada de decisão sobre as fronteiras contestadas entre palestinos e israelenses e que isso passa pelas negociações em torno da solução de dois Estados – pela primeira vez endossada pessoalmente pelo presidente americano.

"Não estamos demarcando as futuras fronteiras de uma Jerusalém de soberania israelense ou a resolução de fronteiras contestadas", afirmou. "Essas questões cabem às partes envolvidas."

"Os EUA permanecem comprometidos em ajudar a facilitar um acordo de paz que seja aceitável para ambos os lados. Sem dúvida, Jerusalém é um dos temas mais delicados nessas conversas. Os EUA apoiariam uma solução de dois Estados caso isso seja acordado por ambas os lados", disse Trump.

"Jerusalém não é só o coração de três grandes religiões, mas o coração de uma das democracias mais bem sucedidas do mundo", afirmou. "Jerusalém é e deve continuar aberta à fé de três religiões, onde os judeus rezam no Muro das Lamentações, cristãos caminham pela Via Crucis e muçulmanos rezam na mesquita de Al Aqsa."

A ação isola os EUA em um dos assuntos mais polêmicos de diplomacia.

Líderes mundiais de diversos países – aliados e rivais dos EUA – criticaram a decisão nesta quarta. Muitos temem que ela leve a um aumento da violênciano Oriente Médio.

Israel conquistou a porção Oriental de Jerusalém em 1967, anexando-a em seguida e declarando toda a cidade como sua capital. A medida não foi reconhecida nem pelos EUA nem pela comunidade internacional, e maior parte dos países mantém suas embaixadas em Tel Aviv.

Os palestinos, por sua vez, reivindicam que Jerusalém Oriental seja a capital de seu futuro Estado.

A mudança da embaixada para Jerusalém foi uma promessa de Trump na campanha presidencial de 2016, para atender não apenas o lobby judaico mas também o evangélico.

Os preparativos para a transferência terão início daqui a seis meses, e estima-se que o processo leve anos para ser concluído. "A nova embaixada, quando concluída, será um magnífico tributo à paz", afirmou Trump.

Em 1995, uma lei aprovada sob o governo do democrata Bill Clinton estabelecia que a Embaixada dos EUA em Israel deveria ser transferida de Tel Aviv para Jerusalém.

Mas a mesma lei, para evitar mergulhar a região novamente em instabilidade, permita ao presidente, a cada seis meses, adiar a mudança por mais um semestre alegando questões de segurança.

Desde Clinton, todos os presidentes dos EUA sempre emitiram a ordem impedindo a mudança, incluindo Trump em junho. O prazo para ele dar a ordem adiando a transferência por mais seis meses havia vencido no último dia 4.

Nem gregos e nem troianos

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que a França não apoia a "decisão unilateral" do americano. "É uma decisão lamentável que a França não apoia e que vai contra a lei internacional e todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU", disse Macron a repórteres.

"Eu falei consistentemente contra qualquer medida unilateral que pudesse sabotar a perspectiva de paz para israelenses e palestinos", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, após o anúncio de Trump. "Neste momento de grande ansiedade, quero deixar claro: não há outra alternativa que não a solução de dois Estados. Não há plano B."

"O governo alemão não apoia essa decisão porque o status de Jerusalém deve ser negociado no âmbito de uma solução de dois Estados", declarou a chanceler alemã, Angela Merkel.

O grupo Hamas, considerado terrorista pelos EUA, declarou que a decisão é uma "flagrante agressão ao povo palestino".

O ex-líder do grupo Fatah na faixa de Gaza Mohhammed Dahlan afirmou que os palestinos deveriam rejeitar qualquer futura negociação de paz. "Peço a retirada das negociações absurdas e sem fim com Israel depois que o princípio da inviolabilidade do status de Jerusalém foi quebrado."

O Egito afirmou que rejeita a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, afirmou o chanceler egípcio. Segundo ele, a decisão de Trump não muda o status legal da cidade.

Na contramão, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, classificou a decisão de Trump como um "momento histórico". "A decisão do presidente [Trump] é um passo importante na direção da paz, porque não há paz que não inclua Jerusalém como a capital do Estado de Israel."

Antes do anúncio oficial ser feito por Trump, na tarde desta quarta, líderes mundiais já haviam criticado a medida.

Enquanto representantes europeus expressaram preocupação sem atacar diretamente Washington, líderes do Oriente Médio e de nações de maioria muçulmana subiram o tom nos ataques, com a Turquia dizendo que a ação vai "incendiar" o mundo.

"Declarar Jerusalém como capital é desconsiderar a história e as verdades da região, é uma grande injustiça, crueldade, miopia, loucura e maluquice, e vai mergulhar o mundo em um incêndio sem fim à vista" disse o vice-premiê turco, Bekir Bozdag.

Ancara confirmou ainda que haverá uma reunião do Conselho de Cooperação Islâmica para os países da região debaterem uma resposta conjunta a medida.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei disse que a mudança de embaixada mostra a "incompetência e a incapacidade" americana para resolver a disputa na região e prometendo ajudar a "libertar" a Palestina.

O enviado palestino ao Reino Unido, Manuel Hassassian, também manteve o tom pesado, afirmando que a decisão é uma declaração de guerra contra cristãos e muçulmanos.

"Se ele [Trump] disser o que está pretendendo dizer sobre Jerusalém ser a capital de Israel, isso significa um beijo da morte para a solução de dois Estados", afirmou em entrevista à rádio BBC.

"Ele está declarando guerra no Oriente Médio, ele está declarando guerra contra 1,5 bilhão de muçulmanos e centenas de milhões de cristãos que não irão aceitar que os santuários sagrados estejam totalmente sob a hegemonia de Israel", disse Hassassian.

Após conversar na terça com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, o papa Francisco se manifestou publicamente sobre o assunto nesta quarta-feira.

"Não posso ficar calado sobre minha profunda preocupação com a situação criada nos últimos dias sobre Jerusalém" disse o pontífice para milhares de pessoas no Vaticano. "Faço um apelo desesperado para que todos se comprometam a respeitar o 'status quo' da cidade, em conformidade com as resoluções da ONU."

Antes do discurso para o público, Francisco se encontrou com uma delegação de palestinos no Vaticano e afirmou que "reconhecer o direito de todas as pessoas na Terra Santa" é uma condição básica para o diálogo.

Preocupação

Mesmo aliados tradicionais dos Estados Unidos, como o Reino Unido e a Alemanha, criticaram a proposta de Trump.

"Vamos esperar para ver o que exatamente o presidente vai dizer. Mas lemos com preocupação as notícias, porque consideramos que Jerusalém obviamente deveria ser parte de um acordo final entre israelenses e palestinos", disse o ministro de Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, na manhã desta quarta.

Já o governo alemão disse temer que o anúncio da mudança da embaixada gere protestos violentos em países de maioria muçulmana. O Ministério de Relações Exteriores do país recomendou aos turistas alemães que evitem Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia nos próximos dias.

A China, que tradicionalmente não costuma interferir na disputa entre Israel e Palestina, também manifestou preocupação com um aumento do conflito no Oriente Médio.

"Todas as partes devem fazer mais pela paz e tranquilidade da região, se comportar com precaução e evitar ações que afetem a base de uma resolução para questão palestina e que iniciem novas hostilidades", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang.

Intifada

Com medo que o anúncio dificulte o processo de paz e aumente a instabilidade na região, aliados tradicionais dos EUA, como Alemanha, Reino Unido e França mão aprovaram a medida. Líderes de países árabes e de maioria muçulmana, assim como Rússia, China e o Vaticano, também criticaram a decisão americana.

A reação já começou. O grupo palestino Hamas convocou uma nova intifada (rebelião) na faixa de Gaza, com início nesta sexta-feira (8).

"Nós devemos convocar e nós devemos trabalhar em lançar uma intifada em face ao inimigo sionista", disse o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, durante discurso na faixa de Gaza.

Haniyeh, eleito líder geral do grupo em maio, pediu que palestinos, muçulmanos e árabes se manifestem contra a decisão dos Estados Unidos na sexta-feira, que chamou de "dia da raiva".

"Deixem 8 de dezembro ser o primeiro dia da intifada contra o ocupante", disse.

Israel e os Estados Unidos consideram o Hamas, que lutou em três guerras contra Israel desde 2007, uma organização terrorista. O grupo não reconhece o direito de existência de Israel e seus ataques suicidas ajudaram a encabeçar sua mais recente intifada, de 2000 a 2005.

Por isso, o exército de Israel decidiu reforçar a segurança na Cisjordânia para os protestos de sexta. Em nota, os militares anunciaram que diversos batalhões foram mobilizados para a região e que o restante das tropas estará de prontidão se necessário.

Para o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, diversos países estudam seguir os Estados Unidos e reconhecer Jerusalém como capital de Israel.  "Já estamos em contato com outros Estados que farão um reconhecimento semelhante" disse ele em discurso no Ministério das Relações Exteriores. Ele não disse quais seriam esses países.

De acordo com Netanyahu, alguns países podem fazer a mudança antes mesmo dos Estados Unidos —atualmente todas as embaixadas ficam em Tel Aviv. Segundo o premiê, Trump "se uniu para sempre" com a história de Jerusalém com a decisão, que não foi bem recebida pela maior parte da comunidade internacional.

Entenda em dez perguntas o impasse sobre Jerusalém

1. De quem é Jerusalém?
A cidade está sob controle de Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967), mas na prática é dividida entre lado ocidental, que tem maioria judaica e abriga o Parlamento israelense, e oriental, de maioria árabe, reivindicado pelos palestinos (a Autoridade Nacional Palestina está em Ramallah, Cisjordânia).

2. O que se reivindica?
Israel afirma que Jerusalém é sua capital única e indivisível, recorrendo a episódios históricos; os palestinos pleiteiam que Jerusalém Oriental seja a capital de seu futuro Estado, também alegando razões históricas.

3. O que diz o mundo?
A ONU determinou, em 1947, que Jerusalém fosse uma cidade com regime internacional, sem controle exclusivo de judeus, árabes ou cristãos. A maioria dos países hoje apoia a solução de dois Estados, determinada por negociações de paz entre israelenses e palestinos (congeladas desde 2014).

4. O que Trump disse?
Que os EUA reconhecem Jerusalém como a capital de Israel e que mudarão sua Embaixada em Israel, hoje em Tel Aviv, para a cidade em uma data futura.

5. Quando os EUA mudarão a embaixada?
Trump declarou iniciados os preparativos para a mudança, mas ao mesmo tempo assinou um adiamento por seis meses, como têm feito todos os presidentes dos EUA desde Bill Clinton em 1995. Ele não estipulou prazos e pode voltar a adiar o processo.

6. Então o que muda?
Na prática, nada. Trump ressalta que a definição das fronteiras sob soberania israelense deve ser objeto das negociações de paz israelo-palestinas e pede que a cidade fique aberta para "todas as fés"; segundo o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, o status dos locais sagrados será mantido.

7. Quem tem embaixada em Jerusalém?
Ninguém. Israel é reconhecido pela imensa maioria dos países, e apenas nações muçulmanas do Oriente Médio negam sua legitimidade (as exceções são o Egito e a Jordânia). Por causa da indefinição do status da cidade, porém, todos mantêm suas representações em Tel Aviv.

8. E o processo de paz?
Washington passa a ser visto como ator parcial, favorável aos israelenses, o que dificulta para os palestinos aceitar sua mediação. O alerta foi feito não só por países críticos aos EUA, mas também por governos europeus, a UE e a ONU.

9. Qual o papel dos EUA na negociação?
Os EUA foram o principal mediador do processo de paz desde 1967 -incluindo os acordos de Oslo (1993) e Camp David (2000), o Mapa do Caminho proposto com Rússia, UE e ONU (2003) e as negociações em Annapolis (2007) e Washington (2010).

10. E o pleito palestino?
A reivindicação sobre Jerusalém Oriental como capital de um Estado palestino pode ser mantida, mas há risco de a decisão dos EUA inflamar os muçulmanos na região e provocar uma nova onda de violência.


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