Semana On

Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

Regada a luxo, nova rota ferroviária no Peru passa por Cusco e Arequipa

Restaurante de primeira, bar e área de lazer compõem o comboio

Postado em 06 de Dezembro de 2017 - Redação Semana On

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Saímos do hotel em Cusco às 10h da manhã e em 20 minutos estamos na estação. O trem é azul, a paisagem é ocre e na plataforma há um grupo de música andina, com dançarinos vestidos a caráter.

Somos convidados a subir no penúltimo vagão, que é um bar cheio de janelas, sofás e poltronas de couro confortáveis. Depois dele há apenas um vagão-observatório, joia do comboio, varanda flutuante com grade de ferro rendilhada –na qual, mais tarde e ao longo de todo o trajeto, nos debruçamos para ver a paisagem.

Ganhamos uma taça de espumante, e Christopher, o gerente, faz um brinde de boas-vindas. Conta que o trem está em funcionamento desde maio de 2017 e pertence ao grupo inglês Belmond, mas os vagões foram trazidos da Austrália, de navio.

Um tranco leve –e a periferia de Cusco, tão desolada quanto qualquer periferia latino-americana, vai ficando para trás. Um garçom leva os passageiros, um a um, para suas cabines. A caminhada é longa. É preciso passar por dois vagões-restaurantes, um vagão-boutique, outro vagão-bar (este com piano), um vagão-cozinha.

Ao todo são 16 vagões, a tripulação gira em torno de 30 funcionários, entre eles quatro seguranças, cinco engenheiros, um guia turístico e uma enfermeira. O número máximo de passageiros é 48; desta vez, havia 32.

Na cabine: cama de casal, duas poltronas, mesa, armário, banheiro. Janela para a estrada e janela para o corredor estreito. Decoração caprichada. Doces frescos numa bandeja.

Voltemos ao bar.

No vagão-observatório há um casal com moletons onde se lê "MIAMI" idênticos tirando selfies com as montanhas ao fundo; um jovem entediado porque no trem não há wi-fi (haverá em breve); duas amigas ou irmãs mexicanas aflitas com o terremoto do México; um ex-punk irlandês, que na outra encarnação tocou num buraco de Londres com Mick Jagger e hoje administra uma granja em Barcelona, acendendo um cigarro com mãos trêmulas.

Marco, o barman, nos oferece piscos sours (o coquetel clássico do Peru ), chilcanos (outro coquetel com pisco), gim tônicas com gim peruano. Há uma carta variada de destilados, alguns tipos de cerveja e de vinho. Vamos (os jornalistas convidados) de gim tônica. Além do gim, da água tônica e do gelo, Marco acrescenta uma rodela de laranja Cara Cara e pimenta "molle".

O rio Vilcanota corre o tempo inteiro ao lado do trem, em sentido contrário. É um lindo rio verde-esmeralda, agitado e não muito largo –quase se veem os olhos da lhama que bebe água na outra margem.

De almoço, uma das muitas variedades de milho peruano com queijo (entrada), corvina com iogurte cítrico (prato principal) e laranja Cara Cara com mousse de chirimoya (sobremesa). Vinho chileno e argentino. Chocolatinhos, cafés. E na janela, a paisagem, mudando sem parar.

No meio da tarde fazemos a primeira parada em Tinta, terra do revolucionário Tupac Amaru II. Lá tomamos uma van até Raqchi, onde, no século 15, os incas construíram um templo para o deus Wiracocha. Ruínas de pedra em estilo imperial –o mais perfeito dos encaixes. Casas da realeza. "Graneros" ou "colcas", isto é, reservatórios de batata, milho, quinoa e até peixe seco (estamos longe do mar). Nesse entreposto comercial viveram 1.500 pessoas. O caminho inca também passava por ali.

Luxo supremo: quando você volta para o trem, é recebido por um garçom solidário que lhe oferece uma toalhinha úmida para limpar as mãos, o rosto e o pescoço.

Antes do jantar, que segue o mesmo esquema do almoço, descemos em La Raya, o pico mais alto da viagem, com 4.319 metros, na divisa de Cusco com Puno, dois dos três Estados que o trem percorre –o último é Arequipa. Ao redor de uma igreja, do lado oposto à montanha Chimboya, coberta de neve, 20 ou 30 "cholas" (camponesas de sangue mestiço vestidas com chapéu, botas, saias-anáguas coloridas e casacos ricamente bordados) vendem agasalhos, gorros e luvas. Pergunto onde estão os homens, pois durante todo o dia só vi mulheres trabalhando. Elas riem e uma diz: "Vendo televisão".

Por volta das 23h estacionamos no porto de Puno, às margens do Titicaca.

SEGUNDO DIA

Depois do café, caminhamos até o cais e pegamos um barco. Um guia simpático e enciclopédico nos explica tudo, da formação do Altiplano peruano à espessura da pele da "Telmatobious culeus", a rã gigante do Titicaca, ameaçada de extinção.

Visitamos o arquipélago flutuante dos Uros, povo pré-incaico que vive em pequenas ilhas de "totora", um tipo de junco. Cada ilha leva um ano para ser construída e dura mais ou menos 25 anos. A cada duas semanas novas camadas de totora são depositadas sobre a palha velha. Em cada ilha mora uma média de cinco famílias, em casas de totora.

A economia dos Uros se limita à caça de aves, à pesca e à venda, para os turistas, de tecidos e barcos em miniatura. Desde o governo Fujimori, nos anos 1990, fazem uso de placas de energia solar; pelas portas abertas das cabanas, podemos ver suas televisões.

Navegando por mais uma hora, chegamos à terceira maior ilha do lago, Taquile. Seus 3.200 habitantes ainda se vestem como há 400 anos e usam técnicas tradicionais de tecelagem. Todos, homens e mulheres, são tecelões. Se um homem não sabe usar um tear ou manejar agulhas, nem pode casar.Aos 12 ou 13 anos, meninos e meninas têm que mostrar que são capazes de tecer seu próprio gorro.

Há praias lindas de água azul cobalto na ilha de Taquile. E trutas frescas, servidas com deliciosas batatas minúsculas, em forma de dedos tortos.

Quando voltamos a Puno, às 16h, somos recebidos por um chá da tarde (na verdade, um ponche com pisco), num galpão verde-musgo à beira-lago. Lareira, vista dos guindastes. E os rostos brancos dos europeus muito vermelhos por conta do sol forte.

Em pleno pôr do sol, o trem sai de Puno e, rumo à Arequipa, entra no deserto.

TERCEIRO DIA

Acordamos às 5h30 para ver o nascer do sol entre duas montanhas, sobre uma lagoa. Com exceção do trem e dos trilhos, não há nada de humano perto de nós. Só areia, pedra e mato ralo.

Da janela do vagão-restaurante, tomando café e lamentando o fim iminente da viagem, vemos um rebanho de lhamas pastando e, atrás dele, um vulcão. Américo, o guia, diz que há mais de 60 vulcões na região de Arequipa, alguns em atividade.

Fazemos uma última parada para conhecer as Cuevas de Sumbay (cavernas de Sumbay), em cujas paredes há pinturas rupestres –de lhamas (ou alpacas, ou vicunhas), de pumas e de um xamã– datadas de 6.500 anos. As paredes ilustradas ficam num cânion, a 30 metros de profundidade.

Antes de chegar a Arequipa, nossa turma de jornalistas desce na Reserva Nacional de Salinas e Aguada Blanca, criada em 1979 para proteger as vicunhas, àquela altura ameaçadas de extinção.

O trem –sem dúvida a melhor maneira de atravessar uma geografia milenar– vai embora, sacolejando de alegria, com seu bar flutuante com muita pena de nós.


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