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Ano VII - Nº 351

Especial

Quebrando o tabu

Um milhão de pessoas se suicidam a cada ano em todo o mundo. No Brasil, calcula-se que sejam pelo menos 10 mil óbitos. Chegou a hora de tratar o assunto como uma questão de saúde pública e não como tabu.

Postado em 14 de Maio de 2014 - Redação Semana On

Ao ano, quase um milhão de pessoas morrem em decorrência de suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato está entre as dez causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo. Ao ano, quase um milhão de pessoas morrem em decorrência de suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato está entre as dez causas de morte mais frequentes em muitos países do mundo.

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Ao ano, quase um milhão de pessoas morrem em decorrência de suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ato está entre as dez causas de morte mais frequentes em muitos países. No Brasil, são registradas 10 mil mortes por ano, com uma taxa de 4,8 a cada 100 mil habitantes. Diante destes dados podemos pensar o suicídio como uma questão de saúde pública? Especialistas na área de saúde mental defendem que sim. E acreditam que esses números podem diminuir se aumentarem os debates sobre o assunto. Profissionais de diversas áreas tem buscado desmitificar esse tabu.

A troca de informações pode ser muito útil para diminuir os índices de suicídios. A OMS estima que 90% dos casos podem ser evitados quando há oferta de ajuda. Em geral, seis meses antes de consumar o ato, pessoas com pensamentos suicidas procuram ajuda de profissionais, em especial em clínicas médicas. Esta constatação, feita pelo Grupo de Pesquisa de Prevenção do Suicídio (PesqueSui/Icict/Fiocruz), questiona o atendimento primário à saúde. "Quem já tentou o suicídio tem um risco ainda maior. Toda tentativa precisa ser olhada com atenção", diz a psicóloga Clarice Moreira Portugal, pesquisadora no grupo.

O PesqueSui realiza estudos sobre suicídio e ideação suicida, o uso de emergências psiquiátricas pela população e métodos de educação em massa sobre saúde mental. Em 2012, o grupo lançou o livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, organizado pelo pesquisador Carlos Estellita-Lins. A obra relata o atendimento, nas emergências dos hospitais da cidade, a pacientes que tentaram se matar. Estellita diz que entre as principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde no atendimento desses casos no Brasil estão a precariedade na formação em urgências psiquiátricas e em suicidologia.

Em geral, seis meses antes de consumar o ato, pessoas com pensamentos suicidas procuram ajuda com profissionais, em especial em clínicas médicas.

"Precisamos admitir que o suicídio é uma questão que diz respeito a todos os profissionais de saúde. Todos nós devemos buscar capacitação profissional para lidar com isto. É um assunto extremamente difícil e não é exclusivo do psiquiatra, do psicólogo, do psicoterapeuta, mas de todo profissional de saúde. Na Europa já existe uma tendência que diz ser um assunto da comunidade como um todo. Quer dizer que cada cidadão tem de se preocupar e tentar ajudar. O outro extremo é o treinamento dos profissionais, especialmente nas emergências. O que temos percebido em alguns estudos é que as emergências psiquiátricas estão muito defasadas, existe pouco treinamento do residente e ainda são separadas da emergência geral, o que é uma tendência antiga”, afirma.

Grupos de Risco

Nos últimos 45 anos, as taxas de morte por suicídio tiveram aumento de 60% no mundo, segundo a OMS, ficando entre as três causas de morte mais frequentes em populações de 15 a 44 anos, em alguns países, e a segunda maior causa em grupos de 10 a 24 anos, em outras regiões.

Nas populações brasileiras, houve um crescimento de suicídio entre os jovens, idosos, além de uma interiorização dos casos. Em 2008 foram registrados altos índices nas regiões de Amambaí e Paranhos, ambos no Mato Grosso do Sul: 49,3 e 35 casos de suicídio por 100 mil habitantes, respectivamente, segundo o DataSUS – Banco de dados do Sistema Único de Saúde. Em Ibirubá (RS), 34,5. Já Nova Prata do Iguaçu (PR) está em 15º lugar no Brasil, com 24,7 casos. Em Mato Grosso do Sul, as comunidades indígenas tem taxas bem elevadas. No Rio Grande do Sul a incidência é maior em comunidades de colonos ou aquelas ligadas à indústria fumageira.

Essas são as informações registradas. Mas o que acontece muito é a subimputação e mesmo subregistro dos óbitos. Ao examinar no DataSUS as mortes por causas externas o PesquiSui verificou uma ampla fatia de óbitos não especificados. É possível que mais de 20% destes sejam suicídios não investigados ou deliberadamente subtraídos no preenchimento do atestado. Mortes por suicídio constam, em laudos de óbitos, como “morte causada por lesões autoprovocadas voluntariamente”.

Falar sobre suicídio não provoca o suicídio

Se falar sobre suicídio é um tabu mesmo entre profissionais de saúde, na imprensa há um acordo tácito que diz que suicídios não devem ser noticiados. Abre-se exceção para casos envolvendo pessoas públicas, mas ainda assim mantendo-se certos resguardos. O objetivo seria evitar que as notícias estimulem novos suicídios.

No entanto há quem discorde desta política de silêncio e garanta que o resultado é exatamente o oposto. Na tentativa de fazer frente ao problema, o Ministério da Saúde propôs, em 2005, a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio (ENPS), criando grupos de trabalho, diretrizes nacionais, seminários, além do Manual de Prevenção do Suicídio para Profissionais das Equipes de Saúde Mental, lançado em 2006. Entre as ações da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), um manual de imprensa esclarece jornalistas sobre termos específicos e traz um panorama com dados e informações gerais que permitem uma compreensão mais adequada da saúde mental; e uma outra publicação, o livreto Comportamento suicida: conhecer para prevenir, orienta os jornalistas sobre como abordar o tema, preservando o direito à informação e contribuindo para a prevenção.

A imprensa evita publicar suicídios temendo o que os especialistas chamam de "efeito Werther". O nome remete ao personagem de um livro de Goethe, publicado em 1774. As Desventuras do Jovem Werther relata a história de um jovem apaixonado por Charlotte, mulher casada e feliz. Werther, inconsolável, se mata. Historiadores relatam que o livro foi proibido em vários países por causa de uma súbita epidemia de suicídio entre jovens.

Se falar sobre suicídio é um tabu mesmo entre profissionais de saúde, na imprensa há um acordo tácito que diz que suicídios não devem ser noticiados.

O efeito contágio existe, diz o médico Carlos Felipe Almeida D'Oliveira, formulador e ex-Coordenador da ENPS e coordenador da Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio (REBRAPS). No entanto, segundo a ABP, quanto mais informações forem postas à disposição da sociedade, maiores as chances de se evitarem novos casos de suicídio. Além disso, a divulgação dessas informações pode ajudar a quebrar o tabu gerado em torno do tema e evitar que o tema seja tratado com leviandade na mídia.

Ou seja: “o suicídio é um problema de saúde pública que pode e deve ser combatido", diz Carlos D'Oliveira. Para isso, é preciso mobilizar a imprensa, garante. "Não falar, não debater, não mostrar que esse é um problema de saúde pública só agrava o quadro. É preciso falar abertamente tirar a vergonha e a culpa."

O jornalista Arthur Dapieve decidiu investigar a relação da imprensa com o suicídio. Sua dissertação de mestrado, defendida na PUC-Rio, transformou-se no livro Morreu na Contramão - O Suicídio Como Notícia. "Eu queria saber se era um medo inventado pela imprensa", diz Dapieve. "Em 2004, por exemplo, o jornal O Globo registrou apenas três casos de suicídio em todo o Estado do Rio. Houve muito mais que isso", afirma. "Mas a imprensa só reflete a sociedade à qual ela serve, e essa sociedade tem medo de tocar no assunto."

A opção pelo silêncio está sendo rompida pela visão de que é melhor debater o problema que se esconder dele. O consenso que começa a se construir é que a sociedade não pode mais negar sua atenção ao suicídio.

"Falar sobre suicídio não provoca o suicídio", diz a especialista em saúde mental Maria Fernanda Cruz Coutinho, que também integra o PesqueSui. "Colocar a questão em pauta na mídia, nas escolas e instituições permite que se converse mais sobre isto. É preciso fazer circular, de modo global, informações a pacientes, familiares e profissionais da saúde", reforça.

Identificando e ajudando

Sabe-se hoje que praticamente 100% dos suicidas têm algum tipo de transtorno psiquiátrico, muitas vezes não diagnosticado ou corretamente tratado. O sofrimento causado pela doença aliado a outros fatores pode levar a pessoa a pensar em se matar. Identificar rapidamente pessoas com transtornos psiquiátricos, principalmente depressão, pessoas que falam em se matar, e sugerir a elas um tratamento adequado, o mais rapidamente possível, é algo que toda a sociedade pode fazer afirma Humberto Corrêa, presidente da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da ABP e representante no Brasil da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio.

“Quando um assunto é tabu, não o discutimos abertamente, não estudamos, não pesquisamos. Jogamos para debaixo do tapete. De onde surgiu esse estigma, esse tabu? O suicídio existe desde que existe o ser humano. Temos relatos de suicídios nas mais antigas e variadas culturas. Na nossa cultura, ocidental cristã, o suicídio se transformou pouco a pouco em uma questão problemática”, opina o psiquiatra.

Para Corrêa, é preciso agir. "Identificar rapidamente estas pessoas e sugerir a elas um tratamento adequado, o mais rapidamente possível, é algo que todos podemos fazer. Pressionar o poder público para estabelecer campanhas e estratégias de prevenção, com segmento de todas as pessoas que fizerem tentativas graves de suicídio, todos nós devemos fazer. Investir em mais estudos e pesquisas sobre o tema nos permitirá melhor compreendê-lo e prevenir o ato", afirma.

O psiquiatra José Manoel Bertolote, autor do livro “O Suicídio e sua Prevenção” e ex-chefe do Programa de Prevenção do Suicídio da OMS também aponta a falta de diálogo sobre o tema como um fator preocupante. “O suicídio é uma situação de crise na vida que é absolutamente evitável, é uma eventualidade que ocorre geralmente na vigência de uma doença mental e é importante que cada cidadão se sinta responsável pelo vizinho ou parente que ele perceba estar em crise”.

Ações na Saúde e na Mídia

Além do PesqueSui, na Fiocruz outras iniciativas desenvolvem trabalhos e projetos estratégicos em saúde mental para capacitar profissionais da saúde, qualificar o campo de pesquisa e fortalecer políticas públicas de saúde, de direitos e do cuidado integral em saúde mental e de campos relacionados. Dentre estes destaca-se o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (Laps), vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública e o Grupo de Trabalho em Saúde Mental, que fica na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), dentro do Laboratório de Educação Profissional em Atenção à Saúde (Laborat).

A pesquisadora Nina Soalheiro, associada aos dois grupos, ressalta que a atenção básica, enquanto porta de entrada da rede pública de saúde, "pode e deve identificar os sinais, a gradação do sofrimento, as características que o paciente com tendência suicida apresenta, seja por meio de pensamentos de desesperança, desespero ou desamparo". Nina coordena o curso de especialização técnica de nível médio em saúde mental na Escola Politécnica, que, assim como o curso de especialização do Laps/Ensp, coordenado pelo professor Paulo Amarante, inclui em seu currículo a discussão sobre o suicídio como um problema e um desafio para a saúde pública.

Além destas ações, a Fundação também aposta em meios de ampliar o acesso à informação. A pedido do PesqueSui, o historiador e documentarista Eduardo Thielen, da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, teve um novo desafio: transpor os debates sobre saúde mental para a linguagem audiovisual, criando imagens e textos para comunicar as informações. O resultado foi positivo. Embora o grande desafio tenha sido como encarar o tema, que é um tabu, o filme Suicídio no Brasil conseguiu abordar o tema falando que o fato existe, mostrou os grupos de risco e a que fatores estão associados.

Suicídio no Brasil

"A proposta era dar uma introdução geral à ideia de suicídio, com base nas pesquisas feitas, em especial às do PesqueSui, com uma linguagem compreensível à maioria da população", diz Thielen. Para dar a 'voz do povo' ao documentário, ou seja, uma opinião sob o ponto de vista do senso comum, foram feitas entrevistas com transeuntes na Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, mais surpresas. "O mais curioso foi a facilidade das pessoas ao falar sobre o assunto. Quando levantamos o tema, sempre havia um ou outro com histórias para contar".

A ideia de Thielen é que o documentário tenha uma segunda parte, para abordar grupos de risco, como adolescentes, idosos e indígenas. Para os interessados em saber mais sobre a questão, Thielen recomenda o filme nacional Elena, idealizado a partir das lembranças da diretora Petra Costa sobre sua irmã que cometeu suicídio.

Ação Pioneira

O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma entidade pioneira na prevenção de suicídios no Brasil. Inaugurado há 45 anos, o CVV existe graças ao trabalho de 2.500 voluntários que se identificam apenas pelo primeiro nome. Eles se revezam em plantões de quatro horas semanais para atender, pelo telefone 141, 1 milhão de chamadas por ano. É uma ligação a cada 35 segundos.

Os números do CVV mostram a carência de um atendimento público apropriado. Registros na literatura internacional mostram que 40% dos suicidas procuraram algum serviço de saúde na semana anterior à morte.

“Nosso trabalho é totalmente voluntário e estamos aqui para ajudar, a questão da propagação de fatos como este ou mesmo chacotas a quem tem dúvidas levam algumas pessoas a tomarem atitudes erradas e que possam se arrepender”, explica Roberto Sinai, responsável pelo setor de relações públicas do CVV em Mato Grosso do Sul. 

Segundo Sinai, qualquer atitude é bem vinda diante de um potencial caso de suicídio. “As pessoas precisam ser mais ouvidas e menos julgadas”, afirma.

A atividade é totalmente voluntária e todas as ligações feitas ao Centro de Valoração à Vida são sigilosas. Para ligar de Campo Grande para o CVV o número é 141. Para quaisquer outras cidades de Mato Grosso do Sul, os números são (67) 3383-4112 e (67) 3383-4113.


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