Semana On

Terça-Feira 12.dez.2017

Ano V - Nº 283

Governo agetran

Especial

A saúde para as pessoas

Formação voltada ao mercado e não ao ser humano desumaniza a medicina no Brasil

Postado em 24 de Novembro de 2017   - Victor Barone , André Cabette Fábio, Murillo Velasco e José Coutinho Júnior

A dona de casa Cirene de Souza, cega do olho direito por conta de um glaucoma, espera em uma fila do Sistema Único de Saúde (SUS) por uma cirurgia para não perder a visão do olho esquerdo, em Itumbiara, na região sul de Goiás. Questionado sobre a demora do procedimento, o médico oftalmologista Júlio César Leão disse que só faria a operação no dia em que “ele quisesse”.

Sem saber que estava sendo gravado, o médico ainda ofendeu a repórter da emissora que acompanhava o caso. “Vocês ficam me aporrinhando, sabem que dia que eu vou operá-la? O dia que eu quiser. Sacou? Vai comer merda!”, disse o médico enquanto joga o papel que estava segurando na mesa.

O caso ocorreu na tarde de terça-feira (21) no Instituto de Olhos de Itumbiara, clínica pertencente ao médico e credenciada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Cirene perdeu a visão do olho direito por conta de um glaucoma. Atualmente, ela aguarda para fazer uma cirurgia de urgência, para se livrar da catarata que ameaça o olho esquerdo.

Ela só anda com a ajuda do marido, que sustenta a família com um salário mínimo. Além dela, outras 20 pessoas estão na fila de espera pelo procedimento. Depois das declarações ofensivas à equipe de reportagem, o médico disse que Cirene deve ser operada ainda este ano.

“Ela deve ser operada talvez até o final de novembro ou em meados de dezembro, a gente possa estar fazendo a cirurgia dela”, afirmou.

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Após atender um mecânico de 42 anos, um clínico geral da Santa Casa de Serra Negra, no interior de São Paulo, postou em sua página do Facebook uma foto em que mostra uma receita médica e a mensagem: “Não existe peleumonia e nem raôxis”. Ele fazia referência às falas do paciente, que estudou apenas até o segundo ano do ensino fundamental. O deboche rendeu a demissão do médico pelo hospital.

“A gente lamenta porque essa não é postura da Santa Casa. Nossa postura é de respeito e de dedicação às pessoas”, afirmou Margarida Gerosa de Barros Manetti, provedora do hospital, em entrevista ao jornal carioca “Extra”. O Conselho Regional de Medicina abriu uma sindicância para apurar a conduta.

Posteriormente, o médico postou uma outra foto na internet na qual aparece “fazendo as pazes” com o mecânico e pedindo desculpas. Também anunciou que fará trabalho voluntário.

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Em Mato Grosso do Sul, duas reportagens da jornalista Liziane Berrocal também apontam para casos nos quais a humanização é deixada de lado na relação entre médicos e pacientes. Em um deles, uma médica expulsou uma paciente da sala de consulta do CEM (Centro de Especialidades Médicas), em Campo Grande, dizendo que a doença era “frescura”.

Outro caso acabou em uma denúncia contra uma médica obstetra da Santa Casa de Campo Grande. Novamente – a exemplo do caso acima - a profissional de saúde classificou a dor da paciente como “frescura”. A criança acabou nascendo no corredor do hospital.

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Estes são apenas alguns exemplos de como a saúde no Brasil anda perdendo seu caráter humano. De acordo com Ricardo Teixeira, professor de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), atitudes como estas vão contra a ideia de “tratamento humanizado” e não só prejudicam a imagem da profissão, dos hospitais e unidades de saúde, mas a própria saúde dos pacientes.

O que é o tratamento humanizado

O tratamento humanizado é aquele em que o médico entende o paciente como indivíduo, uma pessoa com personalidade e necessidades particulares. O profissional de saúde estabelece com esse paciente um diálogo a partir do momento da investigação sobre a doença à prescrição e aplicação do tratamento ou procedimento.

De acordo com Teixeira, isso é fundamental para que o paciente confie no médico e cumpra as mudanças de hábito que este prescrever. “A capacidade de diálogo e de estabelecer uma relação de confiança se tornou imprescindível porque 90% das prescrições médicas são mudanças na vida, da esfera comportamental [como parar de fumar ou evitar certos alimentos, por exemplo]. Tratamento humanizado não é uma questão de bom mocismo, de ser um cara bacana, mas um pré-requisito técnico”, afirma.

Na opinião do professor, “é difícil definir o que é um atendimento humanizado, mas ninguém tem dúvidas sobre quando passa por um atendimento desumanizado”.

Exemplos de atendimento 'desumano'

Diagnóstico insensível

Quando a costureira Edilene Bolkart foi diagnosticada com metástase óssea, ouviu a seguinte frase do médico que a atendeu: “Aproveita o teu filho porque você tem pouco tempo de vida”. O garoto, então com nove anos, estava do lado da mãe, segundo reportagem do jornal “Folha de S. Paulo”. Edilene sobreviveu.

Parto mecânico

O parto também é frequentemente envolto em procedimentos impessoais, padronizados e dolorosos, como repetidos exames vaginais, posição fixa da mãe, jejum, lavagem intestinal, anestesia e uso de fórceps.

Críticos afirmam que muitos procedimentos - com destaque para cesáreas - são desnecessariamente realizados sem que a mãe seja consultada ou informada sobre o que está ocorrendo. Eles servem para acelerar e facilitar o processo do nascimento do ponto de vista médico e do funcionamento do hospital, e não dos pacientes.

A preocupação é com produtividade e o máximo de garantia de que nenhuma complicação vai ocorrer. O relato da veterinária Alessandra Caprara é um exemplo de parto desumanizado. Após ser incapaz de estabelecer um diálogo com a equipe de enfermeiras que a tratava, foi atendida por um médico, que realizou uma cesárea.

“O obstetra não disse nada, colocou os panos, passou algo gelado em mim, me cortou e meu bebê saiu. Trouxeram ele para mim e logo depois levaram embora. Não vi mais meu marido, nem sei quando ele entrou ali. Terminei sozinha, em um quarto, sem nenhuma explicação”, diz Alessandra.

O que torna médicos ‘desumanos’

A desumanização pode parecer frontalmente contrária à ideia da prática da medicina. Mas quem trabalha cotidianamente no sistema público e privado de saúde relata que se manter envolvido e atento aos problemas individuais de um grande número de desconhecidos não é tarefa simples.

A estudante do sexto ano de medicina Clarissa Rogel, 25, conta que, durante os primeiros anos de faculdade, teve disciplinas que abordavam o tratamento humanizado.

Mas a partir do quinto ano, quando passou a trabalhar com mais frequência no pronto-socorro ao lado de residentes e professores, viu como é difícil manter o envolvimento na prática.

Ela relata um episódio em que atendeu um paciente de cerca de 30 anos que tinha complicações graves no braço por causa da quimioterapia para o tratamento de câncer.

Às 22h, Clarissa disse que ele teria que fazer um novo exame e que o resultado sairia em três horas. O paciente começou a chorar. Ele não tinha dinheiro e estava desde as 5h fora de casa sem comer. Quando relatou o problema para médicos residentes, a estudante também chorou.

“Eu nunca me imaginei dizendo isso, mas tem um distanciamento que é necessário por conta desse tipo de desgaste. Se você leva esse tipo de problema para casa todo dia, isso afeta a sua produtividade, você não consegue ajudar as pessoas”, afirma.

Como a desumanização se integra à estrutura dos hospitais

O professor Teixeira, da USP, afirma que o debate em torno do atendimento humanizado ganhou força durante os anos 50, no pós-guerra, quando a implementação da tecnologia no atendimento médico atingiu um novo patamar.

A implementação de procedimentos técnicos padronizados em estruturas hospitalares maiores e mais complexas contribuiu para apagar a dimensão humana individual dos pacientes.

O artigo “Um Paciente, não uma Pessoa: o mau hábito de desumanizar pacientes”, da Escola de Administração de Kellog, ligada à Universidade Northwestern, identifica as formas como a desumanização do atendimento se tornou parte da medicina.

Ele foi escrito a partir de pesquisas sobre administração hospitalar realizadas por Omar Sultan Haque, psicólogo e médico da Universidade de Harvard, e Adam Waytz, psicólogo que leciona na Escola de Administração de Kellog.

A desumanização se integrou à medicina contemporânea. Como resultado, do ponto de vista de parte dos profissionais de saúde, não encarar um paciente como um indivíduo torna-se útil para:

- Lidar melhor com os sucessivos casos de dor, morte e sofrimento com que tem contato - e que muitas vezes são causados ou agravados pelo próprio tratamento.

- ”Desmembrar” os pacientes - em sistema cardiovascular, neurológico, linfático etc - na busca por problemas e permitir o tratamento através das equipes especializadas que compõem os hospitais.

Médicos aprendem, durante o seu treinamento, a controlar suas respostas à dor alheia. A falta de empatia permitiria, portanto, uma avaliação mais objetiva dos problemas que encontram e possibilitariam a recomendação ou aplicação de tratamentos dolorosos, mas necessários.

Embora esta postura coloque o profissional de saúde em uma zona de conforto, ela imputa um sofrimento adicional ao paciente. Além disso, não há evidências de que ela traga benefícios as pessoas em tratamento.

Desigualdade

De acordo com Sultan Haque e Waytz, pesquisas em psicologia social mostram que pessoas costumam encarar aquelas que são diferentes delas mesmas como menos humanas. A relação de poder entre médicos e pacientes tende a ser desigual e colabora para que isso ocorra.

O médico está saudável e no ambiente de trabalho ao qual se dirige todos os dias. Ele tem conhecimento técnico superior sobre o assunto em questão. No sistema público de saúde brasileiro, o médico também tende a ter níveis socioeconômico e de educação maiores do que os do paciente.

Este, por outro lado, está doente, em um ambiente e em uma situação estranhos. Ele não entende o que está passando com seu corpo. E, no sistema público de saúde brasileiro, é em geral menos educado e mais pobre do que aqueles que o atendem.

Falta de autonomia

Pacientes em coma, com problemas de cognição causados por doenças associadas à idade avançada ou desnorteados pelo uso de remédios perdem a autonomia para tomar decisões. Isso também contribui para que deixem de ser encarados como indivíduos.

Desindividualização

O uso de uniformes, com os jalecos de médicos de um lado e os pijamas padronizados dos pacientes de outro, faz com que os membros de cada um dos grupos se pareçam menos com indivíduos e mais com uma peça de coletivos distintos.

Aliado à estrutura do hospital, com suas camas e quartos idênticos, esse fator faz com que os pacientes se pareçam, aos olhos dos médicos, como um grupo uniforme, sem características humanas individuais.

Os próprios médicos também compõem um coletivo distinto, e se sentem menos individualmente responsáveis pelos pacientes de que cuidam, afirma o trabalho.

Humor também retrata a desumanização

Em um esquete do filme “O Sentido da Vida”, o grupo britânico de humor Monty Python é preciso ao abordar a questão. Nele, uma mulher em trabalho de parto se mostra apreensiva e assustada enquanto é submetida a uma série de procedimentos mecânicos por uma equipe barulhenta em uma sala repleta de luzes e máquinas incompreensíveis.

Após o parto, o bebê é rapidamente retirado das mãos da mãe enquanto a maior parte da equipe deixa a sala sem dizer uma palavra. “Você pode descobrir tudo sobre o parto quando chegar em casa. Está disponível em [nos formatos] VHS, betamax e super-8”, diz o médico responsável enquanto vira as costas.

Problema está na formação?

O médico Emerson Elias Merhy - professor titular de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - diz que a saúde no Brasil sofreu uma revolução positiva a partir da criação do SUS (revolução esta que vem sendo atacada impiedosamente, especialmente sob o governo Michel Temer). “A partir da reforma sanitária e do SUS a saúde passa a ser um direito de todos os brasileiros e estabelece-se, portanto, que a vida de todos os brasileiros vale a pena”, diz.

“Você percebe que nem todo médico no Brasil está imbuído da ideia de que a vida de qualquer um vale a pena. É lamentável dizer isso, mas digo com experiência. Tenho 40 anos de docência na escola médica. E lamentável a gente ver que muitas das nossas escolas formam bons comerciantes”, afirma.

Segundo Merhy, a formação em saúde peca na construção de profissionais menos mercantilistas e mais voltados ao cuidado. “Na educação a gente vive até hoje em máquinas burocráticas e institucionais fabricadas pela ditadura. Temos uma defasagem entre uma construção de um SUS que aponta que a ética do cuidado é a garantia de uma saúde qualificada e a universidade, num processo atrasado, com cursos de formação absolutamente voltados a um mercado perverso. Nossas universidades públicas e privadas são do mesmo padrão ético. Soltamos milhares de profissionais das mais variadas áreas todos os anos, todos sedentos pelo mercado, sem nenhum tipo de obrigação por terem sido formados por um fundo público. Não sentem obrigação nenhuma em devolver à sociedade parte do investimento que ela fez nele”.

Merhy lembra que o trabalho na saúde é essencialmente feito tête-à-tête, no encontro com o outro. “Eu posso, mesmo sendo alguém desigual do ponto de vista social em relação a quem estou cuidando, aplacar esta desigualdade no meu trabalho em saúde na medida em que eu encaro o outro como um igual em termos de vida e não um diferente em termos de riqueza. A saúde é diferente das demais profissões, pois se realiza deste encontro entre seres humanos. Hoje nossos profissionais aumentam a distância no processo do trabalho relacional. Eles poderiam diminuí-la. A distância da desigualdade entre ele e um usuário da periferia, por exemplo, acaba aumentando com esta visão equivocada.”

Perfil do médico

O médico padrão formado hoje no Brasil (segundo levantamento do Conselho Regional de Medicina de São Paulo - Cremesp) é do sexo feminino (56,1%), jovem (25 a 29 anos) e branco (73,6%). Estudou em escola privada a vida toda, nunca trabalhou e fez dois anos de curso pré-vestibular. Vem de famílias onde os pais tem curso superior e ganham de 10 a 30 salários mínimos – condição de menos de 3% da população brasileira. Para se fazer uma comparação, 60% da população vive com menos de uma salário mínimo mensal. Além disso, 84% dos estudantes marcou a seguinte afirmação no questionário: “não tenho renda e meus gastos são financiados pela minha família ou por outras pessoas”.

Pesquisa publica pelo Instituo Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2013 revela que, em cada 100 alunos formandos em medicina, apenas 5 revelaram desejo de trabalhar em cidades pequenas e apenas 20% referem que gostariam de atuar em clínica geral ou programa de saúde da família, o que revela uma associação entre a origem sócio econômica do recém formado e sua escolha profissional que recai sobre especialidades valorizadas pelo mercado, que estão mais ligas a tecnologias e menos a humanidades.

Um dado revelador desta situação é o fato de que 70% das vagas de residência médica em Medicina da Família ficam ociosas todos os anos por falta de interessados. Este número de vagas equivale a 10% de todas as vagas em outras especialidades oferecidas no país. No Canadá, na Holanda e na Inglaterra, são reservados 40% para clínica geral.

Na avaliação do professor Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP), o perfil corresponde à elitização do ensino superior como um todo. “Outros cursos muito concorridos apresentam perfis similares. O agravante é que a medicina é um curso muito caro, que pessoas de renda mais baixa não conseguem acessar via Fies [Financiamento Estudantil] ou Prouni [Programa Universidade para Todos] na mesma proporção dos outros por conta dos preços da mensalidade”, apontou.

O médico de família e supervisor do Programa Mais Médicos, Renato Penha, diz não se surpreender com os números. “É pouco comum encontrar pessoas que trabalham e fazem cursos de medicina ao mesmo tempo, porque a carga horária do curso é pesada, o que limita o acesso dos mais pobres. Outros perfis, como indígenas ou negros, mesmo com a política de cotas, são pouco comuns por conta da concorrência”, avaliou.

Scheffer faz a ressalva de que esse perfil de formandos, apesar de centralizar a medicina em um determinado extrato social, não é único responsável pela elitização da área. “Não podemos generalizar. Cerca de 75% dos médicos que se formam trabalham no Sistema Único de Saúde (SUS), que continua sendo o maior empregador de médicos do país. É óbvio que há médicos que trabalham apenas na estrutura privada, mas muitos se revezam nas duas estruturas”, ponderou.

Formação mercadológica

O tipo de formação oferecida nos cursos de medicina brasileiros, no entanto, segue um viés técnico, voltado para o mercado, na qual as especialidades que dão mais dinheiro acabam sendo as escolhas principais dos formados. É o que avalia Joana Carvalho, médica da família no Rio de Janeiro e orientadora na especialização de Saúde da Família.

“O currículo médico hoje nas universidades tem pouco contato com a atenção primária à saúde, que é a estratégia de Saúde da Família. Os estudantes nem conhecem e tem um discurso do senso comum e dos próprios médicos de que a saúde pública é inferior, para pobre, que não tem condição de pagar serviço de saúde de qualidade. Isso precisa aparecer de uma forma mais presente na graduação dos médicos, para que os preconceitos desapareçam”, declarou.

Penha acredita que é preciso também regular a influência que a iniciativa privada exerce na saúde pública. “O cerne é conseguirmos concretizar uma política pública de saúde de qualidade e regular o mercado. Para termos um sistema público e universal, precisamos de pessoas que trabalhem nele, que sejam voltados a ele. Hoje temos a formação na esfera pública, mas o discurso privado é muito forte, priorizando especializações que fogem da área social”, criticou.

Scheffer concorda que o currículo dos cursos deve estar referenciado na sociedade. “Vinte mil médicos são formados todo ano. Os cursos precisam formar profissionais com perfil adequado para a área social, para levar a lugares distantes onde não há médicos. E isso só vamos conseguir com políticas publicas de saúde, remuneração e valorização desses médicos”, afirmou.

O médico Hamilton Lima Wagner é aquele tipo de profissional de saúde que coloca o paciente em primeiro lugar. Especialista em Saúde da Família e Comunidade (entre outras especializações) ajudou a implantar a Estratégia de Saúde da Família (ESF) em Curitiba (PR) na década de 90, e a transformá-la em referência nacional. Para Wagner, o profissional de saúde precisa aprender a olhar o paciente em sua totalidade. Por outro lado, afirma, o poder público deve encarar a saúde e a educação com mais seriedade.

Ele concorda com o descompasso entre a formação em saúde no Brasil e as necessidades das pessoas. “Se você olhar as diretrizes curriculares nacionais de todas as áreas da saúde, elas direcionam para a atenção primária. No entanto, isso ainda é utópico na maioria das faculdades. A maioria dos cursos ainda tem um desenho muito tradicional de formação dentro das diversas especialidades, que são voltadas ao atendimento individual ou da doença e não à orientação para a educação e o atendimento da população dentro das suas necessidades.”

Para Hamilton, o profissional de saúde inserido na Estratégia de Saúde da Família saber lidar melhor com o sofrimento das pessoas. “Às vezes as pessoas vêm consultar, mas o que elas precisam é de um amigo para chorar, para conversar. Quando a gente pode fazer isso faz bem para o nosso coração. Ser médico é uma opção por lidar com a vida. O setor de saúde lida com o sofrimento e as pessoas, muitas vezes, não estão preparadas emocionalmente para isso. Quando trabalhamos em um nível hospitalar, acabamos nos defendendo disso. Não entramos na vida das pessoas, ficamos longe. Na atenção primária isso não ocorre, estamos dentro da vida das pessoas, conhecemos a família delas, sabemos como elas vivem. Isso é difícil. Muitas vezes o profissional de saúde não é preparado adequadamente para lidar com o sofrimento. Isso é o que a residência busca oferecer. Quando saímos da faculdade estamos bem treinados tecnicamente, mas transformar isso em amor, em carinho, em cuidado e em compromisso é algo a mais, é outro processo.”

Como produzir cuidado em saúde

Diante disso, como criar estratégias e práticas que fortaleçam a aproximação entre profissionais de saúde e usuários? Emerson Merhy afirma que o primeiro ponto é desenvolver nas equipes de saúde a capacidade de escutar o que o paciente diz.

“Quando você entra num consultório e se senta perante o profissional de saúde ele não escuta o que você fala. Ele te olha quase com um olho diagnóstico e te passa uma bateria de exames. Ele escuta os exames, mas não o paciente. O que o paciente fala é a coisa mais importante que existe naquele momento. Você não pode trocar a fala do paciente pela fala dos exames. Nada que o paciente diz é mentira. Se ele está fantasiando, aquilo faz parte das elaborações dele para sobreviver em relação ao sofrimento que ele tem. Outro ponto fundamental é que a relação entre a equipe e o paciente tenha continuidade, com criação de vínculos, onde a vida do outro me interessa, mas onde o outro possa perceber que eu tenho uma vida além daquela de ser médico e sentar atrás de uma cadeira. É possível construir uma nova relação. Para isso é fundamental inverter a lógica na formação e no mercado. Essa é uma briga que fazemos cotidianamente e que acreditamos possível”, sustenta.

Segundo Teixeira, da Faculdade de Medicina da USP, a prática da medicina é extremamente exigente. Mas profissionais de saúde devem estar preparados para lidar com isso, e não há justificativa para desumanizar o atendimento.

Formas de humanização

Medicina básica

De acordo com o professor da USP, cursos de medicina devem ser menos voltados para áreas especializadas, como cardiologia ou neurologia, e mais para atenção primária, ligada à prevenção de doenças.

Isso envolve compreender de forma mais completa o contexto em que os pacientes vivem, o que só pode ser feito através de uma abordagem mais próxima e pessoal. “Você tem que preparar o médico para ouvir e lidar com o sofrimento em geral das pessoas, e não apenas com doenças específicas”, afirma.

Reestruturação do atendimento

Ele afirma que pressão excessiva, com grande número de pacientes e um sistema de saúde desfuncional impedem que se desenvolva um atendimento individualizado. “Não adianta o cara ter uma formação com valores humanistas se você tiver que atender 20 pessoas em três horas. Você precisa de condições de trabalho que permitam o diálogo.”

Uniformes

Sultan Haque e Adam Waytz sugerem alguns experimentos para tornar o atendimento mais humanizado. Para quebrar a dicotomia entre médicos de jalecos e pacientes com pijamas, sugerem abolir o uso de jalecos idênticos entre os médicos.

Ressaltar a individualidade poderia contribuir para um atendimento mais humano.

Nomes

Os pesquisadores sugerem também que médicos tomem o cuidado de falar em voz alta os nomes de seus pacientes, e não apenas suas doenças, ao informarem detalhes dos casos para colegas.

Responsabilidades

Dar tarefas para os pacientes em unidades de saúde - como aguar plantas, por exemplo - poderia aumentar a sua desenvoltura e ressaltar sua identidade nesses ambientes.

Mais propostas para sair deste caos

A remuneração de um especialista no Brasil é aproximadamente 1000% maior do que a do médico de família. No Reino Unido os especialistas ganham, no máximo, 30% a mais. Esse é um dado que corrobora a ideia de que se o governo investisse em políticas que garantissem melhor remuneração e condições de trabalho, haveria mais procura.

Outra proposta é trazer para os cursos de medicina jovens advindos de outros segmentos sociais. Existem programas de financiamento de estudos (Prouni – Programa universidade para Todos e Fies- Fundo de Financiamento Estudantil) que tem permitido que alguns desses indivíduos façam cursos mais caros como o de medicina, mas este número ainda é muito pequeno.

Outra ideia que surge seria uma mudança na seleção dos candidatos ao curso de medicina, onde haveria um processo de escolha que envolvesse indivíduos mais comprometidos com as demandas reais do sistema de saúde.

Um outro dado importante é o crescimento do contingente feminino na área médica. Hoje, 60% dos médicos pertencem a este gênero. Essa mudança influencia o modelo de cuidados de pacientes e a organização da saúde, com suas vantagens e desvantagens. Observa-se que as mulheres escolhem mais as especialidades básicas como a pediatria e a ginecologia. Outra característica feminina é o fato delas discutirem mais os tratamentos com os pacientes. Como efeito negativo temos o fato de que as mulheres preferem fazer cargas horárias menores do que os colegas homens, e não querem ir para cidades distantes dos grandes centros. Por último, negativamente, elas se aposentam antes dos homens.

Alguns professores advogam a ideia de que a reforma deveria começar no vestibular de ingresso, que hoje se baseia na meritrocracia, isto é, os melhores alunos é que são escolhidos para cursarem a faculdade de medicina. Estes pesquisadores pensam que deveria haver alguma outra forma de seleção que envolvesse outros critérios como a maneira como este candidato vê o mundo, a saúde e seus desdobramentos. Estas experiências já acontecem no Canadá, onde questionários são aplicados durante o curso pré-médico e na Holanda, onde até sorteio entre os primeiros colocados é feito na tentativa de diversificar e não deixar os candidatos homogêneos, como acontece no Brasil.

O importante é que devemos ter sempre em mente que devemos formar profissionais que atendam às necessidades básicas de saúde da população independente do indivíduo ser rico ou pobre, pertencente ou não a uma minoria, habitante do mundo rural, urbano ou de áreas isoladas.


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