Semana On

Sexta-Feira 24.nov.2017

Ano V - Nº 281

Gov Refis

Entrevista

Não existe outro mundo a se construir, mas outras relações e modos de vida

Antropóloga Alana Moraes fala dos caminhos e descaminhos da esquerda

Postado em 07 de Novembro de 2017   - Patricia Fachin – Unisinos

Antropóloga Alana Moraes fala dos caminhos e descaminhos da esquerda Antropóloga Alana Moraes fala dos caminhos e descaminhos da esquerda

O pensamento do filósofo alemão Walter Benjamin e da geração do entre guerras é oportuno para refletir sobre o atual momento político do Brasil e sobre a crise da esquerda, porque essa geração, embora tenha sido “atormentada pela emergência do fascismo”, “se deu conta de que a ideia de um tempo histórico acumulativo que nos guiaria sempre ao ‘progresso’ não passava de uma ficção”, diz a antropóloga Alana Moraes. Segundo ela, Benjamin pensa “em um modelo de história atravessado por tempos aleatórios e que, por isso mesmo, está aberta a todo tempo a uma erupção imprevisível do novo. Essa é a aposta otimista de Benjamin que precisamos resgatar: fomos derrotados, mas está tudo outra vez em aberto”, sugere.

Ao analisar a situação da esquerda brasileira, Alana é enfática: “Não acredito nesse clamor atual por uma ‘unidade da esquerda’” e nem que “uma unidade ‘programática’ seja possível nem desejável”. Ao contrário, expõe, “penso muito mais em alianças e essas alianças têm mais chance de acontecer em torno de uma causa situada, de um problema comum. Falo desde a experiências das ocupações urbanas. Elas nos colocam problemas muito concretos: como vamos cozinhar para tantas pessoas, como vamos fazer um banheiro, ter energia elétrica, cuidar das relações, dos sofrimentos uns dos outros? Acho que essa conjuntura de precariedades generalizadas vai nos impor, querendo ou não, esse desafio. Como vamos manter um posto de saúde funcionando? Como vamos garantir o funcionamento das escolas no bairro que estão ficando sem merenda, sem materiais básicos? O ‘diálogo’ vai ter que se dar no terreno da prática, da nossa sobrevivência”.

Alana Moraes também aposta num “trabalho intenso de pesquisa para entender as ‘novidades’ de organização e resistência do ponto de vista das lutas”, porque “só as lutas, o movimento, a experimentação é que vão nos restituir a potência e nos fazer escapar desse lugar de espectadores ou de comentadores da conjuntura”, afirma. Entretanto, adverte, “uma pesquisa-luta só pode ser feita com o corpo na rua. Não podemos desperdiçar nossas experiências de auto-organização e resistência, por menores que forem elas, não podemos deixar de pensar sobre elas e tentar intensificar suas possibilidades. Precisamos voltar a estar alguns passos à frente. O comitê invisível fala de uma ‘inteligência partilhada da situação’. Eu acho esse um bom caminho para voltarmos a nos organizar de outras formas. O lugar da ‘pesquisa-luta’ é um lugar interessante, ele dessacraliza, por um lado, a ideia de um ‘saber autorizado’ e especializado e, por outro lado, afirma a importância de pensar com a luta e não para ela”.

Na entrevista a seguir, a antropóloga também enfatiza que “a proliferação recente de coletivos, movimentos, e novas lutas no Brasil precisavam se encontrar mais. Estamos tendo um problema muito básico que tem a ver com a ausência de espaços de encontro. (...) O movimento Parque Augusta está impedindo há 4 anos a construção de grandes empreendimentos imobiliários em uma área verde da cidade. Temos centenas de coletivos periféricos que também estão discutindo o território a partir de outras chaves: militarização, racismo de Estado, produzindo novas linguagens”. Diante desse cenário, frisa, “difícil convencer alguém que vivemos em uma ‘crise das lutas’. Talvez a gente viva numa crise do encontro”.

 

Há alguma novidade na cena política nos últimos seis meses?

Estamos todos compartilhando uma sensação de viver em um tempo acelerado, cheio de labirintos. Eu tenho gostado de pensar com Walter Benjamin e com toda essa geração do entre guerras que levou muito a sério o problema do tempo histórico, as possibilidades de transformação, a importância de uma certa virada estética e de sensibilidades para sobreviver em um mundo de catástrofes. Foi uma geração também muito atormentada pela emergência do fascismo e que se deu conta de que a ideia de um tempo histórico acumulativo que nos guiaria sempre ao "progresso" não passava de uma ficção. Benjamin começa a pensar, falando de forma simplificada, em um modelo de história atravessado por tempos aleatórios e que, por isso mesmo, está aberta a todo tempo a uma erupção imprevisível do novo. Essa é a aposta otimista de Benjamin que precisamos resgatar: fomos derrotados, mas está tudo outra vez em aberto. Mas é preciso que tenhamos faro histórico também, voltar a exercer nossa sensibilidade. Nesse fluxo contínuo de informações, nossas intuições ficam anestesiadas.

Não nos faltam "novidades". Do ponto de vista do poder, o governo e o congresso nunca estiveram tão autonomizados da vontade popular. Isso é uma diferença com o fascismo, aliás, que ainda se esforçava para fabricar seu populismo. É o que o Trump tenta resgatar nos EUA. Mas aqui no Brasil, as reformas trabalhistas, da previdência, as movimentações para blindar algumas figuras acusadas de corrupção, as imagens de malas, as escutas divulgadas que envolvem diretamente Michel Temer, nada é suficientemente forte para desestabilizar o governo. Esse é o grande golpe da governamentalidade neoliberal: nos tornar meros espectadores dos jogos de poder, suprimir nossa potência de auto-organização. É a gestão da crise permanente como técnica de governo. Por isso precisamos de um trabalho intenso de pesquisa agora para entender as "novidades" de organização e resistência do ponto de vista das lutas. Só as lutas, o movimento, a experimentação é que vão nos restituir a potência e nos fazer escapar desse lugar de espectadores ou de comentadores da conjuntura. Uma pesquisa-luta só pode ser feita com o corpo na rua. Não podemos desperdiçar nossas experiências de auto-organização e resistência, por menores que forem elas, não podemos deixar de pensar sobre elas e tentar intensificar suas possibilidades. Precisamos voltar a estar alguns passos à frente. O comitê invisível fala de uma "inteligência partilhada da situação". Eu acho esse um bom caminho para voltarmos a nos organizar de outras formas. O lugar da "pesquisa-luta" é um lugar interessante, ele dessacraliza, por um lado, a ideia de um "saber autorizado" e especializado e, por outro lado, afirma a importância de pensar com a luta e não para ela.

A esquerda já dá sinais de recuperar a melancolia?

Estamos em plena reconfiguração do que entendemos por "esquerda". Eu acho que as respostas interessantes cada vez menos virão da esquerda partidária, por exemplo. A esquerda partidária, mesmo em crise, continua pensando em termos de monopólio, quer reivindicar uma certa autenticidade: "nós sabemos o que é ser organizado, eles não", "militância de internet não é militância", "esse feminismo não é suficientemente anti-capitalista", "o movimento negro não é suficientemente anti-capitalista". Não entendo bem esse movimento de um time que está perdendo e se esforça para liquidar qualquer perspectiva de reforço, renovação.

Por outro lado, tem a energia daqueles e daquelas que já estão experimentando. Penso que precisamos recuperar a ideia de "formas de vida" para a superação da melancolia. Isso quer dizer que não existe um "outro mundo para se construir", existem outras relações que vamos produzir nesse mesmo mundo, outros modos de vida. Essa constatação nos exige estar presentes, nos exige pensar em como vamos escapar das armadilhas neoliberais para conseguirmos criar tempos de experimentação e nos implicar em uma nova coreografia que tem menos a ver com "sujeitos políticos" prontos, mas com a feitura de nós mesmos em interdependência. Henrique Parra vem falando sobre "Política do Protótipo". Cito ele: "A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto idealizado e acabado de um modo de vida ou sociedade futura, pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja". Isso tudo nos exige pensar e agir de maneira situada.

Precisamos recuperar a ideia de ‘formas de vida’ para a superação da melancolia. Isso quer dizer que não existe um ‘outro mundo para se construir’, existem outras relações que vamos produzir nesse mesmo mundo, outros modos de vida.

Toda confusão e escândalo feito pelos homens brancos da esquerda em relação ao “lugar de fala”, um pouco, tem a ver com a dificuldade que eles possuem de pensar a partir do corpo. O lugar de fala pode ser uma postura ético-política de assumirmos um determinado lugar pelo qual somos afetados, atravessados e interpelados pelo mundo que habitamos. Não é um lugar de "substância" ou "identidade", mas é um lugar pelo qual nosso corpo sente e reage ao mundo. A denúncia do racismo, nesse sentido, não se constitui como um espaço de "autoridade de fala" - como costumam acusá-lo, mas é um lugar onde corpos são afetados, mortos, expulsos. Os homens brancos de esquerda, se quiserem sair desse lugar melancólico do poder perdido, precisam se situar, "construir o aqui e agora", fazer um corpo que não seja um corpo que se pensa "neutro", vão precisar fazer uma política do cotidiano, do cuidado, da reprodução da vida. E para isso precisam abandonar essa ficção de vanguarda iluminada.

Depois de uma onda de manifestações no início do ano, não se viu mais grandes manifestações no país. Como você explica a falta de manifestações na atual conjuntura? Por que elas diminuíram nos últimos meses?

Esse é justamente o poder atuando em sua forma drástica de despotencialização dos corpos. De certa forma, o Brasil talvez nunca tenha vivido um período tão intenso de grandes mobilizações. As pessoas estão indo para a rua desde 2013. O golpismo foi sagaz de produzir uma leitura pacificada dos conflitos sociais: de um lado as manifestações dos verde-amarelos, de outro as manifestações dos vermelhos. "Nós vamos fazer um Brasil de todos", eles dizem. Esse discurso tem sido usado muito bem pelo Dória: "Vamos entregar São Paulo para os paulistanos". Precisamos saber recuperar o conflito a nosso favor, não negá-lo. O lulismo foi também uma boa pedagogia de domesticação dos conflitos. Como elaborar uma nova radicalidade que não seja aquela óbvia de uma vanguarda que se pensa sempre à frente e dirigente dos processos de luta? Esse é o desafio.

Os rapazes do Movimento Brasil Livre - MBL estão restituindo a potência de alguns corpos atingidos pela crise da masculinidade, pela perda de alguns privilégios. Eles restituem a potência pela aniquilação do outro, pela misoginia que promete o poder da virilidade perdida. São machinhos histéricos em busca de satisfação por uma dominação que eles nunca tiveram. Citando outra vez o comitê invisível, eles terminam o livro "Aos nossos amigos" afirmando que "tornar-se revolucionário é se entregar a uma felicidade difícil, mas imediata". A nossa nova radicalidade está aí, eu penso. Precisamos entender outras formas de restituir nossa potência que não seja via grandes manifestações. Eu encontro essa felicidade quando vou em uma batalha de Slam na rua, por exemplo, ou numa performance dos secundaristas que ocuparam suas escolas e hoje retomam a frase da Emma Goldman "não me convide para uma revolução em que eu não possa dançar", quando estou compartilhando uma refeição numa ocupação de sem-tetos.

Parte da esquerda mais tradicional agora inventou uma cruzada contra o que eles chamam de "cirandeiros". O que são os cirandeiros? Seriam corpos felizes, em festa, celebrando a importância de estarmos juntos, criando novas poéticas de resistência? Eu fico com a felicidade. Quem aposta na mobilização do ressentimento é o fascismo, nossa aposta tem que ser justamente oposta. Os povos indígenas e muitos povos da África sempre souberam da potência da festa como forma de permanecermos em guerra. "O corpo que dança e luta é campo de batalha" escreveu a Julia Ruiz em um texto do Urucum.  

Tem havido um diálogo entre velhos e novos movimentos sociais? Sim ou não e por quê? Quais diria que são as vias possíveis de diálogos entre eles e quais são as dificuldades de estabelecer esse diálogo?

Acredito que tenham algumas brechas abertas e interessantes e elas estão sendo feitas no nível do território. Compartilhar um território em comum e pensar a sobrevivência dele, pensar em como vamos nos implicar com um funcionamento de um mesmo espaço, como vamos produzir juntos um modo de vida, acho que esse é o terreno possível de diálogo. Não acredito nesse clamor atual por uma "unidade da esquerda". Não acredito que uma unidade "programática" seja possível nem desejável. Eu penso muito mais em alianças e essas alianças têm mais chance de acontecer em torno de uma causa situada, de um problema comum. Falo desde a experiências das ocupações urbanas. Elas nos colocam problemas muito concretos: como vamos cozinhar para tantas pessoas, como vamos fazer um banheiro, ter energia elétrica, cuidar das relações, dos sofrimentos uns dos outros? Acho que essa conjuntura de precariedades generalizadas vai nos impor, querendo ou não, esse desafio. Como vamos manter um posto de saúde funcionando? Como vamos garantir o funcionamento das escolas no bairro que estão ficando sem merenda, sem materiais básicos? O "diálogo" vai ter que se dar no terreno da prática, da nossa sobrevivência. Temos que retomar a capacidade de produzir nossas infraestruturas e não sermos mais dominados pelos "modos de fazer" do capital. Isso vale pra internet ou para a gestão dos nossos bairros.

Nos últimos anos, foi feita uma crítica ao PT e aos próprios movimentos sociais que ficaram subordinados ao partido e foram aparelhados. Diante disso, como é possível reinventar a política e os movimentos sociais a partir de agora? De que modo os movimentos autonomistas poderiam contribuir para reconstruir a esquerda, por exemplo, e que tipo de relação deveria existir entre os movimentos e um novo possível governo de esquerda?

Não gosto do termo "aparelhados". Os movimentos sociais fizeram uma aposta em um projeto político e coletivo, isso é legítimo. Esse projeto se esgotou e foi derrotado. Mas também teve sucesso em algumas apostas, como a ampliação drástica do ensino superior, para ficar num exemplo emblemático. Abalou de algum modo a estrutura de classes no Brasil - sem isso, o golpe não teria sentido algum. Mas precisamos saber extrair conhecimento desse esgotamento. Não dá para o PT continuar achando que estava fazendo uma revolução. Os movimentos e forças políticas que estiveram dentro desse projeto, dentro dos governos, poderiam fazer um esforço teórico e político agora de abrir as engrenagens internas do sistema, de apontar as contradições. Ninguém entende melhor como as classes dominantes funcionam como o PT. Precisamos entender como o sistema político se manteve todo esse tempo com Joesley e Odebrecht dando as cartas. No fundo, o que Junho de 2013, entre outras coisas, exigia do PT era isto: se o PT era refém das regras do jogo porque não estar do lado de quem quer destruí-las?

Por outro lado, a proliferação recente de coletivos, movimentos, e novas lutas no Brasil precisavam se encontrar mais. Estamos tendo um problema muito básico que tem a ver com a ausência de espaços de encontro. Essa é a principal vitória do neoliberalismo, na minha opinião. Só para ficar com o exemplo de São Paulo. Aqui hoje temos coletivos que estão atuando contra as apropriações privadas dos espaços da cidade. O movimento Parque Augusta está impedindo há 4 anos a construção de grandes empreendimentos imobiliários em uma área verde da cidade. Temos centenas de coletivos periféricos que também estão discutindo o território a partir de outras chaves: militarização, racismo de Estado, produzindo novas linguagens.

Coletivos que estão na cracolândia denunciando o novo higienismo urbano e tendo que dar conta do desmonte de toda uma rede de assistência. Temos o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto - MTST sustentando ocupações nas periferias, coletivos de arte, midialivrismo, segurança e ativismo nas redes, grupos lutando contra monopólios de todo o tipo, rede de advogados ativistas, redes de agroecologia, temos a experiência do MPL no debate sobre mobilidade urbana, clínicas públicas de psicanálise, uma aldeia indígena lutando pela sua sobrevivência, um quilombo urbano.

Difícil convencer alguém que vivemos em uma "crise das lutas". Talvez a gente viva numa crise do encontro. Nos organizar não tem a ver com estarmos em um partido, mas com a possibilidade de enxergarmos linhas de conexão entre nossas experiências de luta, de sabermos costurar nossos lugares, estarmos abertos a compreender outras situações. "Pensar outramente" - recuperar o projeto antropofágico de pensar com o outro, de se interessar profundamente por aquilo que não é seu e estar aberto a esses atravessamentos.

Quais são as pautas que devem motivar os novos coletivos e movimentos à esquerda no país?

São muitas, não dá para eleger em uma hierarquia de importância. Algumas questões me tocam mais, acho que elas trazem caminhos interessantes. Por exemplo: como vamos viver juntos? Como vamos retomar a possibilidade de, em alguma escala, organizar nossas próprias vidas? Nós, mulheres, nunca deixamos de pensar essa questão. Sempre estivemos vinculadas, querendo ou não, a esse espaço de reprodução básica da vida. Vamos precisar deslocar o tema do "cuidado" para o centro do debate político. Cuidado com as relações, cuidado com os nossos corpos, cuidado com as experiências das nossas lutas. Junto a isso, acho que temos que levar mais a sério a noção de tecnologia.

A Isabelle Stengers propõe a noção de “tecnologia” em contraposição à ideia de “verdade”. É uma distinção ética baseada no postulado de que a “tecnologia” possui um “senso de responsabilidade” do qual a “verdade” sempre escapa. A verdade dos programas, a verdade de uma esquerda que se pensa pura. Ou seja, precisamos elaborar e organizar nossas tecnologias de fazer mundos, de possibilitar modos de vida dissidentes e é isso que vai nos implicar, criar pertencimentos. É o problema da infraestrutura, não podemos deixá-lo escapar. Os governantes querem nos convencer que eles têm o monopólio técnico e especializado de resolver nossos problemas. Por fim, tem o tema urgente da militarização, da repressão, da polícia. Os 18 jovens que estão sendo agora criminalizados por terem feito uma reunião. Intervenções militares em Vitória, no Rio de Janeiro. Isso tudo é muito grave e precisamos nos proteger. Isso nos exige uma contra cartografia de como age o poder hoje, os monopólios, as forças policiais. Não podemos ser ingênuos.

Não acredito que uma unidade ‘programática’ da esquerda seja possível nem desejável. Penso muito mais em alianças e essas alianças têm mais chance de acontecer em torno de uma causa situada, de um problema comum.

Qual tem sido o impacto político dos últimos acontecimentos ao PT, como o depoimento do Palocci, a reação do PT em relação ao depoimento e a carta dele enviada ao partido?

Eu acho que o PT está muito anestesiado. É quase um choque pós-traumático, não consegue produzir muitas reações. Não vejo muita discussão interna no partido, o Lula hoje é a única coisa que mantém o PT. Se o Lula não consegue manter a candidatura, não sei como o PT conseguirá se manter como partido.

Recentemente uma pesquisa realizada pelo Datafolha indicou que mais de 60% dos possíveis eleitores de Bolsonaro numa futura campanha presidencial, seriam jovens. Como você lê esse tipo de resultado?

Acho que essa não é a melhor leitura da pesquisa. O Hugo Albuquerque chamou a atenção para essa sutileza. Quem lidera a eleição presidencial entre os jovens na pesquisa do Datafolha é o Lula. Ainda que o Bolsonaro tenha um eleitorado mais jovem do que a média, ele não é o líder nesse segmento. Penso, como o Hugo, que a melhor chave de leitura dessa pesquisa continua sendo a de classe. O possível eleitorado do Bolsonaro é formado por pessoas ricas e com ensino superior. Sobre pesquisas geracionais, eu fico com aquelas que analisaram as manifestações de Junho de 2013 em comparação com as manifestações pelo impeachment de 2015: aí o corte etário é brutal. Junho foi predominantemente jovem enquanto as manifestações pelo impeachment foram muito velhas e brancas. Acho essa cisão etária mais interessante para pensarmos novos caminhos.

Que alternativas à esquerda vislumbra para as próximas eleições de 2018? Hoje especula-se em torno dos nomes de Lula, Ciro Gomes, Guilherme Boulos. Qual seria o significado dessas possíveis eleições para a esquerda?

Está tudo ainda em aberto. A candidatura do Lula está ainda muito ameaçada pelas forças do golpe de impugnação. O Lula é o nome mais forte, sem dúvida, para enfrentar a direita ainda que o problema de uma recomposição de lulismo seja de difícil resolução. Lula vai ser a figura de reconciliação do sistema ou vai assumir um lugar de ruptura? É possível refazer a aliança de classes do lulismo? Lula vai ser capaz de ser afetado por uma nova geração política que se expressou em junho e que deseja uma outra radicalidade nos modos de fazer política para além do jogo da "participação" definido pelo PT? Eu tenho dúvidas.

Mas o outro lado está também ainda muito confuso, me parece que eles ainda não têm uma estratégia comum. O Bolsonaro virou um monstro que parte da direita não consegue controlar, inclusive os poderes midiáticos. Não estamos levando em conta que parte da direita vai tentar, a todo custo, tirar o Bolsonaro do jogo. O PSDB vai entrar em uma disputa interna explosiva se o Alckmin não conseguir controlar o Dória, e o Aécio já começou a ser rifado também. O MBL está se colocando como um ator que pode operar uma certa reconfiguração com Dória, agronegócio e evangélicos, mas acho que eles não têm cacife para isso. Não se organiza caciques mafiosos, uma casta política completamente integrada ao sistema com gritos histéricos. O MBL vai ter que oferecer algum plano mais seguro, garantias. Enfim, o cenário também não está simples para eles.

Tem alguns atores e atrizes do nosso lado interessantes, que podem entrar nesse jogo na "erupção imprevisível do novo", como dizia Benjamin: O Guilherme Boulos do MTST e a Áurea Carolina, vereadora de Belo Horizonte. Imagina uma mulher negra e feminista em um debate contra o Bolsonaro! Mas acho que temos que seguir em 2017 e pensar uma temporalidade mais de médio prazo. O estrago foi grande, vamos ter que reconstruir toda uma existência e não podemos ser engolidos pela conjuntura eleitoral - precisamos pensar apesar dela. Eu acredito mais no programa em curso das lutas e das experimentações que já acontecem do que na expectativa eleitoral de 2018.

É importante voltar a pensar nas eleições como uma expressão do incontornável de um processo em curso, de um acúmulo de lutas e proposições. Por isso é importante buscarmos os interstícios, os lugares de respiro. Vai ser muito importante tentar criar um novo campo de conflitualidade que escape do enquadramento da polarização desejada pela direita e fabricada pelo antagonismo petismo versus antipetismo. Ao mesmo tempo, não acredito em apelos republicanos à uma esfera pública na qual possamos pacificar o conflito. O conflito está instaurado e a luta de classes nos exige uma coreografia mais intensa, apaixonada. Se o fascismo tem conseguido mobilizar as paixões para um projeto autoritário de dominação, nossa matéria prima terá que ser de natureza radicalmente diferente: uma paixão de liberdade. 2018 também é o ano em que vamos comemorar 50 anos de 68.


Voltar


Comente sobre essa publicação...