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Segunda-Feira 20.nov.2017

Ano V - Nº 280

Gov Refis

Entrevista

Neopentecostais acabam reproduzindo o que foi o estopim da Reforma

Mundo evangélico não pode ser visto como um bloco, diz líder luterano

Postado em 31 de Outubro de 2017   - Anna Virginia Balloussier – Folha de SP

Mundo evangélico não pode ser visto como um bloco, diz o presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pastor Nestor Paulo Friedrich. Mundo evangélico não pode ser visto como um bloco, diz o presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pastor Nestor Paulo Friedrich.

Martinho Lutero (1483-1546) virou prócer da Reforma Protestante, que completou 500 anos na terça (31), ao atacar as indulgências que a Igreja Católica cobrava para "perdoar" pecadores.

Meio milênio passou, e se foi também entre igrejas evangélicas neopentecostais esse princípio caro a Lutero —o de que a fé não está à venda. É o que diz o presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), pastor Nestor Paulo Friedrich, 60.

Fruto do protestantismo do século 16 e no Brasil representado por igrejas como Universal, o segmento adere à teologia da prosperidade, que credita a Deus o sucesso material e promete curas milagrosas. "Cabe avaliar se Jesus teve essa postura de quem resolve todos os problemas como se fosse passe de mágica", diz.

No mundo, calcula-se que existam em torno de 80 milhões de luteranos. No Brasil há 1 milhão, a sétima maior corrente evangélica nacional, segundo o Censo de 2010.

E ela tem que se reinventar, segundo o pastor. Aqui vale o mea-culpa: "Se as pessoas buscam [templos neopentecostais], encontram algo que não conseguimos oferecer".

 

Passados 500 anos, a Reforma ainda tem força?

As dificuldades hoje são diferentes das que Lutero vivenciou. Mas há também semelhanças. Por exemplo, convivemos com práticas religiosas que se assemelham à venda de indulgências. Se você fizer isto e aquilo, se você der tanto dinheiro, seu problema será resolvido. Neopentecostais acabam reproduzindo, na prática, o que foi o estopim da Reforma. A teologia luterana não subscreve essa compreensão. Em Jesus, recebemos a oferta do perdão gratuitamente.

Neopentecostais são a fatia evangélica que mais cresce no Brasil. Como se aproximam e se distanciam de Lutero?

Elemento comum importante: as Sagradas Escrituras. Sua leitura faz a diferença na vida de milhões de pessoas. Existem, é claro, ênfases distintas. Como no tempo de Lutero, a Bíblia está sujeita ao mau uso. Somos uma igreja que se dispõe a ouvir o que outros pensam e como interpretam a Bíblia. Nem sempre as interpretações combinam. Mas respeitamos as diferenças. O tempo ajuda a corrigir eventuais unilateralidades.

Por que, ao menos fora do segmento evangélico, líderes como Edir Macedo, Marco Feliciano e Silas Malafaia se destacam como porta-vozes de uma massa tão diversificada?

Creio que por causa da presença constante nos meios de comunicação: rádio, TV etc. Mas a atenção às suas vozes também se relaciona com o fato de sermos um país em que milhões de pessoas não têm acesso aos direitos fundamentais. Nesse contexto, promessas de solução recebem audiência e até dá para compreender o porquê. A partir da teologia de Lutero, cabe avaliar se Jesus teve essa postura de quem resolve todos os problemas como passe de mágica.

Como protestantes tradicionais veem essa nova corrente?

Um aspecto que enfatizamos muito na confissão luterana é o respeito, e isso se reflete no convívio com as demais igrejas evangélicas. Mas as novas correntes também nos levam à autocrítica.

Convivemos com práticas religiosas que se assemelham à venda de indulgências. Se você fizer isto e aquilo, se você der tanto dinheiro, seu problema será resolvido. Neopentecostais acabam reproduzindo o que foi o estopim da Reforma.

E qual seria ela?

Nós, luteranos, sempre fomos tachados de muito racionais. Nas neopentecostais, a emoção é uma dimensão bastante explorada. Então, temos que aprender com eles também, não só ver o negativo. Se as pessoas buscam essas igrejas, encontram algo que não conseguimos oferecer.

A Alemanha de Lutero —toda a Europa— passa por um processo de secularização. A porção de pessoas que se declara sem religião aumenta no mundo, do Brasil aos EUA. A que atribui o fenômeno?

A liberdade individual se acentua cada vez mais. Isso inclui a opção pela vivência ou não da sua dimensão espiritual. A tradição perde a força. O fato de uma pessoa ter sido batizada em determinada denominação não assegura mais sua continuidade automática como membro da mesma. Declarar-se sem religião não significa necessariamente a rejeição da fé. O que se nega, muitas vezes, é a filiação institucional a uma confissão religiosa.

Em 2011, o sr. assinou, como presidente da IECLB, carta que acata a posição do Supremo Tribunal Federal que passou a reconhecer a união homoafetiva como "entidade familiar". Por que o fez?

A confissão luterana defende a separação entre Igreja e Estado. Entendeu que a decisão do STF promovia a superação da discriminação, da estigmatização de comportamentos diferentes, que tantas vezes culminam em violência e morte. A intolerância é fonte de julgamentos apressados, incompreensão, dor. Mas o acatamento da decisão não significou uma mudança na sua compreensão da bênção matrimonial.

A bancada evangélica quadruplicou de tamanho em 25 anos, de 21 para 80 deputados. Eles priorizam a "família" como tema, combatendo projetos que falem de aborto, união homoafetiva etc. Como o sr. vê essas bandeiras?

A IECLB entende que a participação política faz parte da vivência cristã. Ela incentiva e motiva para uma participação ética de seus membros na esfera política. Nesse sentido, ela defende o diálogo em torno de temas controvertidos e complexos. Ela não apoia posições que, em nome da defesa da família, levam ao sofrimento de pessoas.

Criou-se no imaginário brasileiro um senso comum superficial de que o segmento evangélico está aí para a exploração da boa fé do povo. O chamado mundo evangélico não pode ser visto como um bloco contraposto ao catolicismo.

Pesquisa Datafolha revelou que, na média, evangélicos são menos brancos, têm menos acesso a universidades e são mais jovens. Por que esse perfil prepondera?

As instituições históricas não dão conta das buscas religiosas da população. Os segmentos assinalados se situam no espectro da população em situação de vulnerabilidade, cujas demandas existenciais e de sentido estão sendo atendidas de alguma maneira por novas expressões religiosas cristãs. E esta realidade é mais um elemento que nos leva à autocrítica.

Diz a pesquisa: 57% dos brasileiros avaliaram que os evangélicos sofrem algum tipo de preconceito no país. A percepção de que os evangélicos são discriminados é mais alta entre eles (73%). O sr. concorda que o segmento seja estigmatizado no Brasil?

Criou-se no imaginário brasileiro um senso comum superficial de que o segmento evangélico está aí para a exploração da boa fé do povo. Embora isso até possa ter base de realidade, a questão é mais complexa. Não se pode generalizar. Vigora ainda muita ignorância em relação ao segmento evangélico, e ela acaba envolvendo inclusive as igrejas evangélicas históricas, como é o caso da IECLB. Entendemos que o chamado mundo evangélico não pode ser visto como um bloco contraposto ao catolicismo.

O cisma com a Igreja Católica já foi superado?

A animosidade do passado está em grande parte superada. Tivemos uma aproximação gradativa ao longo de 50 anos. São diversos documentos bilaterais. Em nível global, foram assinadas várias declarações conjuntas. Desde 2013, temos estudado [luteranos e católicos] o documento "Do Conflito À Comunhão". Destaque-se a participação do papa Francisco na celebração na catedral luterana em Lund [Suécia], no dia 31 de outubro de 2016.


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