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Ano IX - Nº 433

Coluna

Benção com farinha

Dória fecha parceria para resolver um problema. Adivinha de quem?

Postado em 13 de Outubro de 2017 - Rodrigo Amém

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De acordo com um estudo da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 11% dos estudantes de 11 a 18 anos apresentam alguma forma de desnutrição. O mesmo estudo indica que 14% sofrem com algum tipo de obesidade. Quando um quarto das crianças apresenta problemas de alimentação, o governo deve intervir. Quer dizer, isso se você compartilha de ideais de esquerda. Para os liberais, a mão livre do mercado deve determinar qual criança deve ser obesa, desnutrida ou os dois.

Por isso eu fiquei surpreso quando o prefeito de São Paulo, depois de reduzir os itens da merenda escolar (presumidamente para combater a obesidade) e de mandar recolher os cobertores de moradores de rua em pleno inverno (sabe-se lá o porquê) e resolveu lançar um programa de combate à fome. Por que Dória, eleito a partir de uma plataforma liberal, meteria as caras num programa tão "assistencialista"?

Não faz muito tempo, João Dória era uma versão mais bem sucedida do Dácio Correia, entrevistando celebridades com perguntas fáceis na madrugada da Rede TV! e afins. Até que a família tradicional paulistana, farta de tantas ciclovias, resolveu elegê-lo e retirar o petista Haddad do governo. Dória foi eleito como promessa liberal. Desses que chegou para acabar com a boca livre, com o coitadismo que emporcalha a Avenida Paulista. Era o bom moço rico (descendente de senhores de engenho) que adora se fantasiar de gari para "varrer a sujeira". Vassourinha do Jânio, alguém lembra?

Por isso o estranhamento da parceria entre prefeitura e a plataforma Sinergia, que produz um troço chamado Farinata. Uma espécie de farinha feita com alimentos quase vencidos de, em teoria, alto valor nutritivo. Para a Sinergia, Farinata teria um valor compensatório na dieta das criancinhas. Dá para usar como farinha mesmo, por cima da comida, ou para fazer bolos e biscoitos. Os defensores dizem que não tem gosto de nada. Os detratores concordam.

Transformar lixo em farinata pode significar economias milionárias. E não é pra isso que os paulistanos elegeram um liberal? Para desonerar o setor produtivo da paulicéia, essa locomotiva que carrega este país nas costas pelo inverno da estagnação econômica? Pode ser que o pobre não precise da ração. Mas a elite de bem precisa.

Bem verdade que a oposição recebeu a ideia com má vontade. Disseram que o prefeito queria dar ração de comida vencida aos pobres. Dória, com a falta de tato que lhe é característica, respondeu que não é ração, é "comida de astronauta", chamou a ração de "abençoada" e tascou um adesivo de Nossa Senhora no pote de biscoitos de Farinata.

E muito das críticas também soam meio desconectadas. O nutricionista Daniel Bandoni afirmou ao portal G1, por exemplo, que a Farinata "descontextualiza totalmente o caráter do que é comer. Comer é um ato que vai além de suprir nutrientes. (...) A gente não coloca só a comida na boca, mastiga e engole." Eu vejo meu almoço de uma forma ligeiramente menos holística. Mas respeito quem espiritualiza até sopa. Acho que esse é o tema daquele livro "Canja de Galinha para a Alma".

Tangentes à parte, a própria prefeitura não sabe se levará a farinata aos necessitados de São Paulo. Existem diversos programas já em funcionamento dando comida acessível para população de risco. E quantos desnutridos efetivamente existem na capital? A secretária municipal de Direitos Humanos, Eloísa Arruda, reconhece que "esses números precisam ser apurados para que nós façamos a complementação nutricional".

Outro problema é que ninguém sabe ao certo o que há dentro da Farinata. Sabe-se que são produtos que seriam descartados. Perto do vencimento, sem condições de venda, etc. Mas quais exatamente, ninguém diz. A plataforma Sinergia, parceira da prefeitura, não tem fábrica e não revela quem são os seus "parceiros".  

Talvez não haja um problema, mas uma oportunidade. É difícil não lembrar do filme "O Expresso do Amanhã".

Por lei, empresas que produzem certa quantidade de lixo precisam pagar pela remoção e descarte desse material. Ora, a diferença entre descarte e doação é a utilidade que se dá para o material na outra ponta. Para essas empresas, transformar lixo em farinata pode significar economias milionárias. E não é pra isso que os paulistanos elegeram um liberal? Para desonerar o setor produtivo da paulicéia, essa locomotiva que carrega este país nas costas pelo inverno da estagnação econômica? Pode ser que o pobre não precise da ração. Mas a elite de bem precisa. Cabe ao vagão de trás agradecer e continuar comendo o pão que o diabo amassou. Com farinata, que é mais nutritivo.


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