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Sábado 21.out.2017

Ano V - Nº 276

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Brasil

Mais da metade dos imigrantes venezuelanos no Brasil recebem menos de um salário

Fome leva indígenas do país vizinho a migrarem para o Brasil

Postado em 15 de Setembro de 2017   - Helena Martins

Quase 80% dos venezuelanos não indígenas que migraram para o Brasil têm ensino médio completo, mas, dos que trabalham, mais da metade recebem menos de um salário-mínimo, segundo dados da pesquisa Perfil Sociodemográfico e Laboral dos Imigrantes Venezuelanos, coordenada pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg), com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Segundo a pesquisa, dos venezuelanos não indígenas que migraram para o Brasil, 78% têm ensino médio completo e 32% fizeram ensino superior ou uma pós-graduação. Dessa população, 60%  exerce alguma atividade remunerada, sendo que 28% está formalmente empregada. Dos trabalhadores, 51% recebem menos de um salário-mínimo, 44% ganham entre um e dois salários e  5% ultrapassa essa faixa. Os principais ramos que empregam essas pessoas são: comércio (37%), serviço de alimentação (21%) e construção civil (13%). Do total, 52% trabalham mais de 40 horas por semana.

A iniciativa de analisar o perfil dos imigrantes venezuelanos derivou do crescimento vertiginoso da presença desse grupo em território brasileiro, sobretudo no estado de Roraima, nos últimos anos. Ao todo, estima-se que mais de 16 mil venezuelanos migraram recentemente para o Brasil, sendo que mais de 8 mil atravessaram a fronteira apenas no ano de 2017. “A pesquisa subsidiará, com absoluta certeza, as ações e políticas migratórias relacionadas a esse fluxo vindo da Venezuela”, disse o presidente do CNIg, Hugo Gallo.

Lançado hoje (12), na sede do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o estudo foi viabilizado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e pela Cátedra Sérgio Vieira de Melo, da Universidade Federal de Roraima (CSVM/UFRR). Para a análise, os venezuelanos foram divididos em dois grupos: os indígenas Warao e os não indígenas. Os waraos foram pesquisados por meio de estudo etnográfico nas cidades de Boa Vista e Pacaraima. Já 650 venezuelanos não indígenas, com 18 ou mais anos de idade, espalhados em 33 bairros de Boa Vista, responderam questionários.

A partir disso, os pesquisadores constataram que 77% dos não indígenas saíram do país de origem devido à crise econômica e política. A perspectiva é de que boa parte desse grupo permaneça no país nos próximos anos. Dos entrevistados, 25% afirmaram que pretendem voltar à Venezuela, deste grupo, 27% não sabe quando retornará e um grupo ainda maior (47%) não pretende retornar “tão cedo”. A violência é apontada como principal empecilho para o regresso: 52% teme atos praticados pelo governo da Venezuela e 16% por criminosos.

Maioria homens

Tanto indígenas quanto não indígenas migrantes são majoritariamente do sexo masculino. No caso dos não indígenas, 72% têm entre 20 e 39 anos e 54% são solteiros, sendo que 71% dessas pessoas moram em locais alugados, muitas vezes compartilhando o imóvel com dois ou até quatro venezuelanos.

A integração com os brasileiros é dificultada pela barreira linguística. Em geral, os venezuelanos em Roraima têm pouco conhecimento do português e muitos não estudam o idioma. A distância é ampliada pelo preconceito. Um terço dos entrevistados afirmou ter sido vítima de preconceito fora do ambiente de trabalho.

Positivo para o Brasil

Professor da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do OBMigra, Leonardo Cavalcante defende que o fluxo migratório deve ser visto como positivo para o Brasil, dado que, ao chegarem ao país, essas pessoas, “que estão na fase ativa”, contribuem com conhecimentos diversos.

Para que essa potência seja efetivada, Cavalcante avalia que são necessárias políticas públicas para ampliar a inserção dos venezuelanos na sociedade brasileira, como ensino de português e aproximação com empresas que tenham capacitação para recebê-los e que atuem em ramos próximos aos que eles ocupavam no país em que nasceram.

Essa também é a opinião do oficial da Acnur, Paulo Sérgio de Almeida. Ao passo que reconhece que o fluxo consiste em “um grande desafio para o Brasil”, dada a diversidade de perfis dos venezuelanos e das condições que os levaram a emigrar, bem como a concentração deles em um só estado, ele sustenta que “migrantes e refugiados trazem enorme contribuição ao país, enriquecendo a diversidade cultural” e ampliando o potencial de “desenvolvimento econômico e social”.

Indígenas

Uma viagem de 925 quilômetros de barco e depois, vencida, de forma oficial ou não, a fronteira entre a Venezuela e o Brasil, três dias de caminhada até Boa Vista, capital de Roraima. Essa é a travessia que muitos indígenas venezuelanos integrantes do povo Warao fazem para passar a viver em território brasileiro. Tanto sacrifício é alimentado por um motivo principal: a fome. Segundo pesquisa, esse é o principal argumento dos Warao quando perguntados sobre os motivos que os levaram a migrar.

O fluxo migratório dos warao começou em 2014. Desde 2016, quando foi criado o Centro de Referência ao Imigrante (CRI), no estado de Roraima, que tem concentrado a recepção de migrantes venezuelanos, a maior parte dos indígenas tem passado a viver no centro, que agrega 500 pessoas. Lá, a situação é difícil.

O estudo aponta que há conflitos entre os indígenas e entre indígenas e não indígenas, superlotação e infraestrutura deficitária. Além disso, a vida no centro representa uma mudança cultural para uma população que tem grande vinculação com seus territórios tradicionais. Ainda assim, mais uma vez, a necessidade fala mais alto. A maior parte dos warao aponta como aspecto positivo do CRI o fato de oferecer alimentação diária.

Segundo o estudo, a maior parte dos warao do sexo masculino que vive no centro não exerce atividades econômicas, já as mulheres desenvolvem trabalhos como costura, produção de artesanatos e solicitação de ajuda em vias públicas. Na instituição, os indígenas têm acesso a serviços públicos, como saúde e educação.

Waraos em situação de rua

O mesmo não ocorre com os cerca de 130 waraos que vivem em situação de rua no município de Pacaraima (RR). Eles estão nessa condição por não terem chegado à capital do estado, Boa Vista, ou por não terem fixado residência nela. De forma precária, os homens warao trabalham com descarregamento de carretas. A inserção das mulheres é menor em Pacaraima. Além desse grupo de indígenas que vivem nas ruas desta cidade, os pesquisadores encontraram outras famílias da etnia, com cerca de 35 pessoas cada, morando em espaços diferentes da rodoviária de Boa Vista.

Há três anos, sequer havia registro da presença desse povo no Brasil. Diante de tal cenário, o diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Fundação Nacional do Índio (Funai), Rodrigo Faleiro, disse que a presença dos warao traz à tona outra realidade à política indigenista brasileira, pois não se trata de reconhecimento de sua existência ou de demarcação de um território, mas da necessidade de desenvolvimento de políticas de assistência. “A condição indígena é singular até pela própria situação documental deles já na Venezuela”, pois muitos não possuíam documentos, o que dificulta o processo de formalização da sua presença no Brasil, exemplificou.

A pesquisa registra ainda as expectativas dessa população em relação ao projeto migratório e aponta que a maior parte tem o objetivo de enviar recursos para os familiares que permaneceram na Venezuela e que “é constante a preocupação com os entes familiares, [que eles] lamentam a falta de informações sobre os que ficaram e expressam a vontade de trazê-los para o Brasil”.

Para o futuro, conclui o estudo, os warao esperam retornar para a Venezuela após a crise política e econômica diminuir para buscar as famílias e refazer o agrupamento dela em Roraima, onde a maior parte pretende ficar.


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