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Ano V - Nº 268

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Poder

A incrível bancada dos parentes na Câmara e no Senado

Fenômeno é mais forte entre as bancadas do Nordeste, mas ninguém escapa

Postado em 10 de Agosto de 2017   - Edson Sardinha - Congresso em Foco

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Multipartidária e composta por representantes de 26 unidades federativas e de todos os partidos com assento no Senado, a “bancada dos parentes” é a mais numerosa na Câmara Federal e no Senado. Maia, Caiado, Alves, Mello, Jereissati, Cunha Lima, Dias, Lobão, Tebet, Viana e Suplicy são alguns dos atuais sobrenomes que acompanharam outros senadores nas últimas décadas. Não por acaso.

Levantamento da Revista Congresso em Foco revela que ao menos 59 dos 81 parlamentares no Senado têm ou tiveram familiares no exercício de mandatos políticos (veja abaixo a relação com o respectivo parentesco). Isso representa mais de 73% dos integrantes da Casa. No Nordeste esse fenômeno é ainda mais forte: alcança 21 dos 27 senadores (78%).

Calheiros, Neves, Barbalho, Requião, Nogueira, Jucá, Monteiro, Portela, Coelho, Raupp, Camelli, Capiberibe, Abreu, entre outros, também são sobrenomes que se repetem no exercício de outros mandatos políticos, por meio de irmãos, filhos, avôs, pais, netos, sobrinhos e cônjuges com passagem por governos estaduais, prefeituras e pelo Parlamento. Atualmente 21 famílias têm, ao mesmo tempo, representantes na Câmara e no Senado.

Os três senadores de dez estados no Senado têm ou tiveram parentes políticos. No DEM, de Ronaldo Caiado (GO) e José Agripino Maia (RN), no PDT e no PR, ninguém foge desse perfil. A mesma situação se dá com 19 dos 22  peemedebistas. Já no PSDB, quem tem a árvore genealógica mais enraizada na política é o senador Cássio Cunha Lima (PB), filho do ex-senador Ronaldo Cunha Lima,  pai do deputado Pedro Cunha Lima (PSDB-PB) e parente de quase uma dezena de outras lideranças.

Quatro senadores escolheram em casa os seus suplentes: Acir Gurgacz (PDT-RO) e Ivo Cassol (PP-RO) escalaram o pai; Eduardo Braga (PMDB-AM), a mulher e Edison Lobão (PMDB-MA), o filho. Todos já se licenciaram pelo menos uma vez do mandato e garantiram aos familiares o gostinho de ser senador por algum período. A escolha de parente para a suplência é o segundo critério mais utilizado pelos parlamentares no Senado: o mais é dar a vaga a um dos principais financiadores da campanha eleitoral.

Dez das 13 senadoras também têm parentesco com algum político. Somente Fátima Bezerra (PT-RN), Regina Sousa (PT-PI) e Lídice da Mata (PSB-BA) fogem à regra. A única bancada estadual onde isso não ocorre atualmente é a do Rio de Janeiro, composta por Romário (Podemos-RJ), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Eduardo Lopes (PRB-RJ).

Professora, Fátima é a exceção que confirma a regra em seu estado. “Sou a primeira representante de origem popular do Rio Grande do Norte nos últimos 50 anos. Isso evidencia o quanto o tradicionalismo e o patrimonialismo estão presentes na política. A maioria dessas famílias têm o controle dos meios de comunicação e dinheiro. Não é razoável que o parentesco seja traço marcante na nossa política”, critica.

Na Câmara, a história é semelhante: pelo menos 62% dos deputados têm raízes ou são precursores de famílias de políticos. Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), por exemplo, representa a quinta geração de um clã que está no Parlamento brasileiro desde 1821, antes mesmo da criação do Congresso Nacional, no tempo das Cortes Portuguesas do Brasil Colônia.

Para o cientista político Ricardo Costa Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em vez de diminuir, a influência do parentesco na política, herança da colonização portuguesa, tem crescido no país, principalmente por causa do encarecimento das campanhas eleitorais. Os números são tão expressivos que fazem o Brasil superar nesse quesito a Índia e sua conhecida sociedade de castas. Pesquisa publicada em 2011  pelo historiador britânico Patrick French mostra que 28% das cadeiras da Câmara indiana eram ocupadas por deputados com políticos na família.

“A política é cada vez mais um negócio de família no Brasil. As eleições estão cada vez mais caras. Muitos políticos bem sucedidos têm de organizar e possuir uma estrutura de dinheiro, uma estrutura familiar política para beneficiá-los. Os candidatos mais fortes e com boas condições de elegibilidade concentram mais dinheiro e muitas vezes contam com a família na política. Isso é um fenômeno também de reprodução do poder político”, explica.

Segundo o professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, não há como compreender o Brasil sem analisar as relações entre família e política. “Não existe a renovação que muitos cientistas políticos apontam no Congresso. Há renovação de agentes que pertencem às mesmas famílias, têm os mesmos hábitos, visão de mundo e práticas dos antecessores. As eleições apenas legitimam esses grupos”, argumenta o cientista social.

Na lista abaixo, há casos de congressistas que, a despeito do parentesco, ou não fizeram uso do sobrenome ou até que são adversários políticos. Casos, por exemplo, do senador Waldemir Moka (PMDB-MS), adversário político dos primos deputados Zeca do PT (PT-MS) e Vander Loubet (PT-MS), e de Reguffe (sem partido-DF), neto de um ex-deputado federal e sobrinho do ex-senador Sérgio Machado (PMDB-CE), com quem nunca teve afinidade política.

Existem, ainda, os que desbravaram sozinhos o espaço na política e agora preparam, dentro de casa, seus sucessores. Qualquer que seja a situação, é inegável que o capital político familiar representa uma vantagem em relação aos adversários e um atalho para o sucesso eleitoral.

A incrível bancada dos parentes na Câmara

A política corre pelas veias da deputada Iracema Portela (PP-PI). Filha do ex-governador Lucídio Portela e da ex-deputada federal Myriam Portela, é casada com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), filho de um ex-deputado com o mesmo nome. Seus tios Petrônio Portela e Eloi Portela Nunes foram senadores. Petrônio presidiu o Senado e empresta um nome a uma das alas da Casa. Outro tio dela, Flávio Portela Marcílio, foi vice-governador e deputado federal pelo Ceará. Antes de se relacionar com Ciro, a deputada foi casada com o ex-governador do Piauí Guilherme Mello.

A frondosa árvore genealógica política de Iracema faz parte de uma floresta que sombreia a Câmara: ao menos 319 deputados têm ou tiveram parentes com mandatos eletivos. Isto é, um em cada seis. Embora se espalhe por todos os estados e regiões, é no Nordeste e no Norte que essa prática tem raízes mais profundas. Dos 151 deputados nordestinos, ao menos 126 (83% deles) são de famílias de políticos. Isso também ocorre com 43 dos 65 deputados (66%) do Norte.

As representações do Rio Grande do Norte e do Tocantins na Câmara são formadas integralmente por parlamentares com familiares políticos. No Piauí, de Iracema Portela e Ciro Nogueira, na Paraíba, no Amapá e no Amazonas, apenas um deputado foge desse perfil.

Engana-se, porém, quem pensa que as “dinastias” políticas são exclusividade das duas regiões mais pobres do país. Elas também estão presentes no Centro-Oeste (53% dos deputados têm parentes políticos), no Sudeste (52%) e no Sul (44%), em todos os partidos políticos e espectros ideológicos, da direita à esquerda. O deputado mineiro Bonifácio de Andrada (PSDB), por exemplo, representa uma família que está no Parlamento desde 1821 e já prepara dois sucessores.

Tattolândia

Entre os petistas, o caso mais curioso é o da família Tatto. O deputado Nilto Tatto (PT-SP) tem quatro irmãos políticos: dois são vereadores em São Paulo (Jair e Arselino Tatto), um é deputado estadual (Enio Tatto) e outro foi deputado federal (Jilmar Tatto). Dos dez irmãos Tatto, nove são filiados ao PT. Procedentes de uma família de pequenos agricultores do Paraná, eles se estabeleceram em uma das regiões mais pobres da capital paulista, a Capela do Socorro, onde começaram a militância na Igreja Católica. O poder político e eleitoral da família é tão forte na localidade que ela ganhou o apelido de “Tattolândia”.

Partido Bolsonaro

A família Bolsonaro, liderada pelo pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro (RJ), tem mais representantes com mandato do que cinco partidos registrados na Justiça eleitoral: o PCO, o PSTU, o Novo, o PPL e o PCB. De malas prontas para o PEN, o patriarca deve levar para o PEN seus três filhos parlamentares: Eduardo Bolsonaro (SP), seu colega na Câmara, o deputado estadual Flávio Bolsonaro e o vereador carioca Carlos Bolsonaro. No ano passado, Flávio disputou a prefeitura do Rio, obteve 424.307 votos (14% dos válidos) e ficou na quarta colocação.

A situação de cada integrante da bancada dos parentes deve ser analisada caso a caso. Há congressistas que, a despeito do parentesco, ou não fizeram uso do sobrenome ou até que são adversários políticos. Existem, ainda, os que desbravaram sozinhos o espaço na política e agora preparam, dentro de casa, seus sucessores. Qualquer que seja a situação, é inegável que o capital político familiar representa uma vantagem em relação aos adversários e um atalho para o sucesso eleitoral.

Conhecer desde o berço os bastidores do meio é apenas um dos diferenciais. Além do poder político, muitos herdam o poder econômico. São mais ricos ou têm mais facilidade de arrecadar dinheiro para as campanhas eleitorais do que seus concorrentes. Muitos são donos de veículos de comunicação, como rádios e TVs e controlam ainda as principais máquinas partidárias de seus estados.

Veja a relação dos senadores e seus parentes

Veja a relação dos deputados e seus parentes


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