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Terça-Feira 12.dez.2017

Ano V - Nº 283

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Mundo

Maduro proíbe protestos na Venezuela às vésperas de voto para Constituinte

Manifestantes detidos relatam suplício na prisão

Postado em 28 de Julho de 2017   - Redação Semana On

O governo de Nicolás Maduro anunciou na quinta-feira (27) a proibição de protestos na Venezuela entre sexta (28) e terça (1º) por ocasião da eleição para a Assembleia Constituinte, marcada para o domingo (30). A oposição chamou seus seguidores a desafiar a decisão com grandes manifestações nos próximos três dias em repúdio à votação —iniciando com a tomada de Caracas na tarde desta sexta.

O ministro do Interior, Néstor Reverol, disse que estão proibidos atos "que possam perturbar ou afetar a normalidade do processo eleitoral". O chavista ameaçou quem convocar mobilizações com detenção e penas de cinco a dez anos de prisão.

A iniciativa do ministro é mais extrema que a lei eleitoral, que proíbe protestos entre a véspera e o dia seguinte às votações. Em entrevista coletiva, a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) anunciou que desobedecerá a ordem do governo. "Vão ter que fazer milhões de cadeias para prender todo o povo da Venezuela que vai amanhã para a rua", disse o deputado Jorge Millán. "Como população temos a obrigação de estar na rua para aprofundar o processo contra a Constituinte", afirmou o vice-presidente do Legislativo, Freddy Guevara.

A proibição é anunciada após o segundo dia de greve geral, que a oposição afirma ter atingido "90% do país". A adesão, porém, foi parcial assim como na quarta (26), com comércio e ônibus privados paralisados e com serviços e repartições controlados pelo Executivo funcionando.

Também se repetiram os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança, que levaram à morte de quatro pessoas: um adolescente de 16 anos na capital e três homens, de 23, 29 e 49 anos em cidades do interior.

Somando-se às três mortes da véspera, a paralisação terminou com sete mortos, elevando para 107 o número de vítimas na onda de protestos.

Enquanto, simpatizantes de Maduro participaram do comício de encerramento da campanha para a Constituinte no centro de Caracas.

No evento, o mandatário propôs um diálogo com a oposição antes da instalação da Constituinte. Ele não deixou claro, porém, se estaria disposto a abrir mão de mudar a Carta do país. "A batalha hoje não é com fuzis, com espadas. Vamos ganhar a batalha com milhões de votos de um povo patriota disposto a dar tudo pela paz", afirmou Maduro.

Diante do aumento da tensão entre o chavismo e seus rivais, os EUA tiraram as famílias de seus diplomatas na Venezuela e o Canadá emitiu um alerta de viagem.

Com a proximidade da Constituinte, o governo aumentou a repressão à imprensa local e estrangeira. Pelo menos dez jornalistas foram agredidos na quinta (27). No aeroporto de Caracas, as autoridades deportaram o jornalista argentino Jorge Lanata. Opositor a Cristina Kirchner, aliada do chavismo, ele chegou a ser preso no local em 2012, após a cobertura das eleições presidenciais.

Manifestantes detidos na Venezuela relatam suplício na prisão

Pele pressionada por alicates, golpes de martelo: quatro dias de prisão deixaram em Luis cicatrizes indeléveis. Seu consolo é ter sido libertado, enquanto centenas de venezuelanos detidos em protestos contra o presidente Nicolás Maduro enfrentam longas condenações.

Luis –nome fictício para preservar sua identidade– é uma das 4.000 pessoas que, segundo a Procuradoria, foram capturadas em quatro meses de manifestações pela saída do presidente Nicolas Maduro. "Diziam que iriam nos matar, cortar em pedaços e jogar no rio Guaire", relata à AFP esse auxiliar administrativo de 30 anos, detido em 4 de julho por militares na capital, Caracas.

Ele afirma que, entre socos e chutes, um soldado beliscou sua barriga e braços com um alicate, enquanto o chamava de "terrorista". Também foi agredido com um martelo nos joelhos e cotovelos. "Torturava escondido de alguns, enquanto outros eram cúmplices", assegura.

A ONG Foro Penal, que estima em 4.500 o número de detenções, afirma que cerca de mil pessoas continuam presas, incluindo 300 por ordem de tribunais militares.

A procuradora-geral Luisa Ortega denuncia os abusos cometidos pelas forças de segurança, às quais atribui cerca de 20 das 104 mortes registradas durante os protestos. Há um "terrorismo de Estado", afirma essa chavista histórica que rompeu com Maduro.

O presidente e seu ministro da Defesa, Vladimir Padrino, alertaram que não vão tolerar abusos, mas denunciam os "atos de barbárie" da oposição para derrubar o governo.

O defensor público Tarek William Saab nega que os tratamentos cruéis sejam uma prática generalizada das forças venezuelanas.

'Pai, me tira daqui!'

Um tribunal civil libertou Luis sem condenação, mas muitos outros não tiveram a mesma sorte. Aos 18, Abraham Quiroz pode ser condenado por um juiz militar a 18 anos de prisão. "Pai, me tira daqui! Estou passando mal. Não consigo respirar", pediu Abraham, aos prantos, ao pai, Nicolás, em um breve telefonema da cadeia de segurança máxima onde está preso.

O jovem foi detido em 2 de julho, em Maracay (centro), com outros 26 jovens. "É uma injustiça bárbara", declarou Nicolás, denunciando que seu único filho foi atingido com força nas costelas.

No dia da detenção, militares e manifestantes entraram em confronto perto de uma universidade pública, onde um grupo de jovens decidiu se refugiar e passar a noite.

Cerca de 40 homens encapuzados e armados invadiram o local durante a madrugada e os levaram. "Foi um sequestro", denuncia à AFP Isva Vera, líder estudantil, acusando grupos civis chavistas, chamados de "paramilitares" pela oposição.

Tribunais Militares

A diretora do Centro de Direitos Humanos da Universidade Metropolitana, Andreína Santa Cruz, denuncia manobras para atrasar os processos.

Apesar da ausência de provas, Luis passou 96 horas preso, ao invés das 48 horas estabelecidas por lei. Os julgamentos em tribunais militares são mais complicados e "obscuros", explica Santa Cruz. Os jovens de Maracay são acusados de "incitação à rebelião" e "violação de zona de segurança".

Os homens (21 no total) foram enviados para prisões de segurança máxima, enquanto cinco mulheres e um jovem deficiente estão em prisão domiciliar. "É muito doloroso pensar no que estão passando", lamenta Naileth, mãe de Joneiker Grajirena, de 19 anos.

Abraham, Joneiker e outros nove estão na prisão de El Dorado, no estado de Bolívar, ao sul do país, junto com criminosos de alta periculosidade.

O governo justifica esses julgamentos, afirmando que os manifestantes cometem delitos de natureza militar como "ataques" a quartéis.

As condições de reclusão pioram as coisas. Luis relata que a pequena cela onde esteve chegou a ter 18 pessoas e sequer tinha banheiro.

A ONG Una Ventana a la Libertad denuncia que, somente nos centros de detenção preventiva, a lotação supera 400%.

Após ser solto, o medo fez Luis não querer sair de casa por 15 dias. "As feridas físicas cicatrizaram", afirma, mostrando a lesão na barriga. "Mas as marcas mais difíceis são as psicológicas", desabafa.


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