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Quarta-Feira 28.jun.2017

Ano V - Nº 260

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Poder

Temer chefia maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil, diz Joesley à revista Época

Presidente perde apoio de deputados do PSDB para barrar denúncia de Janot

Postado em 17 de Junho de 2017   - Redação Semana On

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O empresário Joesley Batista, um dos donos do Grupo JBS, disse em entrevista à revista Época deste fim de semana que o presidente Michel Temer, no poder desde maio de 2016, lidera a “maior e mais perigosa” quadrilha do país. No Brasil para prestar depoimento à Polícia Federal, em que reafirmou todas as denúncias contra o peemedebista, o delator comentava com o jornalista Diego Escosteguy, editor-chefe da semanal, os mecanismos de chantagem supostamente praticados, entre outros, pelo ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB) e pelo doleiro Lúcio Funaro, ambos presos na Lava Jato, quando assim classificou o grupo de Temer:

“Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente”, declarou Joesley, que detalha a atuação do grupo comandado por Temer, presidente do PMDB entre 2001 e 2016, quando se licenciou da função para assumir o comando do país.

A delação premiada do empresário tem relação não só com a Operação Lava Jato, que tem Temer e boa parte de seus ministros e ex-ministros na mira de investigadores, mas também com a Operação Bullish – deflagrada em 17 de maio pela Polícia Federal, apura a ocorrência de fraudes em aportes concedidos pelo BNDES, entre 2007 e 2011, por meio de sua subsidiária BNDESPar.

“O Temer é o chefe da orcrim [abreviação para ‘organização criminosa’] da Câmara. Temer, Eduardo [Cunha], Geddel [Vieira Lima], Henrique [Alves], [Eliseu] Padilha e Moreira [Franco]. É o grupo deles. Quem não está preso está, hoje, no Planalto. Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles. Por outro lado, se você baixar a guarda, eles não têm limites. Então meu convívio com eles foi sempre mantendo à meia distância: nem deixando eles aproximarem demais nem deixando eles longe demais, para não armar alguma coisa contra mim. A realidade é que esse grupo é o de mais difícil convívio que já tive na minha vida”, acrescentou Joesley.

Os relatos e provas apresentados por Joesley são responsáveis pela mais grave crise enfrentada pelo governo Temer. Graças à ação coordenada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), em conjunto com a Polícia Federal, Temer passou de suspeito da Lava Jato à condição de formalmente investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva, associação criminosa e obstrução de Justiça – o primeiro presidente da República a ser investigado, no Brasil, em pleno exercício do mandato.

Recebido secretamente por Temer no Palácio do Jaburu, residência da Vice-Presidência da República, em março deste ano, Joesley gravou o diálogo que teve com o presidente. Na ocasião tratou-se, segundo a denúncia, da compra do silêncio de Cunha, das informações privilegiadas sobre a Lava Jato repassadas por um procurador (também já preso) e da influência do grupo de Temer sobre o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), entre outros temas sem qualquer relação com o exercício do mandato presidencial.

“Conheci Temer através do ministro Wagner Rossi, em 2009, 2010. Logo no segundo encontro ele já me deu o celular dele. Daí em diante passamos a falar. Eu mandava mensagem para ele, ele mandava para mim [...] Nunca foi uma relação de amizade. Sempre foi uma relação institucional, de um empresário que precisava resolver problemas e via nele a condição de resolver problemas. Acho que ele me via como um empresário que poderia financiar as campanhas dele – e fazer esquemas que renderiam propina. Toda a vida tive total acesso a ele”, diz Joesley na entrevista que, segunda a Época, foi feita na manhã da última quinta-feira (15), em conversa que preencheu 12 páginas da revista.

O Planalto tem negado as acusações. Os advogados de Temer contestam a qualidade da gravação e diz que as declarações que serviram para a acusação do MPF estão fora do contexto. Nos próximos dias, é esperada a apresentação de uma denúncia formal do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, reiterando o conjunto probatório do inquérito em curso no Supremo. Caso acatada pelo relator da Lava Jato no STF, ministro Edson Fachin, a demanda de Janot será encaminhada à Câmara, onde precisa de 342 votos (entre 513 possíveis) para virar ação penal. Neste caso, na condição de réu, Temer ficará afastado por até 180 dias. Caso o julgamento não seja concluído nesse prazo, o peemedebista poderia retornar ao mandato.

Sem apoio

O Palácio do Planalto e o PMDB não contam mais com o apoio dos 46 deputados do PSDB para barrar a denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, prepara para apresentar contra o presidente Michel Temer, investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva, associação criminosa e obstrução de Justiça. A retirada dos tucanos dos mapas da guerra de resistência que o governo espera para as próximas semanas ocorreu depois de declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Até há poucos dias fiador da gestão peemedebista, o tucano passou a admitir a antecipação das eleições presidenciais de 2018 como solução para a crise política protagonizada por Temer.

“Este será um momento decisivo para o PSDB. A depender do conteúdo da denúncia, o partido fica ou deixa o governo, vota pela admissibilidade ou rejeita”, disse um dirigente do partido. “Só contarão conosco se a denúncia for fraca. Por que vamos apoiar um governo moralmente insustentável?”, completou o tucano, na esteira das declarações de FHC sobre a aliança com Temer.

Nas contas de deputados da tropa de choque do presidente, o governo precisa conquistar 300 votos contrários à denúncia do Ministério Público Federal, de maneira a mostrar força política. Para rejeitar a denúncia, o presidente só precisa de 172 votos contrários à iniciativa do PGR. Mas, para continuar com uma sobrevida na Presidência da República e manter o apoio Congressual, Temer sabe que precisará de um número expressivo de aliados para legitimar o discurso da governabilidade.

“Não podemos contar com aliado vacilão”, reclamou o deputado José Priante (PMDB-PA). O parlamentar defende que os aliados de Temer deem uma resposta rápida, poucos dias depois da iminente denúncia do procurador, para mostrar coesão na base governista. “Não podemos ficar sangrando”, acrescenta.

Esse é o número cabalístico que os assessores mais próximos a Temer esperam garantir com o apoio das bancadas de onze partidos, hoje aliados ao Planalto, inclusive com ocupação de cargos por parte de aliados do governo como o PP, que tem 47 deputados, o PR (39) e o PSD (37), além dos 29 representantes do DEM, partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Além dessas bancadas, o Planalto contabiliza o apoio de deputados do PRB, do Solidariedade, do PSC e do PTB. E até de duas pequenas legendas, como o Podemos (ex-PTN) e o Pros. Juntas, tais legendas formam uma bancada de 280 deputados (na hipótese de que não haja defecções), perto do número-meta do governo para resistir a Janot.

Fator 2018

A direção nacional do PSDB admite votar a favor de Temer, ajudando a rejeitar a denúncia de Janot, caso o conteúdo da acusação seja fraco e não apresente provas definitivas sobre o envolvimento do presidente no caso da gravação de conversas do presidente com o empresário Joesley Batista. Um dos donos do Grupo JBS, responsável pelo financiamento de quase dois mil candidatos em 2014, Joesley entregou à PGR áudios por ele gravados em que Temer aparece incentivando a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB), preso na Operação Lava Jato desde outubro de 2016.

O importante para o PSDB, de olho nas eleições presidenciais de 2018, é a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência, ambas em tramitação no Congresso. O projeto de lei com as mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) está na reta final do Senado e deve ir para a pauta do plenário nas próximas semanas.

O governo tem maioria para aprová-la no Senado, assim como fez na Câmara – vitória governista com o placar de 296 votos a 177. Já a matéria que altera os critérios constitucionais das aposentadorias e pensões apresenta mais dificuldades para o governo, uma vez que provoca reação negativa na opinião pública, com intensa rejeição nas redes sociais – termômetro usado pelos parlamentares para medir a temperatura das ruas e da própria popularidade. Além disso, são necessários aos menos 308 votos na Câmara para aprovar uma proposta de emenda à Constituição.


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