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Sábado 06.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Artigo da semana

O nariz pretoriano

A tríplice face de Jerson Domingos na sucessão de André Puccinelli.

Postado em 24 de Abril de 2014 - Dante Filho

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O deputado Jerson Domingos é um paradoxo ambulante. Dia sim, dia não, ele declara à imprensa sua insistência na tese de aliança entre PT e PMDB em Mato Grosso do Sul. Tese esdrúxula porque ambos os partidos tem candidatura própria ao Governo do Estado. Tese estranha porque Nelsinho Trad (PMDB) e Delcídio Amaral (PT) já travam há tempos um combate político de bastidores, ambos se esforçando para ganhar musculatura para o embate que se dará no porvir.

Mas o homem é incansável: insiste, desafia, articula e dá seus palpites. Como cidadão, Jerson tem todo o direito de escolher um candidato (no caso, Delcídio). Como deputado do PMDB, pode democraticamente divergir internamente das orientações partidárias, tentando demonstrar que sua proposta é a mais inteligente e correta para a agremiação a que pertence. Não é o que acontece. Como presidente do Poder Legislativo, a liturgia do cargo pede que fique em silêncio monástico, agindo apenas como magistrado dos interesses difusos. Só que ele não é de ferro.

Como não é possível cortá-lo em três fatias, somos obrigados a acompanhar esse processo de deterioração das noções pessoais, partidárias e institucionais sangrando em praça pública. Observando essa trajetória pelo noticiário pode-se concluir o seguinte: Domingos não aceita a candidatura de Nelsinho por uma questão pessoal mal resolvida – certa vez o chamou de “menino mimado”. Ou ainda, conforme se especula, ele estaria apostando em Delcídio para ajudar o professor Pedro Chaves a conquistar uma vaga no senado por meio de uma suplência estratégica, atendendo a pedidos familiares. Por último, as duas hipóteses podem ser verdadeiras, pois o deputado, além de odiar Nelsinho, deseja satisfazer a vaidade e a egolatria de um contraparente.

Jerson estaria apostando em Delcídio para ajudar o professor Pedro Chaves a conquistar uma vaga no senado por meio de uma suplência estratégica, atendendo a pedidos familiares.

O problema é que essa postura política – ou seja, a escolha pessoal do presidente da Assembleia sobrepondo-se aos ritos litúrgicos do cargo - desmoraliza o partido a que pertence e desqualifica, indiretamente, a autoridade do governador. É gozado isso: se Puccinelli for esse sujeito autoritário e maquiavélico que dizem que é Jerson Domingos deveria há muito ter sido fritado, sem chance de dar um pio real nas articulações eleitorais do momento. Mas o que se nota é o contrário: há um silêncio sepulcral no PMDB e um temor reverencial nas hostes governamentais. E ele continua falando em tom de atrevido desafio.

Dou um exemplo, do qual fui testemunha: em recente audiência pública sobre questões afetas ao bioma pantanal, com participação do candidato do PT, Jerson inúmeras vezes, como presidente da Assembleia, referiu-se a Delcídio como “Governador”, para depois sorrir marotamente, pedir desculpas pelo ato fato falho, e corrigindo a referência para “senador”. Delcídio gostou da gracinha.

E assim tem sido. Muitos políticos experientes dizem que Jerson só “late, mas não morde”. Dão de ombros para esse tipo de manifestação. Outros comentam que Domingos é um “amador” que não merece a mínima atenção, pois terá pouco peso na próxima campanha eleitoral. Há dúvidas no ar. O tempo dirá o que de fato corre nos bastidores, pois o deputado transpira a impressão de que tem muitas cartas na manga.

O verdadeiro jogo – e disso o deputado entende – a ser jogado no cenário político reside na dúvida sobre o que faz com que uma figura tão proeminente do maior partido estadual aja com tamanha desenvoltura numa disputa que, para ser minimamente competitiva, deve primar pela unidade de propósitos. A não ser que Nelsinho seja o Júlio César à espera de seu Brutus, apenas aguardando a deixa para cumprir seu fatídico papel no espetáculo.

Dante Filho - Jornalista e escritor


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