Semana On

Quarta-Feira 28.jun.2017

Ano V - Nº 260

Camara

Especial

Monogamia

Uma raridade entre a maioria dos animais, e também entre os homo sapiens

Postado em 07 de Junho de 2017   - Redação Semana On

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Sem ela, as novelas não teriam a menor graça – ou seriam muito menos apimentadas. Pense nas milhares de letras de tango e de bolero, nas canções cheias de dor de cotovelo de Lupicínio Rodrigues (nas quais o poeta Augusto de Campos detectou o “sentimento da cornitude”), no romantismo descabelado e crespo de Reginaldo Rossi. Ela aparece em toneladas de filmes, romances, peças de teatro, poemas. Ocupa grande parte das conversas entre vizinhos, amigos e colegas de trabalho. E pode estar dentro de você.

Ela? A infidelidade. Num livro recentemente publicado nos Estados Unidos, o psicólogo David Barash e a psiquiatra Judith Eve Lipton dedicam-se a destruir um mito laboriosamente erigido pela cultura humana: a monogamia. Escrito com enorme graça e fluência, The Myth of Monogamy: Fidelity and Infidelity in Animals and People (“O mito da monogamia: fidelidade e infidelidade em animais e pessoas”, ainda inédito no Brasil) é uma bordoada erudita na propalada ideia de que homens e mulheres seriam naturalmente predispostos a viver juntos até que a morte os separe. Barash e Lipton mostram que são outras coisas – bem distantes de coloridas certidões de casamento e de funestos atestados de óbito – que costumam unir ou desunir casais.

“A tendência à infidelidade é natural, o que não quer dizer que seres humanos não possam resistir”, diz David Barash, professor de psicologia na Universidade de Seattle, no Estado americano de Washington.

E, como exemplo da naturalidade dos instintos infiéis, Barash (ele próprio “resistindo” há mais de 20 anos em seu casamento com Judith, co-autora do livro) lembra que, entre os outros animais, a monogamia praticamente inexiste. E quando há, a incidência maior é da parte das fêmeas. “Monogamia geralmente implica exclusividade”, diz o casal de autores.

Barash e Lipton afirmam que, entre humanos, a monogamia é um mingau fervido com muitas doses de preceitos religiosos (catolicismo a granel), um bocado de pragmatismo econômico (como a necessidade de regular o direito à propriedade privada) e um toque de ingredientes sociais (reconhecimento da prole). E – claro – um punhado de comodismo. “Não é todo mundo que está disposto a freqüentar o instável e arriscado mercado de encontros”, explicam os autores. Mais: que, além desses fatores, monogamia existiria única e exclusivamente devido ao empenho isolado e contínuo de cada casal. “O mais poderoso mito que envolve a monogamia é aquele que diz que, ao encontrarmos o amor das nossas vidas, nos dedicaríamos inteiramente a ele”, afirma Barash. “A biologia mostra que há um lado irracional e animal no comportamento humano.”

A sociedade cria freios para tolher esse “lado irracional”, dizem Barash e Lipton. A condenação do adultério pelo sexto mandamento é um exemplo disso. No entanto, a Bíblia contém vários personagens que pulavam a cerca. Consta que o rei Davi mantinha seis esposas e Salomão era notório por suas 700 esposas e mais de 300 concubinas. O imperativo da monogamia, mostram os autores, surge quando as sociedades passam por processos de normatização, como criação de propriedade privada e toda a legislação ligada ao direito de herança e sucessão. O que não quer dizer que isso tenha ocorrido em todas as culturas humanas. Muitas delas, ao contrário, parecem estimular a parceria múltipla.

É o caso da seguinte história, exemplar sobre diferenças culturais. No final do século XIX, um provecto bispo britânico da Igreja anglicana visitava uma aldeia maori nos grotões mais recônditos da Nova Zelândia. Os aborígenes, contentes com a visita, promoveram grandes festividades. A certa altura, um desavisado “cacique”, querendo demonstrar hospitalidade, irrompeu em altos brados: “Uma mulher para o bispo!” Pois bem. Vendo a reação de contrariedade no rosto do prelado, o líder maori, sem pestanejar, ordenou: “Duas mulheres para o bispo!”

Desnecessário dizer que, entre os maori, a fidelidade é (como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, especialista em iluminar as zonas mais esconsas da personalidade humana) uma “virtude facultativa”. Como os nativos neozelandeses, a maioria das espécies animais, assim como muitos outros agrupamentos humanos e indivíduos em geral, não são monogâmicos nem inclinados nesta direção. Segundo Barash e Lipton, o fato de não ocorrer monogamia na natureza (e de os machos serem tão volúveis e vorazes em seus apetites sexuais) pode ser explicado por uma contabilidade evolutiva. Esperma é barato, óvulos são caros. Melhor dizendo: um macho normal de qualquer espécie produz milhares de espermatozóides todos os dias e está sempre à disposição para novos intercursos sexuais, ao passo que as fêmeas ovulam bem menos e – em caso de fecundação – têm que arcar com um grande número de responsabilidades, que os pesquisadores costumam qualificar com a expressão “investimento parental”.

O termo foi criado em 1970 por Robert L. Trivers, professor de antropologia e biologia da Universidade de Rutgers, Nova Jersey, Estados Unidos, e, desde então, faz parte do vocabulário dos pesquisadores. É uma mão na roda para elucidar algumas sinucas evolutivas ligadas ao comportamento sexual. Investimento parental explica, por exemplo, porque fêmeas da maioria das espécies são menos dadas a aventuras extraconjugais. É uma equação de tempo, energia e risco que os pais biológicos depreendem para que a gestação e o nascimento de suas crias ocorram sem maiores problemas.

Gerar uma cria, para as fêmeas, não é apenas gestá-la durante meses que parecem intermináveis ou chocar um ovo num ninho a salvo de qualquer ameaça. É alimentar o embrião, depois feto, em seguida filhote. E protegê-lo de intempéries ou da sanha de predadores, naturais ou não. “Os machos, na maioria das espécies, não têm o mesmo comprometimento”, explica Trivers, que considera os humanos menos solidários que seus parentes mamíferos.

Um bocado de gente, como Trivers, acredita que humanos são menos inclinados ao investimento parental que outros animais, o que os tornaria mais propensos à poligamia do que outras espécies. Devido ao seu baixo investimento parental, os machos tendem à volúpia e à variedade – quanto mais, melhor. E existe até um termo capcioso cunhado pelos cientistas, o chamado “efeito Coolidge”, inspirado numa passagem da vida de Calvin Coolidge (1872-1933), o trigésimo presidente dos Estados Unidos.

A história conta que o presidente Coolidge e sua mulher visitavam separados uma fazenda modelo no interior dos EUA. Quando o presidente vistoriava o galinheiro, reparou num galo solitário em meio a dezenas de galinhas. Então, o guia observou:

– A senhora Coolidge pediu-me para mostrar ao senhor que este galo pode copular várias vezes ao dia.

– Sempre com a mesma galinha? – perguntou o presidente.

– Não, senhor.

– Por favor, então mostre isso à senhora Coolidge! – teria exclamado o presidente.

Verdade ou não, o enredo da anedota que gerou o “efeito Coolidge” pode ser melhor observado em laboratório. A frequência sexual de um hamster macho declina rapidamente quando ele dispõe de apenas uma fêmea; torna-se lento, pouco receptivo, entediado. Porém, quando se introduz mais uma fêmea no pedaço, ele volta a apresentar apetite sexual. (Alguém aí se identificou com o ratinho?)

Variedade é a palavra de ordem na natureza. A pesquisadora Regina Macedo, do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, estuda o comportamento sexual das aves brasileiras. Diz que, embora as aves apresentem aquilo que os biólogos chamam de “monogamia social” (ou seja, macho une-se à fêmea durante a estação reprodutiva, constrói o ninho e ajuda na criação dos filhotes), não dá para colocar a mão no fogo pelos bicudos. “Não existe evidência de que todo acasalamento é estritamente monogâmico”, afirma Regina. “Às vezes ocorrem cópulas extra-par, que podem gerar filhotes que não pertencem ao macho do casal.”

O papel de priapo cafajeste geralmente cabe aos machos. “Claro que mulheres podem trair, mas homens dispõem de muito mais opções”, explica David Barash. Tanto que, na maioria das espécies, o que há é a prática da poliginia (o popular harém), ao passo que a poliandria (uma fêmea com muitos machos) costuma ser associada a desvio sexual. “Os homens aceitam muito mais sexo casual do que as mulheres”, afirma o psicólogo Ailton Amélio da Silva, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. “E onde há monogamia há traição.”

E por que simplesmente as mulheres não se dedicam à prática monogâmica? Afinal, em se tratando de humanos, não dá para reduzir a discussão a critérios biológicos. Há entre nós fatores mais complexos, como o amor. “Mulheres preferem esperar e escolher”, explica Barash. Por isso é que às mulheres pode ser atribuída a tarefa de uma seleção mais rigorosa dos parceiros, o que depura a espécie e garante a plena sobrevivência de uma linhagem saudável.

Ao contrário dos homens, cuja estratégia evolutiva é dispersar o sêmen mundo afora, as mulheres optaram por ser objetos de disputa. Não é à toa que, no vasto mundo animal, é o macho que dispõe de “armas” (penas coloridas, grandes chifres, músculos cultivados em academia), todas surgidas da competição e dos rituais de corte entre machos e fêmeas.

O que nenhuma explicação científica parece dar conta é do componente fundamental de toda relação humana: o amor. Sentimentalismos (e biologia) à parte, é o amor que sedimenta o envolvimento entre dois humanos que se gostam. O amor pode até ser uma invenção cultural – assim como a própria monogamia entre muitas sociedades –, mas o homo sapiens é formado por um feixe de elementos culturais.

“A monogamia é o mais difícil dos arranjos maritais entre humanos”, escreveu a antropóloga americana Margaret Mead. A favor da fidelidade conjugal, o máximo que os cientistas conseguiram catalogar até o momento é o caso exemplar do parasita de peixe Diplozoon paradoxum: ele encontra uma larva virgem e se funde a ela. Permanecem juntos para sempre. Até que a morte os separe.

Alternativas à monogamia ganham espaço entre jovens

Uma mesa para três em algum restaurante “coxa” de São Paulo, escolhido por André Cobra, 28 anos. É assim que ele, Rafael Medeiros e Phelipe Vittorelli pretendem passar este Dia dos Namorados — o primeiro desde que começaram um relacionamento a três, dois meses atrás.

O namoro, sério e aberto (com liberdade total para ficarem com outras pessoas), começou com uma brincadeira. Rafael e Phelipe estavam juntos desde fevereiro, quando André apareceu na turma de amigos do casal e abalou os corações dos dois.

“Eu já conhecia o André, tínhamos ficado alguns anos atrás. Fiquei de novo e comecei a perceber uma tensão entre ele e o Phelipe”, conta Rafael. Um dia, no elevador, André sugeriu que os três ficassem juntos de uma vez. “Ele diz que era brincadeira”, ri Phelipe. Mas, poucos dias depois, André se juntou de fato ao relacionamento do casal, que virou, então, um trisal.

A alguns quilômetros, em Guarulhos, na Grande São Paulo, o 12 de junho da empresária Andréa Dias, 42 anos, também será festejado a três, com os maridos Sérgio Dias — com quem se casou de papel passado e com cerimônia na igreja há mais de 15 anos — e Fernando Costa — que há cinco largou a vida em Portugal, sua terra natal, para se unir à dupla no Brasil.

Desde então, todos dividem a mesma casa e também os cuidados com Matheus, filho de Fernando com outra mulher, que vai completar três anos em agosto.

Os três namorados e os três casados encaram diariamente as mesmas dificuldades que um casal monogâmico, seja ele heterossexual, seja homossexual: ciúmes, desentendimentos sobre a vida doméstica e atritos bobos, causados pelas diferenças de personalidade. E a solução também é a mesma: uma boa dose de conversa, respeito e paciência.

Entre os gays, no entanto, relacionamentos abertos não são tão incomuns quanto entre os heterossexuais. Um estudo da Universidade Estadual de San Francisco (EUA) acompanhou 556 casais de homens durante três anos — e descobriu que 50% deles faziam sexo fora do casamento com aprovação total do parceiro.

Embora não exista um “censo dos relacionamentos” para que sejam conhecidos os dados de toda a população e bons estudos na área ainda sejam escassos, as maiores pesquisas feitas nos últimos anos estimam que, ao todo, nos Estados Unidos, cerca de 5% das pessoas vivam relações não monogâmicas consensuais, aquelas em que todos os envolvidos concordam com amores e/ou sexo com outros.

Nesse grupo, conforme o levantamento, a maioria tende a ser de homens gays. “Acho que o gay já enfrenta tantos desafios de aceitação em casa e com ele mesmo que, tendo passado por tudo isso, ele já se poda menos”, diz Alexandre Venancio, autor do livro Poliamor & Relacionamento Aberto (Panda Books), publicado no mês passado.

“Ainda mais entre homens. Casais heterossexuais se comportam da mesma forma, mas acho que a mulher freia mais os desejos do homem, que está mais habituado a ter múltiplos parceiros por conta da sociedade mesmo. Então, acho que não é tanto por ser gay, mas pela forma como a sociedade se comporta até hoje”, conclui.

Contra a Norma

Como afirma Venâncio, mesmo em 2017 ser gay não é fácil — basta ver os índices de crimes homofóbicos pelo Brasil e pelo mundo. Mas, nas últimas décadas, casais homoafetivos já conquistaram visibilidade e legitimidade em uma série de países. E, para a filósofa canadense Carrie Jenkins, os “não monogâmicos”, tanto homos como héteros, homens ou mulheres, devem seguir o mesmo caminho — só que a passos mais lentos.

“Estamos criando espaço em nossas conversas culturais em curso para questionar a norma universal do amor monogâmico, assim como anteriormente criamos espaço para questionar a norma universal do amor hétero”, afirma a professora da Universidade da Colúmbia Britânica.

Foi a partir da sua experiência poliamorosa de ter um marido e um namorado que ela resolveu escrever o livro What Love Is and What It Could Be (O que É o Amor e o que Ele Poderia Ser, em português), lançado no início do ano, em que analisa como o tema aparece na filosofia e na biologia ao longo da história.

A canadense destaca, porém, que a pressão pelos avanços dos homossexuais na sociedade, como o direito ao casamento, até hoje tem enfatizado principalmente a vontade de quem se adapta ao modelo tradicional: “Isso reforça a norma da monogamia. É uma estratégia política eficaz a serviço de um objetivo que eu valorizo, então entendo por que isso acontece. Mas em muitos aspectos o amor não monogâmico é varrido para debaixo do tapete”.

“Sair do armário” como poliamorista, diz, é um enfrentamento diário. “Toda vez que conheço novas pessoas, tenho que decidir se quero ou não deixá-las saber que estou em dois relacionamentos.”

Assumir poliamor é um desafio diário: Leia a entrevista com Jenkins

Você diz que estamos criando espaço para questionar a norma universal do amor monogâmico assim como previamente criamos espaço para questionar a norma universal do amor hétero. Esse questionamento do amor hétero, podemos dizer, foi conquistado em grande medida pelos movimentos LGBT. Você acha que o ativismo pela não monogamia já está fortemente organizado hoje me dia?

Não da mesma forma. Em parte, eu acho isso porque a pressão política para uma maior inclusão do amor queer e pelos direitos do casamento entre pessoas do mesmo sexo tem frequentemente enfatizado a vontade de muitos casais queer em conformidade com as normas monogâmicas.

Isso reforça a norma da monogamia. É uma estratégia política eficaz a serviço de um objetivo que eu valorizo, então eu entendo por que isso acontece. Mas em muitos aspectos isso significa que o amor não monogâmico é varrido para debaixo do tapete. 

Há outras diferenças também entre as duas situações. Em muitos casos, a não monogamia pode ser facilmente “invisível”. E, não por acaso, minha impressão é que há consideravelmente menos risco de grande violência física, discriminação legal etc. contra pessoas não monogâmicas do que contra pessoas queer. Os tipos de ativismo necessários são muito diferentes.

Explicar os seus relacionamentos às vezes é muito difícil, como você nos conta no início do seu livro. Mas “sair do armário” é importante, você escreve, “quando e se for seguro”. Como pessoas não monogâmicas podem identificar o momento certo de se revelarem? Quais são os seus conselhos?

Não existe receita para identificar quando “sair do armário”. Isso requer uma avaliação cuidadosa de circunstâncias individuais em questões como segurança, (in)dependência financeira, situação de emprego, situação familiar e níveis de conforto em relação a coisas como estigma e rejeição.

Para mim, segurança profissional e relações fortes, amorosas e que me apoiam foram requisitos-chave. Dito isso, eu não estava completamente preparada para a dor emocional da repercussão. Não tenho certeza se a gente pode estar realmente preparado para isso.

É imprevisível que retorno você vai ter de cada um. Fiquei realmente surpresa com a crueldade com que algumas pessoas reagiram, e com a compreensão de outras. Isso me ensinou muito sobre como eu fazia muitas suposições em relação às pessoas que eu pensava conhecer!

Também não é só um momento específico, mas um processo para toda a vida: toda vez que eu conheço novas pessoas, tenho que decidir se vou ou não as deixar saber que tenho dois relacionamentos. Algumas vezes, não quero mencionar nada, mas perguntas incômodas surgem, e aí tenho que me assumir ou ser desonesta.

Por exemplo, quando pessoas que não conheço muito bem me perguntam que é o Ray — meu namorado —, tenho que decidir entre dizer que ele é “um amigo”, ou ser honesta e dar a elas uma explicação potencialmente longa, responder suas perguntas, me arriscar ao julgamento moral etc.

Justamente por todas essas dificuldades, como têm sido as reações ao seu livro?

Têm sido mais intensas do que eu previa, tanto para bem quanto para mal. Há tanta curiosidade por aí sobre amor e poliamor, e o nível de cobertura da mídia mainstream que eu recebi por esse livro me leva a pensar que essas são conversas que as pessoas realmente andam querendo ter no momento.

Fui, por vezes, inundada pela gratidão e pelo apoio expressos pelo que estou fazendo ao tentar trazer uma abordagem filosófica e reflexiva a esses temas para o mainstream. Fui levada às lágrimas por algumas das pessoas que conheci depois de palestras e leituras.

Por outro lado, o abuso e a trollagem foram mais maldosos do que eu imaginei. Não previa, por exemplo, quão racistas as pessoas seriam sobre o fato de que tenho relacionamentos interraciais [Jenkins é branca, e eles, de origem oriental]. E a misoginia… Apesar de que eu sabia que aconteceria, não previa que seria tanta e de forma tão variada.

Tenho sido chamada de todas as variações possíveis de “puta” e “vagabunda” que você pode imaginar. E há tantas. Me disseram que sou doente mental, que eu vou morrer de doenças, que eu deveria me sufocar etc., tudo por ser poli.

Homens poli, eu sei, incluindo os meus parceiros, não recebem uma fração desse ódio, o que sugere que há uma coisa sobre ser uma mulher poli que é particularmente ameaçadora ao status quo patriarcal.

Isso confirma a hipótese discutida no meu livro: de que a nossa construção social atual do amor romântico monogâmico tem raízes profundas na misoginia. Muitas das minhas razões em criticar e desafiar pressupostos sobre o amor romântico são baseadas no feminismo.

Existe um ponto controverso quando se fala em relações não monogâmicas: é possível ou não, na sua opinião, traçar um perfil médio de que é não monogâmico, quanto a idade, atividade profissional, classe social etc.? Algumas pessoas dizem que sim, outras, que não.

Eu diria o seguinte: não presuma que os membros mais visíveis de um grupo são representativos do grupo como um todo. Em relação a algo como poliamor, que carrega grandes estigmas sociais em muitas situações, é mais seguro e fácil ser um poli visível se você está protegido por privilégios provenientes da sua classe social, do seu status profissional etc.

No meu caso, por exemplo, ser uma professora universitária branca me protege de maneiras que eu não posso nem compreender totalmente, mas sei que essa proteção existe. Então, antes de presumir que pessoas não monogâmicas são em geral, por exemplo, profissionais ricos, nós precisamos lembrar que é bem menos provável que fiquemos sabendo de pessoas que não têm o mesmo tipo de privilégio para protegê-las das reações.

Também é por vezes argumentado que apenas as pessoas ricas têm tempo e dinheiro suficientes para seguir a não monogamia. Mas isso, de novo, presume que o tipo de não monogamia que nós associamos a pessoas ricas — por exemplo, ter encontros por aí gastando um monte de dinheiro e de tempo livre nessa atividade — é o único tipo de não monogamia.

A situação de famílias poli pobres, cuja vida compartilhada é uma forma de pagar o aluguel e dividir o cuidado das crianças, é ignorada quando nós nos focamos no estereótipo chamativo. O estereótipo vende bem porque é excitante e estimulante. As realidades são mais diversas e mais complicadas.

Você está trabalhando em mais projetos sobre amor não monogâmico? Vem por aí um novo livro?

Sim! Um segundo livro está em andamento, e espero acabar fazendo uma trilogia. Me sigam no Twitter para ver as novidades sobre os meus projetos.


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