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Sábado 05.dez.2020

Ano IX - Nº 422

Coluna

Pobres meninos ricos

A vida angustiante de quem tem mais dinheiro que noção

Postado em 24 de Maio de 2017 - Rodrigo Amém

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Em 2013, o jovem americano Ethan Couch fazia o que mais gostava: dirigia embriagado com seus amigos pelas estradas de uma cidadezinha mexicana. Como é costume entre os adolescentes ricos do Texas, a fronteira era o point do rolezinho. Mas nesse dia, deu ruim. Ethan perdeu controle do carro e atropelou quatro pessoas. Todas morreram. A violência do impacto foi tamanha que um dos passageiros ficou tetraplégico. Ao todo, 11 pessoas foram feridas pelo bonde do Couch. O bafômetro indicou que o rapaz tinha consumido cinco vezes o volume de álcool permitido. O motorista saiu ileso.

O mais assombroso aconteceu no julgamento de Ethan.

Seu caríssimo (literalmente) advogado contratou o psicólogo Dick Miller para analisar o cliente. E o laudo do doutor chocou a nação.

Para Dr. Miller, Ethan, herdeiro de uma das maiores fortunas do estado, era uma vítima. Seus pais o criaram sem qualquer parâmetro moral, respeito às regras, ou senso de responsabilidade. Sim, senhores. Ethan é uma vítima do sistema de privilégios em que foi criado. É tudo culpa dos pais.

Resumo da ópera: Couch sofria de "affluenza": o nome que se dá à doença de quem não é capaz de entender as consequências de seus atos porque nasceu rico e mal-criado (literalmente).

Quem defende a existência da doença fala do vazio existencial da vida dos ricos, preenchido pelo abuso de drogas ilícitas, sexo e álcool.

É óbvio que não se trata de uma condição reconhecida por nenhum órgão oficial. Mesmo assim, muitos especialistas afirmam que se trata de um "fenômeno social". E a expressão nem é nova: surgiu da mistura de influenza (gripe) e affluence (riqueza) em 1954.

A melhor definição para conservadorismo é 'ausência de empatia diante da diversidade'.

Para alguns teóricos, affluenza é a versão moderna do "ennui" (tédio, em francês), uma sofrência dos riquinhos da era vitoriana que tinham muito tempo livre e nenhum trabalho, coitados.

Antes que você caia da cadeira, voltemos ao tribunal. A juíza Jean Boyd aceitou o argumento da defesa como atenuante da pena. A sentença: dez anos em liberdade condicional. Cadeia, nem pensar.

Curiosamente, a mesma juíza já tinha condenado um outro motorista adolescente embriagado a 20 anos em regime fechado. Adivinha quais as duas maiores diferenças entre os dois jovens condenados? Adivinhão!

Que a juíza acredite que o descaso dos pais seja atenuante não é de todo absurdo. O problema é que isso só valha para o criminoso de luxo. Pau que dá em chico não dá em Francis. Somente os adolescentes de berço de ouro tem sua noção de certo e errado embotada pela negligência familiar. Filho de pobre sabe exatamente o que faz, safado.

Hoje, os conservadores americanos acreditam piamente que a negligência familiar pode impactar o desenvolvimento do senso moral em jovens. Mas só na alta roda. Para pobre, não tem dó. Tem dolo.

A melhor definição para conservadorismo é "ausência de empatia diante da diversidade". John Mccain, senador republicano e presidenciável americano, por exemplo, mudou sua visão sobre o casamento gay quando a filha saiu do armário. Mccain foi um dos primeiros no partido a romper com a posição conservadora cristã sobre o assunto porque tem que acontecer com um dos seus para sensibilizar um conservador.

E, se a "affluenza" já virou defesa recorrente no camarote gringo, melhor ficarmos espertos. Não se surpreenda se ela aparecer em algum discurso de "inocência" e "ingenuidade" durante a Lava-Jato.

* Em tempo: Ethan violou sua condicional e pegou dois anos de cadeia. Mas nunca pisou numa cela. Seu advogado está recorrendo da condenação no Supremo. O playboy continua dirigindo pelas estradas mexicanas, servindo de melhor argumento para convencer o México a pagar pelo muro de Trump.


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