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Sexta-Feira 26.mai.2017

Ano V - Nº 255

crise

Especial

Um ano de Temer

Impopular, presidente tenta emplacar reformas para as quais não foi eleito

Postado em 08 de Maio de 2017   - Redação Semana On

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O governo Michel Temer (PMDB) completa um ano nesta sexta-feira (12) sob o signo do paradoxo. Dono de altíssima impopularidade e de uma coleção de crises políticas, o presidente até aqui conseguiu fazer avançar extensa agenda legislativa, talvez a mais ambiciosa em escopo desde a redemocratização, mas extremamente penosa para as camadas mais sofridas da população.

Como provam os 61% que reprovam o governo e os 71% que rejeitam especificamente a reforma da Previdência segundo a mais recente pesquisa Datafolha, não é uma agenda para todos os gostos.

A profunda mexida no sistema de aposentadorias se tornou a "mãe de todas as batalhas", como qualificou o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo, do PSDB), responsável pela interlocução do Planalto com o Congresso. "Mas isso escamoteia as outras batalhas que já vencemos. É um avanço sem precedentes", afirma, sob as vaias de uma grande camada da população que considera que as reformas penalizam o trabalhador em detrimento das fatias mais privilegiadas.

Com 38% do seu curto mandato de 2 anos, 7 meses e 20 dias completados, Temer já disse que a impopularidade é um passaporte para fazer o que considera correto – e que também lhe garante apoio na elite empresarial, ao seu lado desde que Dilma Rousseff (PT) foi afastada e, depois, impedida.

Conseguiu ver medidas polêmicas aprovadas no Congresso: o teto de gastos, a desvinculação de receitas, o fim da exclusividade da Petrobras no pré-sal, a lei de governança das estatais, a reforma do ensino médio. Avançaram a reforma trabalhista e, a trancos e barrancos, a mudança previdenciária aprovada em comissão na Câmara.

Como se vê, a seara econômica é sua prioridade, e foi de lá que saíram as melhores notícias até aqui para o governo, na agenda não parlamentar: a queda da inflação, que porém teve na recessão brutal uma forte aliada, a consequente queda nos juros e uma sacada popular: a liberação de estimados R$ 35 bilhões de contas inativas do Fundo de Garantia.

"Isso tudo foi feito para agradar o empresariado. Reduziram os direitos da classe trabalhadora. Em um ano, fizeram o máximo possível de modificações legais, e agora ameaçam mexer com a legislação fundiária. Como o país ainda está no buraco, o próximo governo terá de rediscutir tudo isso que fizeram", sentencia o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini (SP).

Para ele, o discurso de que a melhora de expectativas com as reformas será sentida na economia é enganoso. "Temer agravou a crise, veja o desemprego recorde."

Imbassahy rebate: "Quem mais reclama é quem tem seu privilégio atingido, como no caso do imposto sindical extinto na reforma em discussão. O brasileiro vai ver a melhora depois, e os sinais na economia já estão aí".

Para opresidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS), Roberto Botarelli, a questão do imposto sindical é típica da estratégia de Temer e seus aliados para desqualificar a oposição. “Sempre fomos contra o imposto sindical”, afirma o sindicalista, cuja entidade representa 25 mil trabalhadores no Estado.

“Os sindicatos CUTistas são contra o imposto sindical. Nós, da FETEMS, sempre fomos contrários. Entendemos que o sindicato tem que sobreviver da contribuição voluntária do seu associado, que paga se quiser pagar, como é feito hoje conosco. Quem é filiado a FETEMS tem que assinar uma autorização para autorizar o desconto de 2% de seu salário. Este valor vem para a Federação, uma parte para a CUT, outra para o sindicato municipal, outra para a nossa Confederação. Com esse dinheiro financiamos o movimento sindical. Nós defendemos o modelo sindical desse jeito. Não dependemos do imposto sindical para sobreviver, temos vida própria com contribuição sindical voluntária dos nossos 25 mil filiados. É muito estranho o que algumas pessoas falam, sem conhecimento de causa”, afirma.

Se há fortes debates sobre a agenda de Temer, que levaram até a uma tentativa de greve geral na semana retrasada, no campo político o paradoxo se faz mais agudo. O presidente montou um esquema de poder convencional, mas eficaz no diante do jogo político viciado que rege a coisa pública no país.

Dos seus 28 ministros, 20 vieram do Parlamento, o que teoricamente amplia o comprometimento de partidos e bancadas com o governo. Não é tão óbvio, tanto que o PSDB busca virar o voto de talvez metade de sua bancada na Câmara para apoiar a reforma da Previdência.

Deixando a área econômica blindada com nomes que eram unanimidades no mercado, Temer acendeu velas a duas deidades. "Esse foi o acerto chave", diz Imbassahy. Só que a Operação Lava Jato, devastando o cenário político desde 2014, garantiu instabilidade ao arranjo.

Além do próprio Temer, que é citado mas não investigado por acusações anteriores a seu mandato, nada menos que oito ministros estão no alvo da investigação e serão afastados caso sejam denunciados –linha de corte malandra, já que a morosidade judicial os favorece.

Mas o dano de imagem está feito. Segundo o Datafolha, 73% dos brasileiros acham que Temer está envolvido no escândalo, que atingiu em cheio PMDB e PSDB.

No campo simbólico, o anacronismo de um ministério quase exclusivamente branco e masculino já está precificado. As gafes de Temer quando fala sobre condição das mulheres ou os arroubos conservadores de ministros, também. A crítica, crê o governo, tende a encastelar-se em nichos de redes sociais.

Com tudo isso, é possível dizer que, para usar a figura de linguagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aplicada ao governo, a pinguela está resistindo.

A ameaça de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por irregularidades da chapa com Dilma em 2014, parece afastada por ora, e o governo sobreviveu a oito trocas ministeriais até aqui, quase todas traumáticas.

O que vem à frente? "A guerra não vai acabar na Previdência. Logo teremos que enfrentar a simplificação do sistema tributário", afirma Imbassahy, por óbvio um vendedor da vitória na "mãe de todas as batalhas".

Presidente é rejeitado por 61% da população

A impopularidade do governo Michel Temer cresceu e já é comparável à de sua antecessora, Dilma Rousseff, às vésperas da abertura do processo de impeachment que acabou por cassá-la em 2016. Segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, a gestão do peemedebista tem 61% de avaliação ruim ou péssima, com 28% a considerando regular e apenas 9%, ótimo ou bom.

Logo antes de a Câmara afastá-la, em abril do ano passado, Dilma tinha 63% de rejeição e 13% de aprovação. Era um número inferior ao recorde da própria petista, o maior aferido pelo instituto desde a redemocratização de 1985: 71% de ruim/péssimo e 8% de ótimo/bom, em agosto de 2015.

Os 9% de aprovação são também similares à taxa de Fernando Collor de Mello antes de ser impedido, em setembro de 1992, embora a reprovação fosse maior (68%).

Quando colocado como eventual candidato à reeleição, Temer vê a rejeição a seu nome subir de 45% para 64% de dezembro para cá.

A sondagem averiguou o cenário no qual Temer tem seu mandato cassado pelo TSE, que julga a chapa na qual era vice de Dilma em 2014 sob acusação de abuso do poder econômico.

O julgamento será neste mês de maio e, se houver cassação, a Constituição obriga nova eleição pelo Congresso, por estarmos na segunda metade do mandato. Apenas 10% dos ouvidos apoiam isso. Para 85%, o Congresso deveria aprovar uma mudança constitucional para permitir eleições diretas já.

A deterioração da imagem da Presidência impressiona. De dezembro de 2012, quando a pergunta foi feita pela última vez, para cá, disseram não confiar nela 58% dos ouvidos, contra 18% em 2012. É um índice quase igual ao da confiança no Congresso, historicamente baixa: 57% de "não confio".

Estratégia popular

Uma ofensiva de marketing – que começa nesta sexta-feira (12) com um pronunciamento em cadeia nacional) – pretende tornar a imagem de Temer mais palatável. A ideia é mostrar que, apesar de todas as crises, Temer comanda “um governo de travessia” para dias melhores.

O governo vai lançar uma nova ofensiva digital, com vídeos e mensagens por WhatsApp, explicando as mudanças na aposentadoria.

A tentativa de fazer de Temer um político menos formal e com estilo “paizão” já começou a ser posta em prática, mas nenhum de seus auxiliares o convenceu até agora a tirar do vocabulário termos de difícil compreensão, como “vergastado”.

“Presidente, o senhor é um homem muito certinho. O senhor tem algum hobby? O senhor joga bola, o senhor vai em festa junina? O senhor cozinha? O que o senhor faz?”, perguntou a ele o apresentador Ratinho, do SBT, no programa que foi ao ar na última sexta-feira. “Você sabe que eu cozinho, viu? Você sabe que, de vez em quando, um ovo mexido, por exemplo, eu faço com uma tranquilidade. Mas (sobre) hobby, você sabe que eu gosto muito de cinema, viu? E gosto de televisão”, respondeu Temer.

O dono do SBT, Silvio Santos, também convidou Temer para participar de seu programa. Os dois jantaram no último dia 20, em São Paulo, após encontro acertado por Ratinho, durante uma sessão de corte de cabelo no salão do Jassa. A partir daí, o SBT passou a exibir pequenas inserções em defesa da reforma da Previdência, nos intervalos comerciais.

No mês passado, o presidente também deu outras entrevistas para programas populares, como o comandado por José Luiz Datena, da rádio Bandnews. Tanto Ratinho como Datena têm grande penetração nas classes C, D e E.

Assessores de Temer querem agora que ele fale ao menos uma vez por semana com rádios regionais de audiência, principalmente no Nordeste, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito popular. “O governo tem de anunciar nessas rádios, aparecer nos rincões”, disse o deputado Beto Mansur (PRB-SP), um dos vice-líderes do Planalto na Câmara.

Diante das dificuldades enfrentadas por Temer, toda a estratégia foi montada não apenas para explicar as reformas de forma didática como para mostrar trabalho, rebatendo rumores de que o governo está acuado pela Lava Jato.

As três agências de publicidade que venceram a licitação aberta em janeiro para cuidar da Presidência da República (NBS/PPR, Young e DPZ&T) terão como tarefa “polir” a imagem de um governo alvejado pela Lava Jato. O contrato anual para prestar serviço à Secretaria de Comunicação Social (Secom), na gestão Temer, é de R$ 208 milhões e, pelas regras da licitação, pode ser renovado por até cinco anos.

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DE MICHELZINHO AOS FANTASMAS: O QUE MARCOU O PRIMEIRO ANO DE TEMER NA PRESIDÊNCIA

REFORMAS
Elegeu a aprovação da trabalhista e da previdenciária como proa de seu governo. As propostas avançam na Câmara. Em dezembro, durante café da manhã com jornalistas, o presidente disse que ser impopular tem suas vantagens:

Um governo com popularidade extraordinária não poderia tomar medidas impopulares.

'NÃO PENSE EM CRISE, TRABALHE'
No discurso de posse, Temer cravou este slogan ao contar que passava pela rodovia Castello Branco e viu a frase numa placa. 'Gravei muito aquilo.' A frase pegou mal num país com desemprego a 13,7% (14 milhões de pessoas).

DANDO UMA MÃO
Elio Gaspari descreveu Temer discursando: 'Não move os músculos do rosto', gesticula 'com alguma teatralidade' e imposta a voz como 'um sintetizador calibrado para um só tom'. Para analisar um vídeo que destaca o balé que ele faz com aos mãos ao falar em janeiro com seu núcleo institucional, convidamos o especialista em linguagem corporal Paulo Sérgio Camargo, autor de "Não Minta para Mim! Psicologia da Mentira e Linguagem Corporal (Summus, 2012).

"Ele coloca a palma da mão na mesa: indica que está no controle da situação. Aponta o dedo: trata-se de uma atitude professoral e por vezes impositiva. Une o polegar com o dedo indicador, a chamada 'pinça': sinal de que deseja explicar tudo nos mínimos detalhes. Mostra as palmas das mãos: indicativo de sinceridade, gesto muito utilizado por Barack Obama."

LAVA JATO
Em fevereiro, Temer prometeu que afastaria ministros denunciados pela Procuradoria-Geral da República. São 8 dos 28 ministros implicados pela Odebrecht em caixa dois e corrupção, em delações divulgadas em abril. O presidente 'esclareceu' a linha de corte: só sai do cargo quem o Supremo transformar em réu.

SELO MICHELZINHO DE APROVAÇÃO
Caçula de cinco filhos do presidente, Michelzinho, 8, foi decisivo para a escolha da nova identidade visual do governo do pai (criticada por designers), segundo o publicitário Elsinho Mouco. "Quando entrou na sala, ele olhou e falou 'que lindo'. [...] Se uma criança gosta, é porque a gente tem algo puro. Foi o Michelzinho quem escolheu a marca", disse em mai.16.

ESCOLA
Acompanhado da mulher, Temer buscou o caçula numa escola particular de Brasília, em julho. Detalhe: sua assessoria fez questão de avisar à imprensa antes. A tentativa de suavizar sua imagem pública saiu pela culatra, e pais de alunos reclamaram do enxame de repórteres no local.

BELA, RECATADA E DO LAR
Dias antes de o marido assumir o lugar de Dilma, Marcela Temer, 33, foi tema de matéria da "Veja" com este título. A máquina de memes das redes sociais logo entrou em ação, unindo fotos como a de uma senhorinha mostrando o dedo do meio à hashtag #belarecatadaedobar.

OS TRÊS MOSQUETEIROS
Ao assumir o Planalto, cercou-se da tríade de confiança, toda do PMDB: Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Eliseu Padilha (Casa Civil). Os dois últimos são investigados na Lava Jato, e Geddel caiu em novembro, após Marcelo Calero, então ministro da Cultura, acusá-lo de pressionar por um parecer favorável para liberar uma obra milionária em Salvador.

FORO ÍNTIMO
Temer deu status de ministro a Moreira na mesma semana em que o STF homologou 77 delações premiadas da Odebrecht (que, descobriu-se depois, citavam o aliado). O próprio presidente é mencionado por delatores, mas o procurador-geral, Rodrigo Janot, diz que ele tem 'imunidade temporária'. Especialistas divergem sobre isso.

FANTASMAS DO ALVORADA
Repercutiu até fora do país sua hipótese de que o Palácio da Alvorada é assombrado. À 'Veja', em março, explicou por que preferiu voltar ao Palácio do Jaburu, residência do vice: 'Senti uma coisa estranha lá. Eu não conseguia dormir, desde a primeira noite. A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que a aqui tem fantasma?'.

SATANISMO
Em depoimento, o marqueteiro João Santana disse que diminuiu as aparições de Temer (então vice de Dilma) em peças publicitárias da campanha de 2014 porque sua figura era relacionada ao satanismo, um deficit eleitoral. O peemedebista inclusive teve de reforçar a fé católica para tentar dissipar o rótulo, popular em sites evangélicos.

TEMER & AS MULHERES
Polêmicas do presidente ao tratar da metade da população brasileira

Zero ministras
Não indicou nenhuma mulher em sua primeira leva ministerial. Hoje são duas entre 28 titulares da Esplanada: Grace Mendonça (Advocacia-Geral da União) e Luislinda Valois (Direitos Humanos).

Do lar
No Dia Internacional da Mulher (8/3), disse:

Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos.

Falta marido
Disse em entrevista ao 'Programa do Ratinho' (28/4): 'Uma dona de casa, ela não pode gastar se o marido dela ganha R$ 5.000, [...] senão ela vai quebrar o marido. [...] Acho que os governos agora precisam passar a ter marido, viu, porque daí não vai quebrar'. A declaração rendeu um tuíte irônico de Simon Romero, ex-correspondente do 'New York Times' no país: 'O presidente do Brasil disse a um cara chamado 'Mouse' [rato] que governos precisam de marido.'

GLOSSÁRIO DO 'MICHELÊS'
Entenda as palavras preferidas do 'idioma' presidencial

Acoelhar
Usou esta em 18/4 : 'Não podemos nos acoelhar, achar que estamos numa situação delicada'. Significa 'intimidar'.

Derruído
Citada no poema 'Eu', de seu livro de poesias 'Anônima Intimidade' (Topbooks, 2013). Quer dizer abatido, destruído

Sê-lo-ia
O famoso gosto pelas mesóclises apareceu no discurso de posse ("... sê-lo-ia pela minha formação...") e foi diminuído. Explicou Temer em setembro: "Ontem li um artigo de um cidadão me criticando pelo fato de eu falar bem o português. Não uso mais'

Verba volant, scripta manent
Em dezembro de 2015, ainda como nº 2 de Dilma Rousseff, aderiu à expressão em latim (as palavras voam, os escritos permanecem) numa carta em que reclama de ser um 'vice decorativo'. Começava assim: 'Senhora Presidente, 'verba volant, scripta manent'. [As palavras voam, os escritos se mantêm]. Por isso lhe escrevo'.

Caceteado
É a palavra que usa para se dizer irritado.

Exata e precisamente
Tem mania de lançar a expressão para reforçar seu ponto. Num único discurso, em 31/8/16, usou-a três vezes, como ao dizer: 'Quando há um certo amargor das pessoas, e isso nós vimos nas ruas, é exata e precisamente em função do desemprego'.

 


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