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Ano V - Nº 276

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Mundo

Síria alternou três papéis na política externa dos EUA nos últimos 15 anos

Durante a campanha Trump pregava uma aproximação entre os EUA e a Rússia –aliada do governo Assad– para derrotar o Estado Islâmico.

Postado em 07 de Abril de 2017   - Redação Semana On

Bashar al-Assad, presidente da Síria, conversa com jornalistas franceses, em Damasco Bashar al-Assad, presidente da Síria, conversa com jornalistas franceses, em Damasco

Alvejada por mísseis americanos na madrugada desta sexta-feira (7), a Síria alternou ao menos três papéis no palco da política externa dos Estados Unidos ao longo dos últimos 15 anos.

Após os ataques em 11 de setembro de 2001, quando o então presidente George W. Bush lançou-se na Guerra ao Terror, o governo americano ameaçou incluir a Síria na lista de países que considerava pertencentes ao chamado Eixo do Mal. O eixo original era composto por Iraque, Irã e a Coreia do Norte.

Na época, o Departamento de Estado dos EUA acusava a Síria de financiar e abrigar grupos palestinos que o governo americano classificava como terroristas.

A Síria também era acusada de permitir que voluntários armados cruzassem suas fronteiras para lutar contra a coalizão americana na Guerra do Iraque, iniciada em 2003.

O governo sírio negava as acusações e, oficialmente, tratava organizações armadas palestinas como grupos de resistência, que combatiam o domínio israelense de forma legítima.

Um comitê do Congresso americano chegou a propor a aplicação de sanções a Damasco, mas o gesto foi barrado.

Washington considerava a Síria importante demais para as negociações de paz entre israelenses e palestinos e não queria aliená-la do processo.

Além disso, após os ataques às Torres Gêmeas, o país árabe se revelou um valioso parceira dos EUA no combate à Al-Qaeda, de Osama Bin Laden. Em várias ocasiões, o governo sírio compartilhou informações com a CIA (a agência de inteligência dos EUA) sobre membros da organização.

Na onda de protestos que varreu o Oriente Médio e ficou conhecida como Primavera Árabe, a posição americana sobre a Síria mudou.

Ameaçado pela revolta, o líder sírio, Bashar al-Assad, reagiu com uma ofensiva contra grupos rivais. O país mergulhou na guerra civil que é travada até hoje.

Em 2011, em meio ao crescimento do conflito, o presidente Barack Obama disse que Assad deveria deixar o cargo.

Os EUA tentaram aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que apoiasse uma transição de poder na Síria, mas a iniciativa falhou por causa da oposição de russos e chineses.

Em 2012, congressistas republicanos passaram a cobrar Obama para que enviasse armas a grupos que combatiam Assad, algo que a Casa Branca relutava em fazer.

No governo americano, temia-se que as armas pudessem acabar em mãos erradas - como grupos afiliados à Al-Qaeda. O apoio dos EUA aos insurgentes então se limitava ao envio de ajuda humanitária e alguns equipamentos para soldados.

Pressionado a agir, o presidente americano afirmou que, caso Assad empregasse armas químicas no confronto –algo que se suspeitava que ele já tivesse feito e pudesse voltar a fazer–, os Estados Unidos interfeririam no conflito.

O uso de armas químicas passou a ser encarado pelo governo dos EUA como uma "linha vermelha" que não poderia ser cruzada pelo governo sírio, ou a Casa Branca agiria abertamente para derrubá-lo.

Em 2013, surgiram indícios do uso de armas químicas perto de Aleppo, a maior cidade síria. O governo Assad atribuiu o ataque a forças rebeldes, enquanto os insurgentes culparam o governo.

Obama adotou uma posição cautelosa. Ele afirmou que seria arriscado agir sem provas de que Assad havia realmente ordenado o ataque.

A postura foi mantida até o fim do governo –Obama deixou o cargo sem jamais ter ordenado um ataque direto contra o líder sírio.

Acredita-se que outro fator também tenha afetado a avaliação do então presidente sobre o conflito: o avanço do grupo autointitulado Estado Islâmico (EI).

Em janeiro de 2016, o grupo ocupava 60.400 km² na Síria e no Iraque, pouco mais que o dobro do Estado de Alagoas, e se projetava também em outras partes do mundo.

Atentados ordenados ou inspirados pelo grupo nos EUA e na Europa alçaram o EI ao centro do debate político americano.

Durante a campanha eleitoral, o então candidato Donald Trump pregava uma aproximação entre os EUA e a Rússia –aliada do governo Assad– para derrotar o Estado Islâmico.

Trump já havia criticado Obama por traçar uma "linha vermelha na Síria quando o mundo sabia que aquilo não significava nada".

Por outro lado, disse num comício em Miami que atacar um governo aliado da Rússia poderia levar à Terceira Guerra Mundial.

Em debate presidencial em outubro, Trump disse que não gostava "nem um pouco de Assad". "Mas Assad está matando o EI, a Rússia está matando o EI, e o Irã está matando o EI."

Em entrevista ao Wall Street Journal, Trump disse que sua posição sobre a Síria era oposta à do governo Obama: "Minha atitude era 'você está lutando contra a Síria, a Síria está lutando contra o EI, e você tem de se livrar do EI".

O cálculo de Trump mudou, segundo ele, após a divulgação de vídeos que mostravam vítimas de um ataque químico atribuído pela Casa Branca ao governo sírio.

"O que Assad fez é terrível", disse o presidente horas antes do ataque americano a bases sírias.

"Acho que o que aconteceu na Síria é uma desgraça para a humanidade. Ele [Assad] está lá, e acho que ele está comandando as coisas, então algo deveria acontecer.


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