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Terça-Feira 07.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Entrevista

Se não for prioridade, a saúde não terá solução em nosso Estado

Para Ricardo Ayache é preciso mudar a forma de governar para resolver problemas da saúde

Postado em 22 de Março de 2017 - Victor Barone

Para Ricardo Ayache, é preciso mudar a forma de governar para resolver problemas da saúde. Para Ricardo Ayache, é preciso mudar a forma de governar para resolver problemas da saúde.

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Em seu segundo mandato à frente da Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul (Cassems), o médico cardiologista Ricardo Ayache comanda uma estrutura composta por dois mil e quinhentos profissionais que atendem a quase 160 mil usuários por todo o Estado. À frente da instituição desde 2010, ele é responsável por triplicar o capital social e o patrimônio da Cassems nestes sete anos de administração, colocando-a como a oitava maior empresa do Estado e a 65ª do Centro-Oeste no ranking das melhores do Brasil. Com a inauguração do Hospital da Cassems em Campo Grande, em outubro passado, esta estrutura ganhou corpo.

Nesta entrevista, Ayache fala dos planos de ampliação do hospital, dos desafios da saúde complementar em Mato Grosso do Sul, e da necessidade de priorizar a saúde como política pública. “É preciso elencar definitivamente a saúde como prioridade e mudar a cultura clientelista, onde a classe política procura manter seus feudos eleitorais através do empreguismo, criando milhares de cargos comissionados, sobrecarregando a máquina pública, gerando uma carga tributária que dificulta investimentos e geração de empregos. É preciso acabar com esta cultura política patrimonialista, onde os grupos políticos fazem do poder público uma fonte de enriquecimento, de geração de recursos para campanha politica, para serem eternizados no poder. Isso é insustentável”, afirma.


O hospital da Cassems é uma conquista para o Estado. Como foi o processo que permitiu sua construção?

O hospital foi possível porque foi elencado como prioridade. Fizemos todo um planejamento, projetamos o hospital dentro daquilo que nós precisamos e esse planejamento passou também por uma estruturação da própria Cassems. Fizemos uma série de ajustes entre 2010 e 2013, quando o hospital estava sendo elaborado, e buscamos o financiamento do FCO (Fundo de Desenvolvimento do Centro-Oeste ), que viabilizou o projeto junto a recursos próprios. Foram 55% de recursos próprios e 45% do FCO para conseguirmos viabilizar o hospital. Feito isso, o construímos em dois anos e meio, equipamos e colocamos para funcionar.

O hospital está funcionando em que capacidade?

Está funcionando acima das nossas expectativas iniciais. O hospital tem ficado praticamente lotado, tanto é que nós já antecipamos a abertura da segunda UTI, cardiovascular. Estamos com 92% da capacidade hospitalar disponível para a população, funcionando com pronto atendimento adulto e infantil. Já realizamos mais de 13 mil consultas desde a abertura. O centro cirúrgico funciona com cinco salas onde já foram realizadas mais de 1.000 cirurgias, dentre elas a primeira cirurgia transmitida por telemedicina no Estado. Já tivemos mais de 1.300 pacientes internados e realizamos mais de 16 mil exames com diagnóstico de ponta. Além do centro de oncologia, que também vem cumprindo com a sua função. Estamos equipados com o que há de melhor no mundo.

Há planos para ampliar a estrutura?

Já estamos projetando essa ampliação com mais quatro mil metros quadrados. Hoje ele tem 14.200 metros quadrados. Vamos chegar a 200 leitos. Creio que inciaremos esta ampliação dentro de um ano e meio.

Vejo os mesmos discutindo política da mesma forma, discutindo interesses de grupos, quem vai ficar no poder pelos próximos anos. Mal terminou uma eleição, já se discute a próxima. Na minha opinião, todos deviam estar trabalhando para encontrar soluções para os problemas.

Como o senhor analisa a questão da saúde no Mato Grosso do Sul?

A questão da saúde no nosso Estado padece por falta de investimentos do poder público. Mato Grosso do Sul é o Estado que menos investiu na saúde no país nas últimas décadas. Portanto, quando a gente observa a população clamando por saúde e apontando-a como o principal problema, isso tem uma lógica: o Mato Grosso do Sul não tem priorizado a saúde. Consequentemente, a população sofre por não conseguir realizar cirurgias eletivas, pela falta de exames complementares fundamentais para o diagnóstico das doenças, por não conseguir atendimento no interior. O Estado deve ser o indutor do desenvolvimento nas mais diversas áreas, mas não induziu o desenvolvimento da saúde no interior. Com isso, as pessoas precisam migrar para Campo Grande, Dourados ou Três Lagoas. Isso gera desconforto para o paciente, que se sente desassistido, e com razão. Além disso, o sistema visa muito a quantidade de atendimentos e pouco está preocupado com a qualidade do serviço que oferece.

O que o senhor faria de diferente?

É preciso investir forte na regionalização e na hierarquização do atendimento, com médico generalista na porta de entrada, migrando para um centro de especialidade médica e de diagnósticos, quando for necessário um diagnóstico mais especializado. Mas, com certeza, é preciso criar polos, centros de diagnóstico e de especialidades na Capital e no interior.

E há recurso para isso?

Basta priorizar. Nós temos a obrigação constitucional de investir em saúde e Mato Grosso do Sul figura, infelizmente, como um dos Estados que menos investe na área. A gestão precisa preceder os interesses políticos. O que temos observado é que isso não acontece. E não é só em Mato Grosso do Sul, mas em todo o país. Os interesses políticos dos grupos precedem a gestão, e quando isso ocorre as necessidades da população ficam em segundo plano. Temos assistido gestões temerárias e, por isso, boa parte dos Estados e dos municípios estão enfrentando uma verdadeira crise financeira. Quem sofre com isso é a população. Há uma clara percepção de que a classe politica dominante tem interesse apenas em se manter no poder, em preservar seus mandatos, porque os interesses políticos estão acima da gestão, acima dos interesses da população. Esse modelo está falido.

A Santa Casa vive constantemente em crise. O há de errado por lá?

A Santa Casa é um hospital de grande complexidade, que presta serviços importantes para o nosso Estado. Ela passou por grandes crises, problemas de gestão e tem tentando, nos últimos tempos, resolver esses problemas na busca por outras fontes de recursos, que não exclusivamente o SUS. Os hospitais filantrópicos têm que diversificar sua fonte de renda, até porque a tabela SUS é bastante defasada. Mas isso tem que estar aliado a uma gestão austera, voltada para o interesse da própria instituição. Eles estão melhorando a hotelaria, oferecendo condições para que o paciente de convênio ou particular os procure, tenha interesse pela estrutura da Santa Casa. Vejo isso como algo muito positivo, mas, sem dúvida alguma, a Santa Casa passou por grandes problemas, e um deles foi a intervenção, que trouxe graves consequências para as finanças da instituição.

Nós temos a obrigação constitucional de investir em saúde e o Mato Grosso do Sul figura, infelizmente, como um dos Estados que menos investe na área. Se não for prioridade, a saúde não terá solução e nosso Estado.

Com o Governo Temer, aprofundou-se o debate entre a saúde pública e a saúde complementar. Como o senhor se posiciona neste tema?

O sistema de saúde é formado pela assistência dada pelo SUS a ¾ da população e pelos planos de saúde a ¼ da população. Os planos de saúde são, portanto, estruturas complementares, suplementam aquilo que a saúde pública não pode dar. Entendo que a saúde complementar desafoga o sistema público, até porque 50 milhões de brasileiros investem para ter uma saúde de qualidade ou um acesso facilitado através dos planos de saúde. Houve, nos últimos anos, uma pressão muito forte sobre os planos de saúde com o aumento dos custos assistenciais através de procedimentos que não estavam previstos nos cálculos dos planos. Isso os sobrecarregou. Agora, com a massa de desempregados, os planos de saúde perderam quase 3 milhões de usuários: de 52 milhões foram para cerca de 49 milhões. Esses 3 milhões migraram para o SUS, e isso vai sobrecarregar ainda mais um sistema que já está em dificuldades. Penso que o governo federal deve buscar uma sinergia entre os setores, porque eles fazem parte de um único sistema, que é o sistema de saúde pública brasileiro.

Como esta leitura se aplicaria em Mato Grosso do Sul?

Imagine se os 450 mil usuários de plano de saúde de Mato Grosso do Sul passassem, do dia para a noite, a utilizar o sistema público. Estaríamos num verdadeiro caos. A saúde privada é organizada, e a Cassems contribui muito para isso. Hoje, temos nove hospitais em Mato Grosso do Sul, um em cada polo, e estamos construindo o décimo em Corumbá (que ficará pronto em 2018). Para se ter uma ideia, a primeira UTI neonatal do Bolsão está dentro do hospital Cassems de Três Lagoas, onde temos também uma UTI adulta. Contribuímos com o primeiro tomógrafo de Aquidauana, de Nova Andradina e de Paranaíba, levamos especialistas para o interior. A saúde suplementar tem cumprido um papel muito importante dentro da saúde sul-mato-grossense. Basta ver os investimentos realizados pela Cassems, o investimento que a Unimed está realizando no hospital de Campo Grande. São investimentos altos, com hospitais de médio para grande porte, de grande complexidade, que vão contribuir muito para o nosso sistema de saúde.

A saúde pública no Estado passa por problemas graves, que se arrastam por décadas: especialmente a falta de profissionais. É necessária a criação de um plano de cargos e carreira que atraia estes profissionais para dentro do sistema?

Esse é o grande problema da saúde pública, no nosso entendimento. Além da questão dos recursos e da gestão desses recursos, existe um grave problema que é a valorização dos profissionais de saúde a partir de um plano de cargo e carreira. Hoje, grande parte dos profissionais da saúde acabam enxergando o sistema público como um bico, onde eles vão cumprir o horário, cumprir a tabela, digamos assim, e depois buscam o complemento da sua renda nas estruturas privadas. Com isso, há uma redução do compromisso que devia ser absoluto com a estrutura pública. Creio que deva existir um plano de carreira estruturado para os profissionais da saúde. Com isso, você conseguirá fixar o médico nas cidades menores. Hoje, o prefeito do interior faz uma proposta inicial e depois de seis meses deixa de pagar esse profissional, que, com certeza, vai sair do interior do Estado. A criação de um plano de cargos e carreira contribuiria muito com o desenvolvimento da saúde do interior, e teríamos um cenário bastante diferente.

Isso é possível, diante do cenário econômico?

Acredito que a saúde seja um dos principais papeis que o Estado deve desempenhar, ao lado da educação e da segurança pública. É preciso elencar definitivamente esses setores como prioridades e mudar a cultura clientelista, onde a classe política procura manter seus feudos eleitorais através do empreguismo, criando milhares de cargos comissionados, sobrecarregando a máquina pública, gerando uma carga tributária que dificulta investimentos e geração de empregos. É preciso acabar com a cultura política patrimonialista, onde os grupos políticos fazem do poder público uma fonte de enriquecimento, de geração de recursos para campanha política, para serem eternizados no poder. Isso é insustentável. Não há possibilidade, neste modelo, de gerar recursos suficientes para dar conta dessa demanda. É preciso mudar a lógica. Esse modelo está chegando ao fim diante da pressão social. Ou a classe política muda sua forma de atender a gestão pública, e consequentemente passa a ter maior responsabilidade na gestão dos recursos, ou será eliminada.

O seu nome tem sido elencado como uma forte opção para as eleições de 2018, ao Senado ou mesmo ao Governo do estado. O senhor tem esta pretensão?

Ainda é cedo para debater a sucessão de 2018. Ao colocar este debate em pauta agora, colabora-se para a perpetuação destas velhas práticas políticas. Em todas as áreas eu vejo os mesmos discutindo política da mesma forma, discutindo interesses de grupos, discutindo quem vai ficar no poder pelos próximos anos, mal terminou uma eleição, mal os novos eleitos começaram a desenvolver seus trabalhos já estão discutindo a questão de 2018, enquanto na minha opinião todo mundo devia estar trabalhando para encontrar soluções para os problemas que a gente está enfrentando.

Que cenário o incentivaria a ser candidato?

Estou acostumado com o que a gente tem feito aqui, com gestão voltada para o resultado para quem precisa. Se a gente entender que há um espaço para a política feita de forma séria, voltada para a população, baseada na gestão, para melhorar a vida das pessoas, podemos participar. Mas se for para fazer a politica só pelo poder, então não tem sentido.


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