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Quarta-Feira 02.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

O que mais vamos perder?

Já perdemos a rua, estamos perdendo a previdência. Vamos perder muito mais

Postado em 10 de Março de 2017 - Rodrigo Amém

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Era uma vez, há mais ou menos um século, cidades onde as ruas eram um espaço público e democrático aberto a cavalos, charretes e pedestres, sem discriminação.

Mas, com o advento do automóvel, os poucos que podiam pagar pelo luxuoso transporte começaram a dirigir à toda velocidade, causando atropelamentos e acidentes. Logicamente, a população se rebelou contra a invenção que estava "ceifando vida de crianças". Algumas cidades americanas chegaram a propor leis proibindo o tráfego de veículos motorizados. As montadoras reagiram como de praxe: usando a mídia para manipular a opinião pública. Editoriais e notícias sugerindo que os pedestres é que eram culpados e que a rua era dos automóveis começaram a pipocar nos jornais da época. Não satisfeitos, os marqueteiros do século passado criaram um termo ofensivo para as pessoas que insistiam em caminhar pelas ruas. "Jay Walker". Numa tradução livre, "andarilho caipira e imundo". Ainda hoje, nos EUA, o crime de atravessar fora da faixa é chamado "jay-walking". E, no Rio de Janeiro, o motorista reage ao pedestre que atravessa o seu caminho como se fosse um "caipira imundo".

A mesma estratégia está desmantelando os direitos trabalhistas e a previdência social no Brasil. Por que? Porque há interesse em rotular os direitos dos brasileiros como um empecilho para o desenvolvimento. Porque dá certo, desde que o mundo é mundo. Foi por isso que a religião criou o inferno.

Recapitulando, um grupo de empresários usou seu poder econômico para demonizar as vítimas do seu modelo de negócio e mudar a percepção de responsabilidade sobre os problemas que causavam à sociedade.

A mesma estratégia está desmantelando os direitos trabalhistas e a previdência social no Brasil. Por que? Porque há interesse em rotular os direitos dos brasileiros como um empecilho para o desenvolvimento. Porque dá certo, desde que o mundo é mundo. Foi por isso que a religião criou o inferno. Foi por isso que o Nazismo perseguiu judeus. É por isso que Trump vai banir muçulmanos e construir muros. Porque, na História, nenhum povo deixou de trocar seus direitos pela promessa de um falso inimigo. E o fizeram de bom grado.

Mudando um pouco de assunto, se o leitor me permite um pouco de futurologia Black Mirror: em cinquenta anos, o zeitgeist dos automóveis vai mudar novamente. Antes do fim deste século, seremos proibidos de dirigir veículos.

O raciocínio é simples. Carros autônomos já são uma realidade. São mais eficientes e seguros. Os raros acidentes em que se envolveram foram causados por falha de condutores humanos. Para as mega corporações, veículos que dispensam mão de obra humana são uma dádiva dos céus. Imagina um Uber sem motoristas. Imagina a Amazon.

Como a presença de motoristas humanos nas estradas diminui a eficiência dos robôs e dá margem a processos indenizatórios, adivinha? A mídia vai começar uma campanha difamatória contra motoristas de carne e osso, tão bêbados e irresponsáveis. Em poucos anos, a opinião pública vai aderir ao discurso e os batráquios do congresso seguirão a marcha inexorável do progresso elitista. Será proibido ao ser humano conduzir seu próprio veículo.

Não acredita? Acha que estou exagerando? Não se preocupe. Estaremos vivos para testemunhar a mudança com nossos próprios olhos. E, pelo andar da carruagem, ainda estaremos trabalhando.


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