Semana On

Terça-Feira 19.jan.2021

Ano IX - Nº 426

Coluna

Quem será o próximo eliminado?

Quando séries e reality shows perdem feio para a realidade.

Postado em 20 de Janeiro de 2017 - Rodrigo Amém

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Eu estava me sentindo muito bem comigo mesmo. Trabalho adiantado. Já tinha preparado um texto sobre a doentia relação de amor e ódio que o Brasil tem com o BBB, que está de volta e causando furor nas redes sociais. Era um texto sobre voyerismo, a tradição simplista da dramaturgia de novela e a obsessão humana por julgar outrem para validar suas próprias escolhas. Dentro ou fora da casa mais vigiada do país. Já estava preparado para o fim de semana, pernas pro alto, sensação de dever cumprido.

Aí, na quinta-feira, tomamos uma reviravolta na cara digna de Game of Thrones. Teori Zavascki, ministro encarregado da operação Lava Jato, morre numa queda de avião. O choque da tragédia dura exatos cinco minutos, antes dos pedaços do quebra-cabeça começarem a se encaixar.

É leviano transformar acidente em queima de arquivo patrocinada pela corrupção institucional generalizada. Pelo menos até que provas cabais sejam apresentadas. Mas isso não muda o fato que a desconfiança que pauta a relação do povo com o governo atingiu níveis cinematográficos.

É frívolo e irresponsável aderir a qualquer convicção sem provas. Mas a conveniência deste infortúnio é quase irresistível. O áudio do Jucá, as delações da Odebrecht por serem homologadas, a viagem de Gilmar Mendes e Temer na semana anterior. O jogo de ligar os pontos conspiratórios conecta circunstâncias e as transformam em causas e consequências nas timelines dos brasileiros de todas as vertentes políticas.

Repito: é leviano transformar acidente em queima de arquivo patrocinada pela corrupção institucional generalizada. Pelo menos até que provas cabais sejam apresentadas. Mas isso não muda o fato que a desconfiança que pauta a relação do povo com o governo atingiu níveis cinematográficos. Nada mais nos surpreende a respeito dos mandatários dessa nação. Para a população, nossos não tão nobres políticos são capazes de qualquer coisa. Até de assassinato. E isso, em si, já é uma crise institucional sem precedentes na história da nossa jovem democracia.

Ainda ligando pontos: A estreia da nova temporada de House of Cards foi adiada. Talvez os roteiristas da série de sucesso da Netflix tenham notado que o absurdo da realidade política superou sua ficção, tanto acima (com Trump) quanto abaixo do Equador (conosco). Está na hora de incrementar a psicopatia de Frank Underwood para que ele não fique devendo às personalidades de quem ele deveria ser uma exagerada expressão.

Daí eu descartei o texto sobre o BBB. Preocupa-me mais quem será eliminado no próximo episódio do HOCB - House of Cards Brasil.


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