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Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

Um conto de natal apropriado

Uma história livremente inspirada em fatos reais. Como o natal.

Postado em 23 de Dezembro de 2016 - Rodrigo Amém

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Todo mundo sabe: a celebração do dia 25 de dezembro é um remix de diversas tradições e credos de um passado distante, apropriados pelo cristianismo e sequestrados pelo capitalismo de consumo. Até aí, morreu neves. Mas não deixa de ser uma boa oportunidade para repensar esses valores que gostamos de ostentar enquanto praticamos outros, bem diferentes.

Esta história é baseada em fatos reais. Aconteceu com alguém que eu conheço ou eu li em algum lugar e só transcrevi os detalhes que julguei importantes. Ou seja, ela é fruto de um processo de apropriação cultural semelhante aquele que nos proporcionou o natal em si. Ou seja, é apropriado que seja apropriada.

Lá na América do Norte mais profunda, a filha de um amigo perguntou pela primeira vez o significado daquela festa ao aproximar de seu quarto natal. Meu amigo explicou que era a celebração do nascimento de Jesus. Ela quis saber mais. O devoto e animado pai percebeu que era a hora de apresentar sua fé à garota. Ele comprou uma bíblia infantil e passou a ler trechos para a pequena todas as noites, antes de dormir. A filha adorava as novas histórias e queria saber tudo sobre Jesus. Seu nascimento, os reis magos, sua mensagem. A menina tinha dificuldade com alguns ensinamentos de Cristo. "Ama ao próximo como a ti mesmo?" Como assim, papai?

Todo mundo sabe: a celebração do dia 25 de dezembro é um remix de diversas tradições e credos de um passado distante, apropriados pelo cristianismo e sequestrados pelo capitalismo de consumo. Até aí, morreu neves.

Num passeio de carro, a menina notou um enorme crucifixo em uma igreja pelo caminho. "Quem é aquele homem, papai?". Meu amigo ainda não tinha chegado ao fim da história de ninar. "Bem, esse é Jesus, querida. Sabe, o governo romano não gostava do que ele falava para as pessoas. Achavam que ele era muito radical e decidiram que ele deveria morrer". O silêncio da menina, olhos arregalados. Meu amigo se lembrou de porque tinha evitado chegar ao fim da história até aquele momento.

Um mês depois, a escolinha da filha do meu amigo fechou para as celebrações do Dia de Martin Luther King.  A menina quis saber porque não tinha aula naquele dia. "Bem, estamos celebrando a vida do Dr. King". "Quem foi ele, papai?" "Um pastor." "Pastor de Jesus?", perguntou a filha. "Sim, ele era cristão, sim", respondeu o pai. "Mas ele realmente ficou famoso por uma outra coisa. Uma outra mensagem", continuou meu amigo.

"Que mensagem?", perguntou a menina. "Bem, ele dizia que devemos respeitar todas as pessoas, não importa a aparência delas", o pai tentou resumir.

A garota pensou um pouco. E ela disse, "Ué? Jesus não falou a mesma coisa?". "Sim, acho que sim. Nunca tinha pensado por esse lado, mas sim. 'Ame o próximo como a ti mesmo'".

A filha pensou mais um pouco, antes de olhar para o pai com olhinhos preocupados. "Os romanos mataram ele também, papai?"


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