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Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Saúde

Projetos de mosquitos antidengue serão ampliados no Brasil

Ação terá início em 2017.

Postado em 27 de Outubro de 2016 - Redação Semana On

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Esta semana contou com dois grandes anúncios a respeito do esforço humano para combater o mosquito Aedes aegypti, o mais relevante transmissor de dengue, zika e chikungunya.

A Oxitec, empresa que produz mosquitos geneticamente modificados, inaugurou uma nova fábrica em Piracicaba, no interior de São Paulo, e a iniciativa internacional Eliminate Dengue revelou que vai fazer grandes liberações de mosquitos infectados com a bactéria wolbachia no Rio a partir do início de 2017.

A ideia da infecção com bactérias é que ela se propague entre insetos naturalmente, tornando-se autossustentável. Por sua vez, os mosquitos modificados geneticamente requerem uma liberação continuada.

O plano que utiliza insetos modificados procura reduzir a população de aedes no ambiente com o espalhamento de um gene que limita o crescimento dos bichos. Já a estratégia que usa insetos com wolbachia visa reduzir a capacidade do mosquito transmitir vírus, ou seja, reduz sua competência vetorial.

Fábrica

As novas instalações da Oxitec têm capacidade para produzir 60 milhões de mosquitos semanalmente, o suficiente, segundo a empresa, para proteger uma área habitada por 3 milhões de pessoas. O galpão onde fica a nova fábrica tem 5.000 m2 de área e a Oxitec não revela o investimento realizado, mas Glen Slade, diretor da Oxitec no Brasil, diz que "o valor é bem grande".

A antiga fábrica, localizada em Campinas, tinha capacidade para produzir 2 milhões de insetos machos, os que são liberados na natureza. A nova fábrica foi inaugurada com um terço da capacidade total –ou seja, produz 20 milhões de mosquitos por semana–, o suficiente para a demanda atual da Oxitec. A expectativa da empresa é que outras cidades, assim como Piracicaba, implementem a solução de controle de mosquitos.

Segundo Slade, como a nova fábrica ficou pronta em 5 meses, seria muito fácil expandir o tamanho da operação, tanto no TRX, condomínio industrial localizado em Piracicaba, quanto em outras regiões do País.

Atualmente, o projeto chamado de "Aedes do Bem" já acontece em bairros de Piracicaba com boa eficácia na redução de casos de dengue. No bairro do Cecap, esse número foi de 133 para 12 em um ano, maior do que os 52% observado no restante da cidade. A iniciativa agora foi para a região central, onde a epidemia também preocupa.

Para o prefeito da cidade, Gabriel Ferrato dos Santos, a decisão de sediar esses ensaios iniciais do aedes modificado geneticamente pode servir de inspiração para outras cidades. "Em essência temos que comparar o que gastamos nos métodos tradicionais de combate à dengue com a nova abordagem", diz.

Hoje os ensaios são feitos na forma de convênio, já que os mosquitos não podem ser comercializados por não terem o aval da Anvisa. Segundo Santos, o critério para a utilização dos mosquitos modificados foi o parecer favorável da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) para a tecnologia.

Outros testes em pequenos bairros das cidades baianas de Juazeiro e Jacobina relataram supressão de mais de 90% na população de aedes.

Dinheiro

A iniciativa do Eliminate Dengue, que não tem fins lucrativos, conta com a colaboração financeira do ministério da saúde (US$ 3,7 milhões) e espera contar com o apoio também dos municípios. Colabora com a iniciativa a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Os testes com a wolbachia são feitos desde 2011 em países como Austrália, Indonésia, e Vietnã. Em 2012 foram iniciados testes em pequenas escalas no Estado do Rio de Janeiro. Segundo Fiocruz, 80% dos insetos acabaram infectados.

"A wolbachia pode ser uma forma revolucionária de proteção contra doenças carregadas por mosquitos. É de baixo custo, sustentável, e aparentemente fornece proteção contra zika, dengue e vários outros vírus. Nós estamos ansiosos para estudar o impacto da iniciativa e saber como ela pode ajudar os países", diz Trevor Mundel, da divisão de saúde global da fundação Bill e Melinda Gates, que apoia o projeto.

Uma crítica à infecção por wolbachia também vale para a liberação de insetos modificados. Não há estudos epidemiológicos que comprovem o efeito das intervenções na redução das arboviroses (viroses transmitida por artropodes, como os aedes) como zika, dengue e chikungunya.

Karla Tepedino, que coordena a produção de mosquitos da Oxitec – dos ovos aos insetos adultos – afirma que o tradicional uso de inseticidas carece da mesma forma desse tipo de evidência.

Outra crítica é que a liberação dos insetos deve ser continuada para que a população selvagem possa ser mantida em níveis baixos, gerando uma despesa permanente aos cofres públicos.

Também ainda não está claro se essa barreira dos 10%-20% de animais restantes após a intervenção com o inseto modificado pode ser rompida nem o tamanho do investimento que seria necessário para que isso acontecesse –a relação entre mosquitos soltos e redução de população provavelmente não é linear.

Já a crítica de uma possível perda do papel ecológico do Aedes aegypti não faz sentido, já que a espécie é invasora no país –uma praga, por assim dizer. Uma vantagem das duas tecnologias é a baixa chance de agressão a outras espécies de insetos, como as abelhas, ao contrário de outras como fumigação de inseticidas, que atinge vários dos bichos indistintamente.


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