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Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

Quem é o fotojornalista que registra as Olimpíadas com câmeras de plástico

David Burnett mostra como o olhar do fotógrafo é preponderante em relação à qualidade da câmera.

Postado em 13 de Agosto de 2016 - Elis Regina Nogueira

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O debate sobre a importância do equipamento e da tecnologia na fotografia é um dos mais comuns entre os profissionais da área. Ele ganhou força depois da popularização das câmeras de celular - e o consenso entre grandes fotógrafos é que não importa a câmera que você usa, mas o uso que você faz dela.

Isso significa que elementos como a sensibilidade do fotógrafo, composição da imagem e familiariadade com o uso da luz são mais importantes do que um equipamento moderno. E David Burnett leva esse conceito ao extremo.

O norte-americano de 60 anos é um dos mais aclamados e premiados fotojornalistas do mundo. Ficou conhecido por registrar a revolução iraniana, em 1979, um trabalho que foi extensivamente publicado pela revista “Time”, e já fotografou outros eventos históricos, como guerras, revoltas e comemorações, em 75 países diferentes.

Burnett está no Rio registrando a Olimpíada de 2016. Diferentemente da maioria de seus colegas, que trabalham com equipamentos de alta performance - lentes de milhares de dólares, câmeras digitais conectadas à internet e outros equipamentos - ele faz suas imagens usando câmeras fabricadas há mais de 50 anos. Entre elas, estão uma Graflex Speed Graphic 4x5 e uma Holga.

São modelos clássicos analógicos, não automáticos, fabricados nos anos 50. No caso da Olga, o corpo e as lentes são feitos de plástico. Há uma série de procedimentos manuais para usar esse tipo de equipamento, e eles precisam ser feitos na ordem certa.

Para a câmera 4x5 (o nome se refere ao formato da foto final), por exemplo, é preciso focar, fechar o obturador da câmera - que controla o tempo da entrada de luz -, engatilhá-lo e colocar o filme antes de clicar. Não há muito espaço para errar, e Burnett conta que a maioria de suas fotos sequer saem.

Em uma entrevista ao site “Lomography”, Burnett foi questionado por que registra a Olimpíada assim. “É como decidir fotografar os Jogos com os dois braços amarrados. Qual o sentido?”, perguntou o repórter. “Só estou tentando fazer algo que deixe as fotos um pouco mais especiais para mim”, respondeu Burnett.

A estética analógica

Não é a primeira vez que Burnett registra os Jogos Olímpicos com um equipamento do tipo: ele vem fazendo isso a cada quatro anos desde 1984, em Los Angeles.

O resultado dos cliques de Burnett são fotos granuladas, em preto e branco, nas quais a composição e o assunto contam toda a história. A estética é exatamente aquela que os filtros vintage dos aplicativos de foto nos celulares tentam copiar. Mas o fotógrafo a alcança usando a técnica original, fotografando em filme e revelando as imagens manualmente.

“Sempre tento trazer uma ideia do que seria ser um espectador nas arquibancadas. Não precisa ser aquele momento em que o atleta ganha a medalha de ouro. Um atleta pode falhar miseravelmente, mas ter um grande coração” - Em entrevista ao jornal “LA Times”

Há 35 de seus registros analógicos de atletas olímpicos expostos na mostra “David Burnett: Man Without Gravity”, em exibição na galeria Anastasia Photo, em Nova York, até dia 24 de setembro de 2016.


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