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Domingo 29.mar.2020

Ano VIII - Nº 386

Artigo da semana

A ressaca da esfera pública

Boa parte dos que pareciam engajados resolveu jogar Pokémon.

Postado em 11 de Agosto de 2016 - Flávio Moura

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Antes da saída de Dilma Rousseff do poder, o ambiente para a discussão de ideias no Brasil já estava podre, mas ao menos era possível identificar o que estava em jogo. Com a reeleição da presidente, em 2014, as forças represadas desde a chegada do PT ao poder federal conquistaram força inédita.

O antipetismo, que já recebera combustível com o mensalão, ganhou de presente a Lava Jato para se refestelar. O anti-intelectualismo, alimentado por uma associação simplória entre a esquerda governista e os departamentos de humanas das universidades, tomou fôlego com a bandeira do programa Escola Sem Partido e se espraiou pelas redes sociais na voz de arautos de compacta estupidez.

Em pouco tempo, roqueiros dos anos 1980 se transformaram em ideólogos do Twitter. Garotos fãs dos Power Rangers ganharam status de "voz da nova geração". Galãs bombados descobriram a palavra "marxismo" e resolveram combater seu ensino nas escolas.

Até aí, ainda dava para entender. A vitória contra o governo Dilma trazia consigo o grito represado de uma direita que saíra do armário no início dos anos Lula, embalada pela legitimidade de que se revestem os discursos de oposição e pelos incontáveis erros do PT.

Mas mesmo esse cenário desolador já se transformou. Depois de escancarado o show de horrores do Parlamento, transmitido ao vivo na votação do impeachment na Câmara, os papéis se alteraram.

A direita acadêmica inteligente recolheu o galho, parou de falar em impeachment e foi discutir o ajuste fiscal. A direita articulada da imprensa entrou em guerra fratricida, com cômica troca de sopapos entre vestais que se acreditavam pioneiras na pregação neoconservadora.

A esfera pública vive uma ressaca dos tempos pré-afastamento de Dilma. A Olimpíada, Donald Trump e os atentados na Europa dominam o noticiário e deixam em banho-maria as vozes da luta política. Vale torcer para que as peças não demorem a se reorganizar no tabuleiro e tornem o jogo menos tosco e polarizado.

As vozes que defendiam a permanência de Dilma se desarticularam -seja pela dúvida sobre a viabilidade de sua volta ao poder, seja pela esterilidade da discussão em torno da existência ou não de golpe. As vozes vendidas do antigo governismo, expressas em blogs chapas-brancas financiados pelo PT, perderam o soldo e saíram de cena.

As ruas não ecoam da mesma forma, como ficou claro pelas manifestações recentes. Expulso o inimigo comum, Dilma e o PT, as diferenças entre o conservadorismo fundamentado e a xucrice udenista voltam a falar alto. À esquerda, a impopularidade de Dilma não ajuda -e quem segue ao lado dela defende menos sua volta ao poder do que valores caros de sua gestão, como a igualdade de gênero e a diversidade racial, solenemente ignorados pelo novo governo.

O debate se esvaziou. A estridência que se notava nas redes e nos jornais antes do afastamento de Dilma deixou de existir, como se os dois lados da contenda se fragmentassem.

A lógica dos embates anteriores não serve de guia para pautar a discussão. Boa parte dos que pareciam engajados resolveu jogar Pokémon.

A se confirmar a permanência até 2018 do poeta interino, os próximos tempos serão de reorganização das alianças ideológicas.

O pensamento progressista pode ganhar força com atores que chegam com energia renovada. Vozes conservadoras podem reivindicar lugar digno na discussão se deixarem de lado os brucutus obscurantistas a que se associaram na luta pelo impeachment.

A esfera pública vive uma ressaca dos tempos pré-afastamento de Dilma. A Olimpíada, Donald Trump e os atentados na Europa dominam o noticiário e deixam em banho-maria as vozes da luta política. Vale torcer para que as peças não demorem a se reorganizar no tabuleiro e tornem o jogo menos tosco e polarizado.

Flávio Moura - Jornalista, doutor em sociologia pela USP, e editor na Companhia das Letras. Foi curador da Flip de 2008 a 2010


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