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Sexta-Feira 22.jan.2021

Ano IX - Nº 426

Brasil

Olimpíada começa em meio à crise política e econômica

Jeitinho brasileiro deve marcar a festa de abertura.

Postado em 05 de Agosto de 2016 - Redação Semana On

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Quando o belga Jacques Rogge, então presidente do Comitê Olímpico Internacional, anunciou o Rio de janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, em 2 de outubro de 2009, o Brasil era o xodó do cenário mundial.

Com a economia ascendente e um líder político, Luiz Inácio Lula da Silva, então adulado até por Barack Obama, o país decolava nas páginas do noticiário internacional. A conquista do direito de sediar a Olimpíada, a primeira na América do Sul, seria o cume.

O cenário do Brasil e, principalmente, do Rio se alterou substancialmente ao longo dos 2.499 dias que transcorreram entre a escolha da sede e a abertura dos Jogos, nesta sexta, dia 5 de agosto.

Às 20h, quando começar a contagem regressiva de 60 segundos no Maracanã, em meio a um público de cerca de 50 mil pessoas, os Jogos de 2016 terão seu início oficial, com algumas marcas.

Entre elas, está o sonho (factível, diga-se) do esporte brasileiro de se tornar uma potência. Por outro lado, a segurança nas arenas, que passou por alterações no últimos dias, é fonte de preocupação, e a organização está em xeque após as falhas detectadas na Vila Olímpica.

A marola positiva dos anos Lula deu lugar a uma crise grave, que levou ao processo de impeachment de sua sucessora, Dilma Rousseff.

Caberá a um presidente interino, Michel Temer, abrir a 31ª Olimpíada.

O país mergulhou na maior recessão de sua história desde a redemocratização. Em meio à desvalorização do real e o aumento da inflação, o governo do Estado do Rio, com as contas em colapso, decretou calamidade pública.

Única figura política de destaque remanescente da candidatura de 2009, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) confia seu futuro político ao sucesso do evento.

Sediar a maior competição esportiva do mundo –10.900 atletas de 205 nações em 42 modalidades— implicou custo de ao menos R$ 39 bilhões.

A promessa feita na candidatura era a de que a competição impulsionaria transformação no Rio, que já havia tentado ser sede em 2004 e 2012 —em 1956, tentou receber as provas equestres dos Jogos de Melbourne.

Houve recuperação de parte do centro histórico e da região portuária e inauguração de uma nova linha do metrô, mas promessas ficaram pelo caminho, sendo a despoluição da baía de Guanabara a mais relevante.

Nos meses finais, sobretudo, problemas e tensões se acumularam.

A disseminação do vírus da zika foi usado como justificativa por alguns atletas para não virem ao Rio.

Atentados terroristas em série na Europa causaram apreensão quanto à capacidade de o Brasil garantir segurança de atletas, oficiais e chefes de Estado.

A violência virou gargalo da organização por problemas com a empresa de segurança contratada para fazer revistas nas entradas de arenas.

O esquema de segurança, aliás, envolverá mais de 51 mil pessoas e terá seu grande teste na festa desta noite.

Em meio às vindas do nadador Michael Phelps e do velocista Usain Bolt, o esporte convive com a sombra do doping. A federação internacional de atletismo baniu o time russo depois que a Agência Mundial Antidoping revelou envolvimento de atletas, técnicos e do Estado em amplo esquema de dopagem.

No sábado (6), a ação começa. O Brasil inicia busca pelo status de potência olímpica. O esporte nacional contou com a melhor preparação da história, com investimento federal na casa de R$ 2 bilhões. A meta é chegar ao top 10, pelo total de pódios. Em Londres-12, foram 17 pódios. Esportes como vôlei e judô são os carros-chefes.

A continuidade desse novo status, contudo, já corre riscos. Os principais patrocinadores devem cortar investimentos com o encerramento dos Jogos, que acontece no dia 21, no Maracanã.

Gambiarra e ecologia

Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Caetano, Gil e Anitta interpretando Ary Barroso. Um voo do 14 Bis, o avião criado por Santos Dumont. Gisele Bündchen desfilando ao som de "Garota de Ipanema", com Paulo Jobim, filho de Tom, ao piano.

Essas são algumas das cenas que um público estimado em 3 bilhões de pessoas verá pela TV —e outras 50 mil, ao vivo, no Maracanã– durante a cerimônia de abertura da Rio-2016.

Um dos momentos mais aguardados de uma Olimpíada, a festa nacional foi feita à base da "gambiarra", definiu a equipe estelar de diretores criativos: os cineastas Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas.

Nos últimos meses, eles se esforçaram para passar a impressão de que fizeram mais com menos —tanto em termos orçamentários quanto de espaço no Maracanã.

O trio reclamou da falta de recursos. O orçamento, não divulgado, foi inferior ao de todas as cerimônias olímpicas anteriores, segundo eles.

Ainda assim, os organizadores afirmam que esta será uma cerimônia "cool", sem deixar nada a dever às anteriores. As atrizes Fernanda Montenegro e Judi Dench, a única estrangeira da apresentação, vão ler um poema em português e inglês.

Além dos já citados, outros participantes serão Elza Soares, MC Soffia, Jorge Ben, Marcelo D2, Zeca Pagodinho e a modelo transexual Lea T.

O sigilo costuma ser fator importante de cerimônias, mas um ensaio aberto que aconteceu no domingo (31) revelou boa parte do enredo.

Pelo que foi visto, 5.000 voluntários e 200 dançarinos participarão da narrativa, que se estende por três horas e conta a história do Brasil, da formação da terra e da chegada dos colonizadores portugueses, passando pelo processo de urbanização até chegar aos tempos atuais. Será uma cerimônia com mensagens de paz e mudança climática.

"A mensagem que deve ficar é da importância da tolerância. Vivemos um momento muito tenso no Brasil, nos EUA, na Inglaterra, no mundo. Comentamos esse estado tenso e fazemos um apelo à tolerância", disse Meirelles.

"Também queremos fazer um chamado à ação, lembrar as pessoas que a raça humana está ameaçada, que estamos num momento crucial, não é coisa de 'ecochato'."

Os espectadores vão ganhar sementes de brinde, e os atletas, mudas que serão plantadas no parque de Deodoro.

Doze escolas de samba, como Mangueira, Portela e Mocidade Independente, encerrarão a festa com um Carnaval. A organização levou um ano para botar tudo isso de pé.

Antes, haverá o desfile de delegações, outra "gambiarra". Tradicionalmente, elas circundam uma pista de atletismo. Como o Maracanã não tem, as 11 mil pessoas cruzarão o centro do campo saindo por lados opostos, como um Y.

O grande segredo que ainda se mantém é como a pira olímpica será acesa, e quem terá essa honra. O jogador Pelé foi convidado para assumir a tarefa. Pistas indicam que o tenista Gustavo Kuerten deve entrar no estádio com a tocha, passando-a para ao menos dois outros atletas antes que ela chegue ao rei do futebol.


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