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Domingo 17.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

Occupying Brazil

A história de Isabella e de uma sociedade refém do cercadinho

Postado em 04 de Abril de 2014 - Cristina Livramento

Isabella vive de ocupação em ocupação desde os 12 anos. Isabella vive de ocupação em ocupação desde os 12 anos.

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Isabella é alagoana, desempregada, tem 23 anos, mãe de três meninos, mas nenhum deles mora com ela. Isabella também não tem casa. Ela faz parte, desde os 12 anos, do movimento de ocupação de prédios abandonados na cidade de São Paulo. Occupying Brazil, documentário de 24 minutos, de Daniel A. Rubio, para o canal de televisão árabe Al Jazeera, conta a história daqueles que encontraram no movimento pela moradia, a esperança de um futuro melhor.

A primeira coisa que alguém pode pensar, ao conhecer Isabella, é por que ainda, mesmo com a distribuição gratuita de métodos anticoncepcionais, nossos jovens brasileiros ainda têm filhos sem nenhum tipo de planejamento? Por que, com tantos programas de planejamento familiar difundidos nos postos de saúde, essa realidade ainda persiste?

Mas, a pergunta que eu gostaria de fazer para você que pensa assim é que tipo de país é este onde ainda vemos tantas Isabellas? Por que insistimos em olhar o problema com uma lupa quando ele só existe por conta de uma questão social, econômica e cultural muito mais abrangente. Uma questão que engloba eu, você, as Isabellas e todo o resto da sociedade.

Aqui nós temos de tudo. Aqui nós temos enfermeira, pessoas que trabalham na área informal, eletricista, encanador, pedreiro. Nós temos professores, que também não têm condição de entrar no financiamento e acabam se juntando ao movimento de moradia. Jaira, líder de movimento de moradia.

O segundo questionamento é sobre esse distanciamento entre eu e a realidade do outro. Durante todo o documentário você é apresentado a vários elementos ignorados diariamente pela sociedade. Fora o movimento pela luta de moradia e a educação sexual (muito mais complexa do que simplesmente saber como se usa uma camisinha), Occupying Brazil aponta outras questões como a pixação, a educação e saúde públicas, o desemprego e a especulação imobiliária.

A sociedade entendeu, em algum curso da história, que compensa mais se enganar com o poder de compra do que exigir que o governo cumpra com seu papel e faça valer os direitos de todo e qualquer cidadão garantidos na Constituição.

No caso da pixação, por exemplo, a sociedade só consegue enxergar a mudança a partir de punições (mais) rigorosas do que cobrar na prática, uma educação pública que sirva para mim, para você, para nós e nossos filhos, sem nenhuma distinção.

Mas a distinção é aquela coisa boa que enche o ego e faz a gente se sentir especial, diferente, melhor.

No Centro de São Paulo, existe aquele prédio – esse que nem eu e você vemos – desocupado há bastante tempo. Nessa mesma cidade de São Paulo, existem inúmeras famílias que, nem eu e você sequer conhecemos ou vamos conhecer, sem nenhuma condição de conseguir, ao mesmo tempo, pagar aluguel, alimentação e se deslocar de casa para o trabalho e vice-versa.

Segundo Daniel, é muito difícil conseguir um número preciso de sem-tetos existentes hoje. Há uma estimativa, para a capital de São Paulo, de 15 mil pessoas. Na semana passada, conforme dados da Frente de Luta por Moradia (FLM) o protesto reuniu cerca de 10 mil manifestantes.

Em Campo Grande, o número é desconhecido, segundo a assessoria de comunicação da Prefeitura da Capital. Na maioria das vezes em que comentei sobre o assunto houve, inclusive, uma confusão entre a definição sem-teto e morador de rua.

Sem-teto é aquele que vive na casa de parentes, de favor, em área de risco, em favelas, onde se encontra a maior parte dos sem-tetos do país. São 11,4 milhões de pessoas, segundo o Levantamento de Informações Territoriais (LIT), baseado em informações do Censo de 2010.

A população de São Paulo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase de 11 milhões de habitantes para uma área de 1.523 km². Campo Grande tem 786.797 habitantes para 8.092,951 km². Quantas Isabellas existem nesses metros quadrados em cada canto deste país? Quantas mais ainda estarão por vir? Por mais quanto tempo iremos compactuar com essa lacuna entre eles (moradores e Isabellas) e nós?

E vai ter as reintegração sim, mas essa foi a forma que a gente achou – enquanto movimento de moradia – de pressionar os órgão público. Tá ocupando. Jaira.

O terceiro ponto que chama a atenção é a organização de pessoas, com histórias das mais diferentes, com um único objetivo. A luta do movimento pela moradia só existe porque várias pessoas entenderam que se não fosse pela força da unidade, jamais conseguiram mudar alguma coisa. Convenhamos, há uma grande diferença entre aquele que grita por uma educação pública de qualidade com o filho matriculado em uma escola pública e aquele com o filho em escola particular.

Quantos séculos mais precisamos – se é que a humanidade vai sobreviver por muitos outros séculos – para entender que a dignidade e a qualidade de vida do outro afeta diretamente a minha dignidade e qualidade de vida? Quanto tempo mais teremos que ser reféns da violência urbana, do tráfico de drogas, da nossa própria ignorância e mesquinhez para entendermos que precisamos ocupar nossos respectivos lugares nas questões sociais para que haja uma transformação significativa?

Migração é o quarto ponto. Segundo o IBGE, a projeção do fluxo de migração entre estados tem diminuído e a tendência é que diminua ainda mais nos próximos anos. Se pensarmos, especificamente sobre São Paulo, a cidade que mais recebe migrante, a cada ano que passa as estações de metrô (supermercados, padarias, livrarias) estão cada vez mais lotadas. Essa informação se parece muito quando o Ministério da Saúde passa aqueles relatórios bonitos com inúmeras melhorias, mas o povo segue – ano após ano – sem sequer conseguir agendar uma consulta, em um prazo decente, nos postos de saúde.

Quanto mais nos preocupamos em nos proteger da violência, do duvidoso, quanto mais nos tornamos escravos do poder e do dinheiro, mais espremidos ficamos dentro do cercadinho, mais extensa e densa se torna a área de marginalidade em nossa volta.

Isabella e esse combinado de perguntas, minhas e suas, nada mais são do que o reflexo da nossa incapacidade de refletir sobre o assunto, de pensar em soluções práticas a curto, médio e longo prazo e de tratar o marginal como gente, não como coitadinho nem como bandido.

Tem prédios vazios e se tiver que ocupar, a gente vai ocupar porque o pessoal não tem pra onde ir. Então se for pra ocupar, a gente vai ocupar. Andre, líder de movimento de moradia.

Viewfinder 2014: uma entrevista

Daniel A. Rubio é produtor e diretor independente de documentários focados em questões sociais e ambientais. Chileno, mora há 15 anos em São Paulo. Há 12 ele acompanha os movimentos de ocupação. Daniel é um dos oito documentaristas selecionados entre 537 candidatos e propostas para a atual edição do Viewfinder, projeto sobre a América Latina, para o canal de televisão árabe, Al Jazeera.

 

O que te levou a se interessar pelo movimento de ocupação em São Paulo?

Conheci o movimento de luta por moradia em 2002 e, desde esse tempo, só cresce. Parece que quanto maior a marginalização econômica maior a necessidade de se organizar. A experiência de fazer Occupying Brazil surgiu da obsessão em saber quem são essas pessoas que moram  em meio desse emaranhado de prédios e que muitas vezes nem sabemos da sua existência.

As famílias são organizadas de que maneira?

Existem vários grupos em diferentes partes da cidade, Centro de São Paulo e também na periferia. Estes grupos se organizam a partir do movimento Frente de Luta por Moradia (FLM) e executam ações planejadas coletivamente para pressionar e negociar moradias populares para membros do movimento com os governos municipal, estadual e federal.

Isabella é de Alagoas. A maioria das famílias são migrantes ou são paulistanos?

Bom, São Paulo é uma cidade de migrantes. A maioria das pessoas que participam destes movimentos são de outros estados ou são filhos de migrantes. São pessoas que trabalham e fazem parte da São Paulo globalizada, participam da economia, mas devido às grandes diferenças sociais, econômicas e históricas do Brasil, seus salários não são suficientes para pagar um aluguel por uma moradia digna.

Como foi a seleção dos projetos?

Os projetos foram escolhidos entre 537 propostas enviadas para a edição atual do Viewfinder. A iniciativa seleciona e patrocina a realização de filmes sobre a América Latina para depois veiculá-los no canal de televisão. Primeiro a Al Jazeera apontou 11 documentários, cujos diretores participaram de uma oficina com a DocMontevideo, organização uruguaia do segmento, em Montevidéu. Foram então escolhidos oito projetos, dois brasileiros, dois argentinos, um cubano, um hondurenho, um da República Dominicana e Haiti, e um uruguaio.

Onde, atualmente, está Isabella?

Isabella ainda continua com sua vida instável, passa tempos com seus familiares e volta às ocupações. A força desta história é que existem milhares de Isabellas, que seguem suas vidas entre um bico e outro, entre um canto para morar e outro. São grupos esquecidos pelo desenvolvimento econômico, mundos à parte dos meios de comunicação de massa, à parte da vida da cidade, da vida cultural e política.

Serviço

Occupying Brazil será transmitido ao vivo, dia 7 de abril, às 22h30 GMT, para a região Centro-Oeste, às 18h30, pelo site da Al Jazeera. Esse e outros documentários produzidos sobre a América Latina, edição 2014, você pode ver na página Viewfinder Latin America

Links relacionados

Daniel A. Rubio

Frente de Luta por Moradia


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