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Terça-Feira 02.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

No país das vozes pequenas

O preconceito do brasileiro com o virtuosismo vocal alheio.

Postado em 15 de Julho de 2016 - Rodrigo Amém

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O texto é de 2014, mas normalmente emerge dos confins da internet em tempos de The Voice Brasil. Trata-se de um post do Diário do Centro do Mundo, assinado por Kiko Nogueira, jornalista e músico, de acordo com a publicação. Começou a pipocar na minha timeline esta semana, o que me faz suspeitar que uma nova temporada do reality se anuncia. Você pode clicar no link e conferir o artigo por si mesmo, mas o resumo é o seguinte: The Voice Brasil está destruindo a MPB por causa do melisma. Não, minha senhora. Melisma não é um candidato. É uma técnica vocal que consiste em estender o número de notas cantadas em uma mesma sílaba em um determinado trecho musical. Sua origem vem lá do canto gregoriano, mas de acordo com o Kiko, o problema é a Whitney Houston.

"Não era uma tradição brasileira. É uma herança bastarda do gospel. É o que já fazem há algum tempo, lá fora, Christina Aguilera, Mary J. Blige, Jessica Simpson, Josh Groban, Beyoncé, a insuportável Céline Dion, entre outros. Torturam as notas até não sobrar nada delas, ignoram as letras em prol de um exibicionismo obtuso, matam a pauladas a gentileza", protesta o Kiko. "Não é agradável. Não é cantar. É gritar mais ou menos no tom", decreta um pouco depois.

Ninguém é obrigado a gostar de ópera, canto gregoriano, soul music, heavy metal, bossa nova ou sertanejo. E você é livre para odiar o estilo que quiser, também. Todo mundo tem um estilo, ou tipo de músico que o desagrada. Eu, por exemplo, não aguento músico caga-regra.

O autor também dedica algumas linhas para explicar que cantar bem é estar "a serviço da canção" e que contenção é mais importante que potência. E que a tradição brasileira é a do cantor pianinho. É a bossa-nova sussurrada de Tom Jobim, que conquistou os elevadores do mundo. E isso tudo é válido no âmbito da preferência pessoal. Você pode preferir intérpretes mais discretos. Mas seria correto chamar o Pavarotti de "exibicionista obtuso"? E Bruce Dickinson pode ser reduzido a "apenas um gritador que mata à pauladas a gentileza"? Ou essa é uma crítica exclusiva à assimilação da cultura negra americana? É só essa a cultura "bastarda" que não pode se manifestar a plenos pulmões? Os vibratos agudos de Chitãozinho e Xororó seriam aceitáveis, já que fazem parte da "nossa tradição"? E Edith Piaf? A "dramática" se enquadra na categoria de canastrona que "grita mais ou menos no mesmo tom?"

O preconceito com o virtuosismo vocal da música negra americana é muito comum entre os músicos brasileiros - especialmente os que não cantam. No entanto, desconsidera o seu contexto. A música negra evoluiu nos Estados Unidos, marcada pela discriminação racial. São feridas de intolerância ainda abertas, como as tragédias recentes têm demonstrado. Durante muito tempo, os negros foram aconselhados a serem discretos e humildes. A não chamarem atenção para si mesmos. Cantar a plenos pulmões - e bem - nas igrejas era uma forma de protesto, de afirmação de identidade. Não é um exibicionismo em detrimento da canção. É o seu subtexto social. É a atitude que nos deu Muhamed Ali e seus inesquecíveis discursos elogiando a si mesmo. É a manifestação da visibilidade que lhes era proibida. "Não quer nos ver? Pois vai ouvir." É de se estranhar que os participantes anônimos destes programas de calouros se identifiquem com esse estilo? Com o clamor pela visibilidade que lhes é negada? Acho natural e compreensível. Não se trata de "um retrocesso para o Brasil". Retrocesso é preconceito, de qualquer tipo.

Ninguém é obrigado a gostar de ópera, canto gregoriano, soul music, heavy metal, bossa nova ou sertanejo. E você é livre para odiar o estilo que quiser, também. Todo mundo tem um estilo, ou tipo de músico que o desagrada. Eu, por exemplo, não aguento músico caga-regra.


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