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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Pela janela do Excel

Um conto sobre o custo da redução de custos.

Postado em 08 de Julho de 2016 - Rodrigo Amém

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Carlinhos entrou na empresa como estagiário. Tinha inglês intermediário, mas era bom de Excel. Precisava da ajuda de custo para pagar a faculdade particular. Por isso, Carlinhos ralou bastante e acabou efetivado. Era conhecido como "garoto da planilha". Precisava de um relatório de custos? Fala com o Carlinhos. Uma projeção de investimentos? O Carlinhos faz rapidinho.

Como o resto do departamento era mais velho e tinha menos intimidade com a tecnologia, Carlinhos virou referência. Não tinha o costume de questionar os superiores e entregava suas planilhas no prazo, impreterivelmente. Foi promovido.

Um dia, Carlinhos foi convocado para uma reunião com a gerência. Precisavam de ideias para aumentar a produtividade e reduzir os custos. Carlinhos levantou uma mão tímida e mencionou que era possível reduzir o custo de materiais de escritório pela metade se usassem os dois lados do papel na impressora. A ideia foi implementada e Carlinhos ganhou seu primeiro bônus de participação nos resultados positivos da empresa.

Fuçar as planilhas de custos se tornou uma obsessão para Carlinhos - que passou a ser conhecido pelo sobrenome Tavares - quando virou coordenador. Reduzindo esta célula e aumentando aquela, cai o gasto. E dá-lhe bônus de fim de ano.

A batalha pela revisão do que os sindicatos insistem em chamar de ‘direitos’ tem sido dura, mas Dr. Tavares confia na sua planilha de Excel, que agora tem uma coluna ‘contribuições em campanhas eleitorais’.

Ao chegar à diretoria de sua área, Tavares já tinha fama de administrador eficaz. Sabia cortar custos como ninguém. Suas planilhas eram aplaudidas nas reuniões. Em casa, a esposa partia para a terceira plástica, a filha caçula queria fazer intercâmbio e o mais velho cursava medicina em faculdade privada. Tavares precisava mostrar mais eficiência. Mais redução de custos. Então ele abriu a planilha do RH e cortou a cesta de natal, bateu sua meta e conquistando o bônus daquele ano.

Quando se tornou CEO, Dr. Tavares já tinha cortado os benefícios dos colaboradores pela metade e era palestrante convidado em congressos da indústria. Todos celebravam sua mente inovadora e sua filosofia de lean management. Demitiu milhares. Exportou todo o processo produtivo. Terceirizou TI e RH. Parabéns, Dr. Tavares.

Até que o Excel começou a esbarrar nas leis trabalhistas. Não havia mais onde cortar. Dr. Tavares usou seu talento inovador para repensar os contratos trabalhistas era preciso obter mais horas de trabalho pelo mesmo investimento em salários. Apresentou sua proposta para seus colegas do mercado. Foi eleito o representante dos empresários da categoria. Apertou a mão de políticos. Fez discursos.

A batalha pela revisão do que os sindicatos insistem em chamar de "direitos" tem sido dura, mas Dr. Tavares confia na sua planilha de Excel, que agora tem uma coluna "contribuições em campanhas eleitorais". O bônus deste ano está cada vez mais perto e virá em boa hora. A esposa já marcou a oitava plástica. E já avisou que quer fazer o repouso pós-operatório na casa em Nice, depois de terminada a reforma.  


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