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Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna

O atentado de Orlando e as opções presidenciais dos EUA

O oportunismo de Trump e o jogo de duas caras de Hillary Clinton.

Postado em 01 de Julho de 2016 - Bruno Lima Rocha

Embora ataques com armas automáticas sejam um fenômeno regular nos EUA, o atentado contra a Pulse, atingindo majoritariamente latino-americanos e descendentes vivendo em Orlando e região, foi o pior massacre doméstico desde o 11 de setembro de 2001. Embora ataques com armas automáticas sejam um fenômeno regular nos EUA, o atentado contra a Pulse, atingindo majoritariamente latino-americanos e descendentes vivendo em Orlando e região, foi o pior massacre doméstico desde o 11 de setembro de 2001.

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O atentado de Orlando, Florida, realizado na madrugada de domingo, 12 de junho, congrega o que de pior temos hoje em termos de ameaça visível para a ideia de democracia de massas. A ação terrorista e de crime de ódio aproxima extremos sectários, atiçando tanto uma onda de islamofobia assim como visibilidade da homofobia em escala de pavor societário. Também caracteriza um momento onde a política interna dos Estados Unidos consegue se mundializar, através de redes cibernéticas, efeitos virais e de lealdades ideológicas onde a América Latina reproduz, pela via de elites econômicas e midiáticas pautadas pelo viralatismo, as piores clivagens da direita republicana, dos ultra liberais e neoconservadores orientados pelo crivo religioso.

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Um jovem estadunidense de origem afegã, Omar Mir Sediq Matteen, 29 anos, nascido em Nova York (NYC), filho de refugiados do território invadido pelos EUA em 2001 e antes ocupado pela extinta União Soviética em 1979, ataca uma casa noturna LGBT. O resultado foram 49 mortos e 53 feridos; o cidadão que cometeu o ato terrorista, também terminou morto, resultando no quinquagésimo óbito na fatídica madrugada. Matteen agiu alegando estar inspirado no Estado Islâmico (ISIS) e, obviamente, também simpático a causas conservadoras e abusando do direito ao uso de armas pessoais. No meio do tiroteio, o cidadão estadunidense que trabalhava como segurança privado, realizou algumas ligações para a polícia, dando ênfase maior ao ato, e, simultaneamente, caindo em seguidas contradições. De forma oportunista, na manhã seguinte, o ISIS reivindica a ação de tipo lobo solitário, embora o discurso do autor do ataque fosse muito, muito contraditório.

O oportunismo de Trump e o jogo de duas caras de Hillary Clinton

O massacre de Orlando polariza ainda mais as eleições presidenciais dos EUA, a serem realizadas no mês de novembro, com dois candidatos portando discursos opostos. Hillary Clinton, 68 anos, candidata pelo Partido Democrata e contando com o apoio do atual presidente Barack Hussein Obama, vai reforçar o debate pela restrição ao porte e compra de armas no país. Já Donald Trump, 69 anos, candidato pelo Partido Republicano, vai ter a chance de aumentar a marca sectária de sua campanha, apostando na islamofobia e uma postura ofensiva contra as ameaças de terrorismo, em especial no nível doméstico.

Vale destacar que Omar Matteen trabalhava como segurança particular, guarda de valores, empregado na empresa G4S e com posto fixo. As armas utilizadas no ataque, duas, foram compradas legalmente pelo cidadão estadunidense. Menos de 24 horas após o massacre, temos um choque de interpretações entre as duas candidaturas. Hillary Clinton alega que o bloqueio republicano para a mudança no estatuto legal da compra de armas de uso pessoal impede a segurança no território dos EUA, expostos a tiroteios e crimes de ódio e intolerância regularmente. Já Donald Trump alega que a administração Obama tem a “mão leve” e se nega a endurecer contra o “islã radical”. O ataque na Pulse Nightclub pode inclusive, voltar a unificar o discurso do Partido Republicano, que até sexta passada, preparava um desembarque massivo da campanha de Trump, liberando suas bases para não aderir ou mesmo recomendar o apoio a Hillary.

Embora ataques com armas automáticas sejam um fenômeno regular nos EUA, o atentado contra a Pulse, atingindo majoritariamente latino-americanos e descendentes vivendo em Orlando e região, foi o pior massacre doméstico desde o 11 de setembro de 2001. Ocorrendo em junho, faltando pouco mais de um mês para as convenções nacionais dos dois partidos majoritários dos EUA, sem dúvida o ato de terror individual – tipo lobo solitário – radicaliza posições, acirra preconceitos e dá fôlego para a insana campanha de Trump. O milionário, apresentador e com veia de comediante entra como franco atirador na corrida presidencial e caso consiga retirar o elemento de racionalidade dos debates, pode incomodar bastante em uma disputa que, hipoteticamente, segundo a maior parte das análises prévias, já estaria resolvida em prol de Hillary Clinton mesmo antes do início da campanha majoritária.

A dimensão doméstica das eleições estadunidenses não condiciona o acionar internacional

O jogo de duas caras da ex-secretária de Estado ultrapassa também o senso do ridículo em escala internacional. O governo do Democrata Barack Hussein Obama tem duas patas no Oriente Médio com vínculos diretos para com o jihadismo sunita. Primeiro, por jamais ameaçar sequer punir as monarquias árabes conservadoras, lideradas pela Arábia Saudita, e seguidas por Omã, Bahrein, Kuwait, Qatar e EAU. São os emires do petróleo os ordenadores de despesa e controladores das redes de inteligência a abastecer os “rebeldes” sunitas na Guerra da Síria. Em outras palavras, os EUA e sua vasta rede de espionagem e controle, nada fazem para frear a ação da Frente Al Nusra, alimentadas e financiadas por sauditas e aliados, não por acaso, também aliados dos EUA no Grande Oriente Médio e Mundo Árabe. Já o único país membro da OTAN e de maioria islâmica, a Turquia, corresponde ao segundo maior contingente da Aliança e é quem abastece toda a logística do ISIS!

Trata-se de uma farsa absurda associar a candidatura de Hillary Clinton a uma postura “humanista e tolerante” no âmbito internacional. Afirmo que não há diferença qualitativa entre a gestão da candidata Democrata e a de seu sucerro John Kerry à frente do Departamento de Estado no que diz respeito ao padrão de alianças entre a superpotência e seus aliados regionais no Oriente Médio e, por consequência, as linhas logísticas do jihadismo sunita, tanto da Al Qaeda como de seu concorrente, o ISIS. Logo, a islamofobia profanada por Donald Trump, embora ofensiva, não altera a correlação de forças no cenário conflagrado, onde quem realmente combate o jihadismo sunita, o PKK e seu guarda-chuva de organizações sociais, ainda está sob a rubrica de “terrorista” pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Se em escala mundial não compreendermos esta hipocrisia estrutural, apelidada de cálculo “realista”, simplesmente estaremos ainda mimetizando a polarização entre Democratas e Republicanos, sem compreender os interesses estratégicos para latino-americanos e povos do mundo que são alvo das políticas imperiais da Superpotência.


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