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Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna

Ter empatia é o próximo desafio dos LGB

A postura de LGBs diante da escalação de Cauã Reymond para um videoclipe mostra que não há solidariedade entre nós.

Postado em 24 de Junho de 2016 - Guilherme Cavalcante

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Hoje o papo é reto. Vou falar especificamente da polêmica da semana, no caso, o videoclipe da música 'Your Armies', da cantora Bárbara Ohana, no qual Cauã foi escalando para interpretar uma travesti numa suposta mensagem contra a transfobia. Suposta porque, no fim das contas, quem aparece é Cauã e é só sobre Cauã que se fala, até o momento.
Nós amamos o Cauã Reymond. E no fim das contas ele não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Não tem culpa, só queria ajudar. Está perdoado, querido. Quem está com a batata quente na mão é o próprio movimento LGBT.
Por quê?
Porque, mais uma vez faltou respeito aos protagonismos. Vou tentar explicar isso a partir da provocação de um amigo, que pediu minha opinião sobre o caso. Ele me perguntou basicamente se a 'mensagem' do videoclipe teria a mesma repercussão se uma atriz travesti ou transexual tivesse sido escalada para estrelar a produção. Demorei dois minutos para responder, porque é óbvio: não.
Porém, esta seria a única forma de promover verdadeiramente as pessoas trans e combater a transfobia. O resto é publicidade, é buzz. E é extremamente fácil de provar. Primeiramente, tem que ver qual a repercussão que se quer, qual é a proposta do videoclipe. Daí já se explica o 'suposto' que usei no início do texto. Cauã Reymond no clipe de uma cantora que ninguém sabe quem é (quanto a 'ninguém', refiro-me às pessoas em geral) quer mesmo defender travestis? Ou quer fetichizá-las mais ainda por meio da interpretação do ator cisgênero famoso, para assim ganhar mais visibilidade (em uma semana a famosa 'quem' teve mais de um milhão de views. Helloooo, olha o buzz aqui)? Você aí consegue ver essa estratégia e responder essa questão?
Não seria mais correto promover atrizes trans como forma até mesmo de combater a subalternização de seus corpos, dando-lhes visibilidade e acesso a um mercado de trabalho restrito a pessoas cisgênero?
Quer dizer, o problema embutido em tudo isso está na representatividade e é basicamente uma questão estrutural. Porque, por mais que a intenção do videoclipe seja denunciar a transfobia, quem sai beneficiado é Cauã Reymond - como o ator que 'topa todas', e a cantora, como quem decide mexer no território espinhoso a qualquer consequência.
No caso de Cauã, portanto, além de não ser representativo escalar um ator cis, essa escolha invisibiliza a comunidade trans! Basta ver a repercussão, todos falando que ele está ótimo, está 'linda', que Cauã subiu no conceito. E entre destacar o engajamento de um artista e partir para uma práxis contra a opressão há um abismo.
Veja que diferente de outros segmentos do movimento LGBT, a luta por identidade é muito mais forte para travestis e transexuais (vou chamar de comunidade T a partir de agora), aliás, é basilar para elas. Gays e lésbicas já estão no estágio de querer casar e adotar. Já a comunidade T quer existir, quer entrar no mercado de trabalho, quer acesso digno à tratamento de hormonoterapia. Enfim, quer fugir do esquema que as empurra para as esquinas da vida e ter a identidade de gênero respeitada.
Sentiu a diferença? Não tenho o menor medo de dizer que a comunidade T é a prima pobre do movimento LGBT. Afinal, só elas lutam por elas. Até diante de uma reivindicação legítima como representatividade (que, diga-se de passagem, já foi mais importante para os 'LGB', como há uma década), não há solidariedade da nossa parte. O discurso de que o videoclipe agrega aliados (que aliás, é falso como moeda de dois reais) esmaga o que elas reivindicam.
Basicamente, eu já não vejo mais problema das pessoas terem opinião e dizer que é o máximo a ideia do clipe. Porque é assim mesmo, pessoas cisgênero são privilegiadas e criticar essa não-representação é abrir mão deles, principalmente os artistas. Repito: é uma questão estrutural.
Com isso, faço uma pergunta. O que é mais real, que as mudanças sociais venham de fora para dentro (ou seja, da sociedade para a comunidade) ou de dentro pra fora (da comunidade para a sociedade). Colher de chá: a sociedade vai se importar com a reivindicação de um grupo que nem se reconhece, ainda? Travestis e transexuais há um tempo nem se reconheciam assim, consideravam-se homossexuais. E isso necessariamente quer dizer que, neste momento do processo de empoderamento que elas estão, a representatividade é mais importante para que o grupo ganhe visibilidade e respeito.
E minha crítica é exatamente para LGBTs que aplaudem esse tipo de coisa. Por muito tempo eu fui desses que achava que o corpo do ator é neutro, é performático, que não pode restringir-se ao gênero. Não custa lembrar que na década de 1960 a representação de negros na TV era feita por black face. Você sabe o que é black face? Pergunta para qualquer integrante do movimento negro que você vai entender o quão grave é. Ok, o gênero não é cor. Não é, mesmo, esse exemplo que coloco seria até uma falsa simetria.
Mas, cisgêneros interpretando pessoas trans é um privilégio, sim! Afinal, pessoas trans não interpretam cis, não interpretam ninguém. Não interpretam nem mesmo a própria categoria. NEM ISSO elas têm. 
Claro que ninguém precisa concordar comigo, porém, esta não é uma questão de opinião, já que ela não muda os fatos de que, no fim das contas, falta muita, muita solidariedade no movimento LGBT.

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