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Sábado 06.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Artigo da semana

A copa e a cozinha

Ministério Público e tribunais de contas dos Estados e do Distrito Federal apuram dezenas de suspeitas de superfaturamento, desvios e inúmeros outros abusos na preparação da Copa do Mundo.

Postado em 26 de Março de 2014 - Fabio Trad

O caso do estádio Mané Garrincha, cuja construção saltou de estimados setecentos milhões para 1,4 bilhão de reais, é emblemático. O caso do estádio Mané Garrincha, cuja construção saltou de estimados setecentos milhões para 1,4 bilhão de reais, é emblemático.

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Tão preciso e fulminante quanto nos muitíssimos momentos magistrais de artilheiro, o colega Deputado Romário acaba de proclamar que “fora de campo o Brasil já perdeu a Copa”.

Pronunciada a propósito do não cumprimento, pelo Comitê Organizador Local, o decantado COL, da promessa de 32 mil ingressos para os jogos da Copa, a pessoas deficientes, a sentença lapidar do Deputado Romário foi selada com uma constatação de desalentadora significação: “A Copa é no Brasil, mas não é dos brasileiros”.

Negar a deficientes o acesso a jogos de uma Copa disputada em seu próprio país constitui “apenas” a parte mais desumana da bilionária sucessão de jogadas escusas, armadas sob a permissiva cobertura da Matriz de Responsabilidades da Copa do Mundo.

Negar a deficientes o acesso a jogos de uma Copa disputada em seu próprio país constitui a parte mais desumana da bilionária sucessão de jogadas escusas.

Em fins de 2013, a própria Matriz, que bem poderia ser de IRRESPONSABILIDADES, estimava que o custo dos estádios havia saltado de sete bilhões para oito bilhões de reais, ou seja, 14% a mais que o gasto que já tinha sido corrigido, para cima é claro, um ano antes.

Muitas das tais obras de mobilidade urbana, cantadas em prosa e verso como o mais importante legado da Copa para a população, atrasadas por omissão ou suspensas ante indícios de superfaturamento, foram simplesmente sacadas dos relatórios do Comitê Organizador Local.

É como se essas obras bilionárias deixassem de existir só por serem apagadas do ‘mundo ficcional’ dos Senhores da Copa, ainda que componham, com todo realismo, a banda podre do famigerado legado.

Muitas das tais obras de mobilidade urbana, cantadas em prosa e verso como o mais importante legado da Copa para a população, foram sacadas dos relatórios do COL.

Ministério Público e tribunais de contas dos Estados e do Distrito Federal apuram dezenas de suspeitas de superfaturamento, desvios e inúmeros outros abusos.

O caso do estádio ‘Mané Garrincha’, cuja construção saltou de estimados setecentos milhões para 1,4 bilhão de reais, é emblemático. Ali, o preço do transporte de material pré-moldado foi calculado com base na distância entre Goiânia e Brasília, embora a fábrica se localize a apenas 1,5 quilômetro do estádio.

Lamentavelmente, esse está longe de ser um caso isolado na crônica controvertida da construção da chamada infraestrutura para a Copa do Mundo no Brasil.

Diante da sucessão de denúncias relacionadas a obras da Copa, não se pode acusar de pregoeiros do caos os que prevêem o acirramento de manifestações populares à medida que se aproxima o evento.

A propósito, nota-se hoje uma ardilosa tentativa de manipulação da opinião pública, com o objetivo de demonizar, como crime de lesa-pátria, qualquer iniciativa de discutir a libertinagem da gastança em nome da Copa do Mundo.

Coisa de quem já ganhou mundos e fundos com a Copa 2014.

Fabio Trad - Deputado Federal (PMDB-MS)


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