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Domingo 31.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Mundo

Muçulmanos belgas rejeitam violência provocada pelo terrorismo

Em Bruxelas, muçulmanos apostam na cultura contra extremismo.

Postado em 25 de Março de 2016 - Redação Semana On

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É hora da última oração do dia, o Isha, na Grande Mesquita de Bruxelas, no simbólico Parque do Cinquentenário. A poucas ruas dali estão as instituições europeias e a estação de metrô de Maelbeek, um dos alvos dos ataques terroristas de terça-feira (22).

"Nós somos as primeiras vítimas do que aconteceu aqui em Bruxelas", diz um homem de meia idade ao falar do preconceito contra a comunidade islâmica.

As pessoas que estão a caminho da Grande Mesquita fazem questão de dizer que os atentados de Bruxelas "não têm nenhuma relação com o Islã". "Muçulmanos de verdade não são feitos para matar pessoas, esses são criminosos", sentencia o grupo.

Calcula-se que existam cerca de 300 mil muçulmanos em Bruxelas, quase um quarto da população. Apenas 14 das 80 mesquitas da cidade são reconhecidas pelas autoridades do país.

Na terça, a Liga dos Imãs da Bélgica repudiou "os atos criminosos" que deixaram 31 mortos e 300 feridos na capital do país.

Após os atentados de Paris, o governo belga prometeu ajudar os bairros multiétnicos como Molenbeek, Anderlecht e Schaerbeek a lutar contra a radicalização religiosa.

A discriminação e a falta de integração social são a base do problema que tem levado jovens de origem muçulmana a se aproximar de grupos extremistas. Nos últimos anos, entre 500 e 800 militantes viajaram à Síria e ao Iraque se juntar a facções terroristas.

Cultura

Os atentados terroristas de Paris e Bruxelas apresentaram ao mundo dois bairros de nomes estranhos, descritos como celeiros de terroristas, um tecido remendado no coração da capital belga.

Com importantes populações muçulmanas, Molenbeek e Schaerbeek rejeitam a representação que voltou a dominar os noticiários internacionais nesta semana e multiplicam iniciativas sócio-culturais para promover a integração dos estrangeiros e desvincular a imagem do islã do extremismo.

A mais recente foi lançada pela administração local de Schaerbeek na quarta (23), um dia depois dos ataques ao aeroporto e ao metrô, preparados nesse mesmo bairro, o segundo mais populoso da capital, onde 20% dos habitantes são marroquinos e turcos.

Chamada de 'Via', a organização sem fins lucrativos, subvencionada pelo governo regional, oferecerá aos estrangeiros um 'percurso de integração', com cursos de francês e orientação sobre questões da vida social, direitos e deveres na Bélgica.

Com uma antena no bairro vizinho de Molenbeek, onde 25,5% dos habitantes são marroquinos, 'Via' espera atender até 2 mil imigrantes ao ano.

Mas projetos como esse não foram motivados pela recente descoberta de redes terroristas nesses bairros.

Teatro

Na 'Maison des Cultures et de la Cohésion Sociale' de Molenbeek, o ator e diretor Ben Hamidou iniciou há um ano a montagem de uma peça teatral baseada no texto 'Invasão', do autor sueco Jonas Hassen Khemiri, com a qual pretende "abrir o espírito" dos jovens do bairro para os "grandes temas fundamentais, como o respeito à mulher e a discriminação".

"A intriga é um pouco sobre esse preconceito, essa paranoia que temos durante um evento preciso sem dar um nome. Fala bastante de islamofobia, mas com um humor fino, mais acessível", explicou à BBC Brasil.

Os atores são adolescentes do bairro, onde o desemprego de menores de 25 anos é superior a 41%, o nível mais alto de Bruxelas.

O projeto vai além dos ensaios e representações. Hamidou leva seu 'atores' a outras peças e promove discussões sobre os temas abordados.

O modelo é similar ao da associação Ras El Hanout, um centro cultural que busca atualmente financiamento para construir um verdadeiro teatro em Molenbeek, com capacidade para um público de 192 pessoas, assentos retráteis para que o local possa ser convertido em sala polivalente e um estúdio para futuros projetos audiovisuais.

Valorização

"É o tipo de iniciativa que atrai jovens que podem estar em busca de uma identidade, de um propósito na vida e que, de outra maneira, poderiam ser atraídos pelo discurso extremista", opina Liselotte Vanheukelom, educadora da associação sócio-cultural JES (sigla para "Juventude e Cidade" em flamenco), criada há 30 anos e que também promove diversas atividades culturais em Molenbeek.

Envolver os habitantes locais em produções culturais é também uma forma de "valorizar esse jovens que estão vendo seu bairro ser criticado diariamente no mundo inteiro e que se revoltam, que querem mostrar que os radicais são menos de 1% na comunidade."

Vanheukelom defende que essa é a melhor maneira se afastá-los do extremismo.

"Um jovem de 17 anos sem diploma que vê todo mundo dizer que ele é ruim acaba assimilando essa ideia e não vê razão para se esforçar", acredita a educadora.


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