Semana On

Sábado 25.jan.2020

Ano VIII - Nº 377

Entrevista

Entrevista – Mario Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande

Mario Cesar responde as críticas dos apoiadores do prefeito cassado, Alcides Bernal, e fala do futuro de Campo Grande.

Postado em 21 de Março de 2014 - Victor Barone

Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande Foto: Erônemo Barros
Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande. Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande. Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande. Mário Cesar, presidente da Câmara Municipal de Campo Grande.

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

À frente do processo que culminou na cassação do mandato do ex-prefeito Alcides Bernal, o presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, vereador Mario Cesar, foi alvo de muita pressão durante o embate político que paralisou a cidade nos últimos meses. Nesta entrevista exclusiva ele responde as críticas dos apoiadores do ex-prefeito e fala do futuro da cidade.

 

Por Victor Barone

Quando o senhor assumiu a presidência da Câmara Municipal de Campo Grande imaginava que passaria por uma situação tão complicada na relação com o Executivo Municipal?

De maneira alguma. Sabia que não iríamos ter uma relação fácil, pois eu já o conhecia (ao ex-prefeito Alcides Bernal, cassado no último dia 12), ele foi vereador junto comigo. Mas, pensava que, do ponto de vista institucional, poderia haver diálogo e harmonia. Tentei isso desde o primeiro dia. Assumi a presidência da Casa no dia 1º de janeiro de 2013 e no dia 2 de janeiro fiz uma ligação informal para o prefeito, não obtive êxito. Fiz, então, uma ligação institucional, da Câmara para a Prefeitura, não obtive êxito. Finalmente, formalizei o contato para uma visita oficial, também não obtive êxito. Senti que as coisas não iriam caminhar da forma que eu imaginava. Dali para frente ele demonstrou que não queria uma relação, sempre foi hostil. No dia 18 de janeiro tínhamos o despejo da Câmara de Vereadores. Os discursos dele neste período era no sentido de que os vereadores tinham mesmo que ser despejados, que tinha que jogar a Câmara na rodoviária, no lixão. Achei que fosse algo pessoal. No entanto, com o desenrolar dos meses, vimos que ele não se recusava a dialogar apenas com a Câmara, mas também rejeitava o contato com a Assembleia, com o Tribunal de Contas, com a bancada federal. Chegou ao ponto de rejeitar algumas emendas de deputados federais para Campo Grande.

Depois de toda a situação que culminou na cassação do ex-prefeito Alcides Bernal ainda há quem argumente que o que houve foi um golpe. Como o senhor responde a esta afirmação?

Não houve golpe. Não se pode falar disso. Quem recebeu golpe foi a sociedade. Detectamos irregularidades desde o início. Foi uma ação suprapartidária, inclusive com partidos que estiveram na base dele no segundo turno. E é o partido dele que continua no comando. É o PP que está no comando de Campo Grande, é o 11 que ganhou as eleições. Como posso tratar de golpe politico se o vice é do mesmo partido? Um vice que ele escolheu e depois alijou. Não houve golpe politico, houve uma reação a uma pessoa que não correspondeu às expectativas politico-administrativas. Erro na LDO, erro na lei orçamentária, erro no PPA, erro nos remanejamentos, licitações conturbadas, contratos emergenciais errados, falta de merenda e de kit escolar, sempre culpando a gestão anterior. Depois de um ano de mandato ele havia feito apenas uma obra, um recapeamento na Avenida das Bandeiras. Em 2014, depois de um ano de gestão, continuou cometendo os mesmos erros. Não tinha kit, material ou merenda escolar. Não teve capacidade administrativa, não teve a humildade para chamar as pessoas que tinham potencial para agregar valor. Ou seja, o que nos fizemos foi cumprir nosso papel de legisladores.

Não houve golpe. Não se pode falar disso. Quem recebeu um golpe foi a sociedade campo-grandense diante da falta de gestão de Bernal.

Há quem diga que esta incapacidade de gestão ocorreu porque a Câmara Municipal teria dificultado o trabalho do prefeito. Como o senhor responde a isso?

Dificultar o trabalho do prefeito em que? Não teve um projeto do prefeito que não tenha sido aprovado. Ele sempre se ateve aos 5% de suplementação não conferida a ele como um engessamento. Para traduzir em números: o orçamento aprovado de 2012 para 2013 foi de R$ 2.798 bilhões. Com os 5% que lhe foi conferido desde o inicio este orçamento subiu para R$ 3.020 bilhões. Ele inicia janeiro dizendo que está engessado. Ele não gastou 1 centavo dos R$ 3 bilhões para poder dizer que estava engessado. Então, não tem nenhum argumento para isso. Vou além. Durante todo o ano nós aprovamos para ele mais R$ 320 milhões, alçando seu orçamento para R$ 3.400 bilhões com os quais ele poderia ter feito o que quisesse do ponto de vista de gestão pública. Ainda assim, faltou remédio, não fez nenhuma obra, paralisou as obras que estavam em andamento, os projetos de trânsito todos parados, falta de merenda escolar e kit escolar. Então, qual foi o engessamento que a Câmara fez do ponto de vista financeiro? Nenhum. O que aconteceu em Campo Grande é culpa única e exclusiva do ex-prefeito. Tanto é verdade que no dia da cassação, em seu discurso, ele dizia: “Eu, para pagar, pensava 10, 15, 20 vezes”. Por isso Campo Grande estava parada.

Outra critica se refere ao fato de o prefeito Gilmar Olarte ter incorporada ao seu governo vereadores que participaram ativamente do processo de cassação.

Ele está agregando pessoas que tem capacidade técnica. Temos que ter respostas imediatas à sociedade. Olarte entrou prefeito num dia e no outro dia tinha que por a cidade para funcionar. Para isso se serviu de pessoas que tem expertise e conhecimento, independente da coloração partidária, para tocar a administração. E pensou grande. Manteve o PT, que deu três votos contra a cassação, por ter um secretário técnico oriundo deste partido. Agregou todos os partidos que compõe a Câmara em um projeto de governo.

O que Campo Grande perdeu nestes últimos 12 meses?

Perdeu do ponto de vista de investimentos e crescimento. Não tivemos uma geração de emprego. Não tivemos uma casa construída. Os CEINFs que estavam prontos, da gestão anterior, ficaram sem ocupação, sem móvel, sem equipamento. Com tanta demanda de vagas que temos... Um descrédito do ponto de vista empresarial, pois a Prefeitura tinha dinheiro e não pagava seus credores. Por isso criamos a CPI da inadimplência, apelidada corretamente de CPI do calote. Inadimplência é quando eu não tenho dinheiro e não consigo pagar. Calote é quando há dinheiro e não se paga por opção. Foi o que ocorreu.  São duas coisas totalmente diferentes. Empresas que poderiam ter se instalado aqui desacreditaram do município. As que aqui já estavam ficaram tímidas do ponto de vista de investimento. A arrecadação caiu. O funcionalismo, totalmente desmotivado pela desorganização nas secretarias. Não havia uma sequer com todos os seus cargos preenchidos. Ou seja: uma engrenagem que vinha funcionando muito bem nos últimos anos, mesmo com todos os problemas inerentes a uma administração pública, parou de funcionar.

Ele inicia janeiro dizendo que está engessado. Ele não gastou 1 centavo dois R$ 3 bilhões para poder dizer que estava engessado.

Retomar os trilhos será um desafio...

É preciso organizar para poder avançar. Como Campo Grande é uma capital pujante, com uma população ordeira, que contribui com seus impostos, temos tudo para retomar o tempo perdido. Temos uma das mais altas taxas de adimplência do país, que chega a 82%.

O que mudou de imediato na relação entre Câmara Municipal e a Prefeitura com a entrada do prefeito Gilmar Olarte?

Primeiro retomou-se o respeito às instituições. É preciso respeitar todas as instituições. O prefeito chamou todos os partidos e segmentos para dialogar, retomou o contato com os demais poderes, com as entidades empresariais. É preciso entender que a demanda dos vereadores não é dos vereadores, mas sim de quem os elegeu. As emendas parlamentares dos vereadores não são dos vereadores, mas de alguma fatia da sociedade. Enfim, mudou a cara de Campo Grande. O clima mudou. A esperança voltou a reinar. E tudo isso de forma suprapartidária. O PP continua governando Campo Grande.

Qual a situação do prédio da Câmara?

O prefeito que saiu, no último dia de mandato, editou um decreto para desapropriar o prédio da Câmara de Vereadores, que estava em vias de despejo. Uma tese que já vínhamos defendendo desde o início. Peguei esta bronca, fui atrás, devolvi duodécimo, fiz planejamento, mas ele não queria fazer. Nas vésperas de ser cassado, editou este decreto para tentar sensibilizar os vereadores. Sorte nossa que aconteceu isso. Sorte do prefeito que aí está. Falta agora materializar os fatos, abrir o processos administrativo de desapropriação, fazer a avaliação do bem, depositar o dinheiro para os proprietários do imóvel e, então, discutir o passado, o passivo.

Estamos às vésperas de uma eleição, mas primeiro ele tem que tocar Campo Grande. Ele não pode, neste momento, se assenhorar de campanha para 2014.

O prefeito Gilmar Olarte assumiu com um discurso de conciliação. Será possível manter esta postura às vésperas de uma eleição estadual?

Estamos às vésperas de uma eleição, mas primeiro ele tem que tocar Campo Grande. Ele não pode, neste momento, se assenhorar de campanha para 2014, não está passando isso por ele agora. O que passa por ele é retomar a administração da capital. A esperança que o campo-grandense deposita neste prefeito que aí está é enorme. Depois que colocar a cidade nos trilhos, lá para julho ou agosto, ele vai ter que separar o joio do trigo, talvez ele consiga olhar para 2014 do ponto de vista de eleição estadual. Neste momento ele tem que pensar em Campo Grande.

Como o senhor analisa o quadro político com esta mudança com vistas à eleição de 2014?

A Prefeitura está com uma composição heterogênea, montada para salvar a cidade, formada por grupos que talvez não estejam juntos nas eleições. Começará a surgir um novo desenho politico, novas composições partidárias, alianças serão sinalizadas e aí sim, em o prefeito de Campo Grande indo muito bem do ponto de vista do resgate do crescimento da cidade, possa haver uma entonação para um lado ou outro, pois Campo Grande é preponderante para uma eleição para governo do estado.

O senhor é candidato a deputado estadual?

Eu estou me preparando para isso, gostaria muito de ser deputado estadual, de dar minha contribuição ao estado. Vai depender das convenções, do nosso trabalho. Estou à disposição do meu partido. Gostaria muito de disputar esta eleição para deputado estadual.

Ouça a entrevista na íntegra.


Voltar


Comente sobre essa publicação...