Semana On

Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Especial

Ódio na rede

Brasil registrou 189,2 mil denúncias relacionadas a crimes e abusos na internet em 2014.

Postado em 02 de Março de 2016 - Redação Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

No ano passado duas importantes redes sociais lançaram iniciativas de combate à disseminação de conteúdos ofensivos, um leque que vai do racismo à humilhação pública, em clara admissão de que esse tipo de material atingiu um nível preocupante em suas plataformas.

O Tumblr deu início à campanha “Post It Forward” (publique isso para o próximo, em inglês) que incentiva o compartilhamento de boas experiências com quem “está vivendo um momento difícil”, uma óbvia alusão a vítimas de agressões virtuais.

Enquanto isso, o Reddit, que chegou a hospedar conversas com trocas de links de fotos íntimas de celebridades em 2014, se posicionou contra abuso ou assédio na rede e mudou sua política de uso para banir casos do gênero.

O Twitter também mudou sua política para garantir que mensagens de ódio sejam prontamente reportadas e seus usuários banidos. Além disso, passou a testar um mecanismo que identifica conteúdo abusivo e automaticamente diminui seu alcance.

O fechamento do Secret – em 2015 - soou como sinal de derrota diante do mau uso da rede. Utilizado para mensagens anônimas, a plataforma foi acusada de se transformar num repositório de maledicência e assédio moral, que “não representa a visão que eu tinha quando comecei a empresa”, conforme disse o criador do app, David Byttow, na mensagem em que comunicou seu encerramento.

Para a pesquisadora especializada em questões de gênero, raça e direitos humanos do Internetlab, Natália Neris, as ações das empresas vêm como resultado de uma maior divulgação de casos e mobilização de grupos da sociedade civil preocupados com violação de direitos nas redes. Para ela, suas respostas “não têm sido consideradas completamente satisfatórias”.

Só no Brasil, foram registradas 189,2 mil denúncias relacionadas a crimes e abusos na internet em 2014, segundo os últimos números da Safernet, organização de defesa de direitos humanos na rede e que gerencia, em parceria com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos.

Um dos comportamentos humanos mais comuns também é um dos mais assustadores: nossa tendência a punir e ofender outras pessoas. Qualquer um que passe meia hora no Facebook ou no Twitter pode comprovar isso.

Impotentes e frustrados

Impotência, frustração e uma necessidade de se impor sobre outras pessoas. Assim, a psicóloga americana Pamela Rutledge, diretora do Media Psychology Research Center (Centro de Pesquisas sobre Psicologia e Mídia), na Califórnia, avalia a agressividade de muitos "comentaristas" de redes sociais em tempos de polarização política no Brasil.

Referência em um ramo recente da psicologia dedicado a estudar as relações entre a mente e a tecnologia, Rutledge ressalta que as pessoas "são as mesmas", tanto em ambientes físicos quanto virtuais. Mas faz uma ressalva sobre a impulsividade de quem dedica seu tempo a ofender ou ameaçar pessoas nas caixas de comentários de sites de notícias e páginas de política. "Já estamos acostumados com a ideia de que nosso comportamento obedece a regras sociais, mas ainda não percebemos que o mesmo vale na internet".

Para a pesquisadora, os procedimentos de segurança do Facebook e do Twitter não são suficientes para proteger os alvos de bullying. “Seria ingênuo esperar que qualquer companhia, mesmo do tamanho do Facebook e do Twitter, seja capaz de monitorar e ajudar neste tipo de situação. E não dá para deixar só para as empresas aquilo que devemos ser responsáveis, nós mesmos. É importante que as pessoas entendam como funcionam as ferramentas e seus mecanismos para privacidade. Se a conclusão for que o Facebook não oferece o suficiente, que as pessoas se posicionem e reclamem: Não é suficiente''.

Além da polarização política ou ideológica, a especialista comenta a ascensão de temas como diversidade sexual, racismo e machismo ao debate público, graças às redes sociais. " É sempre positivo que as pessoas debatam e desenvolvam seu conhecimento sobre temas. Mesmo que a conversa termine de forma negativa, isso ainda vale para que se perceba o que está acontecendo a seu redor. Afinal, tudo isso já acontecia, mas não tínhamos conhecimento – e isso significa que estamos nos aproximando da possibilidade de transformá-las.

Eu estou com a razão!

Alguns internautas abrem mão da argumentação (ou não têm capacidade para elaborá-la) e utilizam a ofensa para criticar o outro. Há também quem argumente mas, no meio da escrita, insira ofensas que em nada são úteis para sustentar seu ponto de vista.

Por que isso ocorre? Para Arnaldo Cheixas Dias, terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, esta pergunta pode ser feita em dois diferentes níveis de abrangência. “Pode ser feita duas vezes com duas respostas independentes: o porquê imediato, que tem a ver com o ambiente da internet, e o porquê mais profundo, que tem a ver com a pessoa que se comporta de maneira agressiva na rede”.

Segundo Dias, no primeiro nível, o mais imediato, a agressividade ocorre porque em discussões na rede a personificação dos interlocutores é menos concreta do que em interações nas quais as pessoas se encontram pessoalmente. No ambiente virtual você pode escrever algo ofensivo que sequer será lido pelo alvo da grosseria ou, mesmo se lido, não produzirá um encontro face a face. Ainda que a atitude seja repreendida por outros, provavelmente não haverá maiores consequências.

“É um processo parecido com o que ocorre no trânsito. O carro oculta a troca social e, portanto, dificulta o estabelecimento da empatia. É lata contra lata. Escondidos dentro das armaduras motorizadas, os motoristas estão aptos a exercer seu papel de gladiadores. Ao mínimo deslize do outro, toda a raiva emerge. Já vi casos de brigas corporais no trânsito nas quais, após o apaziguamento, os envolvidos ficaram constrangidos ao perceber o quão estúpidos e descontrolados foram na situação”, afirma.

A raiva saiu do controle e a pessoa parou de pensar. Agiu por impulso. E esse momento de constrangimento posterior ocorre justamente porque há uma interação social concreta. Há olhares de reprovação e perplexidade, há alguém ferido… É o momento em que a pessoa volta a si. Pois bem, esse constrangimento é mais raro na internet. Se no trânsito o anonimato promotor da agressividade é interrompido quando os motoristas saem de seus carros, na internet isso é menos provável, uma vez que o outro é alguém distante, que pode estar em qualquer lugar do planeta. Praticamente uma abstração.

Compreender que o ambiente virtual dificulta o estabelecimento de empatia não é suficiente para entender o fenômeno completamente. “Isso porque nem todas as pessoas são agressivas e rudes ao escrever comentários na internet. Então a pergunta de por que razão isso acontece se desloca para um nível diferente e se transforma em outra pergunta. Por que alguns indivíduos são agressivos ao se manifestar na internet e outros não?”, questiona o terapeuta.

O indivíduo em situação de angústia

Um crivo essencial para entender o comportamento dos outros e o seu próprio em qualquer situação vem da biologia, que nos ensinou que a agressividade jamais é manifestada por um indivíduo que está bem adaptado ao ambiente e com todas as suas necessidades supridas. A agressividade é fruto da raiva e ocorre como uma reação natural de defesa do indivíduo a algum tipo de desconforto ou ameaça. Na natureza, a agressividade pode ser desencadeada por um predador ou por algum tipo de privação (de sono ou de alimento, por exemplo).

Na vida em sociedade, as situações de ameaça e privação não se limitam às condições mais primárias mas também abrangem situações complexas e subjetivas de sofrimento. E, pior, nesses casos a expressão da raiva nem sempre ocorre de maneira natural. As pessoas são muitas vezes obrigadas a conter sua raiva na situação que a gerou. Às vezes, têm de engolir uma postura grosseira de um chefe ou saber se conter diante de uma injustiça.

O problema com este tipo de situação é que em algum momento aquela raiva rompe em agressividade em outras situações que não aquela que gerou o problema. E quando o stress causado pela privação e pela ameaça é constante e gera uma condição crônica de raiva, o indivíduo passa a mostrar-se agressivo em vários contextos: na família, no trânsito ou… na internet, ambiente onde a expressão da raiva não trará maiores consequências. Então não é qualquer pessoa que se expressa de forma agressiva na internet, só aquelas que não estão bem.

Assim, as causas para a agressividade grosseira na internet podem ser baixa autoestima, dificuldade em lidar com frustrações, ser alvo de violência no passado e/ou no presente. O problema de descarregar na internet é que, embora você possa sentir um alívio momentâneo para sua angústia ao ofender alguém, logo a raiva volta.

Agressividade na internet (e em qualquer contexto) é sinal de que algo não vai bem. Verdade que em algumas situações a expressão da raiva é essencial (portanto, compreensível) diante de uma situação opressora mas, na maioria das vezes, a emergência da agressividade só mostra para a pessoa que algo não vai bem e que algo deve ser feito a respeito.

O que fazer?

Depende de que lado você está. Se você é a pessoa que tem sido agressiva e grosseira na internet, é hora de olhar para o que não está bem na sua vida. E não adianta dizer que este é o seu jeito porque não existe agressividade sem que haja uma situação de ameaça ou privação, ainda que de natureza subjetiva. Se ser agressivo e grosseiro é mesmo o seu jeito, você tem um transtorno de personalidade. Agora, se a causa de sua grosseria na rede é porque há uma situação efetiva de opressão ou angústia, você precisa direcionar sua agressividade para a efetiva resolução do problema. Se não for possível, significa que você precisa de ajuda.

Agora, se você é o alvo da agressão e ofensas dos outros, não faça nada. Já faz algum tempo que observo o comportamento agressivo de leitores na internet. Em outras páginas, eu sempre evitei participar de discussões improdutivas mas confesso que aqui às vezes é irresistível responder a alguns leitores. De um modo geral, os comentários sobre os textos que escrevo são construtivos. Aprendo e procuro mudar minha escrita a partir de algumas críticas que leio aqui e também com os elogios. Mas algumas vezes aparecem alguns comentários ofensivos.

Para Dias, o melhor mesmo é não responder aos comentários agressivos. “A resposta acaba reforçando o padrão agressivo do outro por ter encontrado acolhida para sua raiva ao ver seu comentário respondido e isso deixa a pessoa mais longe de procurar ajuda para seu sofrimento”, afirma.

Prazer em punir

Segundo a psicóloga Nichola Raihani, o ser humano é a única espécie que sente prazer em punir seus iguais. “É como se nosso cérebro já fosse condicionado a deleitar a punição de outra pessoa”, explica ela, que realiza estudos sobre cooperação humana na University College London.

Ainda segundo a psicóloga, este sistema fortalecido pela internet é perigoso, já que quem ofende hoje pode ser ofendido amanhã. Apesar de ter se intensificado na era da internet, o comportamento não é novidade. Nichola cita um exemplo: o sistema de julgamento de supostos criminosos, em que pessoas que também são suscetíveis a deslizes julgam outras por terem cometido seus próprios erros. Ela também atesta que é muito mais fácil a opinião pública se manifestar a favor da condenação do suspeito, mesmo sem provas de que tenha cometido um crime.

Em 2014, a New York University fez um experimento para testar o comportamento punitivo do ser humano. Num jogo envolvendo diversas pessoas, moedas de um dólar eram distribuídas a cada rodada e os jogadores tinham a opção de ficar com o valor para si ou de repartir com os companheiros. No fim de cada rodada, apenas um jogador – o “justiceiro” - era selecionado e podia tirar moedas de dois outros jogadores e toma-las para si ou reparti-las entre os outros.

No fim do jogo, os cientistas chegaram a uma conclusão sobre o comportamento geral dos jogadores: quando se sentia injustiçado na rodada, o justiceiro tendia a tomar moedas dos mais ricos para si, numa espécie de vendeta particular. Quando ninguém não se sentia lesado, apenas distribuía as moedas dos mais ricos para os mais pobres.

A chefe dessa pesquisa, Oriel FeldmanHall, disse que o estudo não permite uma conclusão definitiva, mas que uma possível explicação é que quando o crime acontece a outras pessoas, as coisas são mais abstratas para nós. Quando somos diretamente impactados pelo acontecimento, ele automaticamente se torna um crime.

Mas esta teoria não é a única. “A ideia básica é que as pessoas estão punindo de maneira egoísta para convencer os outros de que são confiáveis”, explica a psicóloga Jillian Jordan, da Yale University.

Jillian ainda diz que os julgamentos são mais comuns na internet porque as pessoas se sentem protegidos por seus perfis. “No Twitter, elas dizem coisas que não verbalizam na vida real com medo de também sofrerem as punições que estão aplicando. Então, a internet apenas amplifica as coisas, o que leva a uma reação muitas vezes desmedida, porque todo mundo deseja demonstrar seu ponto de vista e dizer que o suspeito é culpado”.

Como denunciar ofensas e abusos ocorridos na internet

Casos de páginas repletas de mensagens de ódio e incitações a violência, ofensas racistas, contra mulheres ou minorias vêm aumentando e preocupando empresas e governos, que respondem mudando políticas de uso e criando ferramentas para denúncia, no primeiro caso, ou alterando leis e bancando campanhas educativas.

Do lado do usuário que sofre ou presencia uma violação do gênero, a atitude mais eficiente e necessária é a denúncia. O psicólogo e diretor da área de atuação e educação da Safernet, Rodrigo Nejm, explica passo a passo como proceder nestes casos.

1) DENUNCIE: Registre o endereço completo da página, copie o endereço de alguma forma e faça a denúncia no site da Safernet (pode ser através do denuncie.org.br ou direto pelo new.safernet.org.br/denuncie). Com os campos do formulário preenchido, o sistema faz um registro do conteúdo daquele site. É isso que vai dar materialidade à denúncia.

+ DICA: É importante gravar o nome do usuário do ofensor (e seu nome real, se houver), seu número do celular (se houver) ou algum dado que permita associar o objeto da denúncia à pessoa.

2) AVISE A REDE: Concluído os processos anteriores, caso o crime tenha sido cometido dentro de uma rede social, reporte o conteúdo como abusivo a partir dos recursos da própria rede. Mas é importante cumprir as etapas anteriores, pois nem sempre o site reage à denúncia ou comunica as autoridades brasileiras.

+ DICA: O ofendido pode usar os canais Disque 100 e da ouvidoria online do programa Humaniza Redes, da Secretária de Direitos Humanos.

3) FAÇA UM B.O.: Com o protocolo da denúncia em mãos (obtido após a primeira etapa), é possível então registrar um boletim de ocorrência. É recomendável também lavrar uma ata notarial no cartório. Para isso leve o endereço da página (URL) que exibe o conteúdo ilegal a um cartório. Lá, o funcionário irá abrir a página, imprimir o material e relatar o que há nela. Isso é mais uma evidência.

+ DICA: É importante garantir o maior número de evidências o mais rápido possível, pois, caso você seja humilhado através, por exemplo, de um post que ficou só uma hora online no Facebook (tempo suficiente para gerar um dano gigantesco), essa evidência se perderá.


Voltar


Comente sobre essa publicação...