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Quarta-Feira 02.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Nuestra Culpa

Argumentar é não ter que pedir perdão?

Postado em 25 de Fevereiro de 2016 - Rodrigo Amém

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Fernanda Torres publicou um texto na folha de São Paulo num espaço destinado a discutir a relação mulher e sociedade. Fernanda é boa de pena. Escreveu um artigo muito pessoal, sobre como sua visão da condição feminina é – digamos – moderada em relação às demandas do feminismo moderno. Se, por um lado, ela concorda que "a mulher ainda apanha, ganha menos que o homem e fechou um contrato social impossível de ser cumprido", ela ainda mantém um certo fetiche pelos "machões gloriosos" e acha que receber assovios ao passar por uma construção é "um estado de graça a ser preservado" (sempre me intrigou a eficácia do fiu-fiu. Achava que ninguém na história da humanidade conquistaria mulher fazendo um barulho de atrair cotovias. Aparentemente, dá certo no Leblon. Vivendo e aprendendo).

Enfim, Fernanda foi sincera e aberta a respeito de si e de sua maneira de ver o mundo. E então ela começa seu último parágrafo afirmando que "a vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo". Que, em termos de argumentação é parecido com dizer "Chuva? Aqui dentro do meu tríplex, não senhor! Besteira isso de chuva". Pessoas denunciaram esse generalismo em variados graus de intensidade. Houve, é claro, aqueles que defenderam a liberdade de expressão da atriz e, claro, disseram que feminismo é mimimi mesmo e, na casa deles, ninguém acha ruim ser gostosa.

Diante da polêmica, o que fez Fernanda Torres? Mandou beijinho para as recalcadas? Disse para falar mais alto, que não dá para ouvir do seu camarote VIP? Afirmou que feminismo é coisa de mulher mal-comida e ela passava bem, graças a deus? Não, gente. Ela fez algo surpreendente, ousado e raro: ela pediu desculpas.

Vivemos uma era em que repensar suas opiniões e pedir desculpas é interpretado como fraqueza de caráter. Como se a expressão livre não fosse passível de erro.

Torres escreveu um novo texto chamado Mea Culpa reafirmando que, no seu artigo anterior, exibia sua perspectiva sobre o assunto. Uma perspectiva que não necessariamente era representativa de todo o universo feminino. Que dispensar as demandas do feminismo contemporâneo como "vitimismo" era injusto. "Entendi que existe uma discussão maior, que vai da cidadania ao direito ao próprio corpo, e, acima de tudo, uma luta pela erradicação da violência contra a mulher num país já tão violento", escreveu. "Perdão por ter abordado o assunto a partir da minha experiência pessoal que, de certo, é de exceção", concluiu. Palmas. Muitas palmas.O que aconteceu a seguir é o que me traz a essa conversa. A turma que havia apoiado o primeiro texto pirou. Agiram como se o padre tivesse batido a cabeça do bebê na pia batismal. Trataram Fernanda Torres como uma vacilona, que tinha arregado diante da pressão das "feminazi" (em tempo: este termo não apenas é ofensivo. Também é intelectualmente desonesto. Não existe um movimento tentando subjugar os homens às mulheres. Juro. Você está combatendo um espantalho. Pode parar que tá feio).

Vivemos uma era em que repensar suas opiniões e pedir desculpas é interpretado como fraqueza de caráter. Como se a expressão livre não fosse passível de erro. Eu tenho liberdade de ir e vir, também constitucional. Mas se, no meu trajeto entre um ponto e outro eu esbarrar em alguém, eu vou pedir desculpas. Mamãe me ensinou. Por alguma razão bizarra, a mesma regra de convivência não se aplica ao discurso. Se sua opinião atropelar a individualidade de alguém, azar é do atropelado. A gente dialoga como os Batistas dirigem: pilotando argumentos espalhafatos em alta velocidade. E que se danem os ciclistas desatentos. Não dá.

A capacidade de se colocar na posição do outro e avaliar o impacto das nossas palavras é fundamental para o desenvolvimento de qualquer forma mínima de diálogo numa sociedade democrática. Ninguém é menos íntegro e inteligente por reconhecer o próprio erro. Pelo contrário. E perdoar, então, é coisa de gente evoluída. Perdoar e ser perdoado, compreender e ser compreendido: coisas tão fundamentais para a experiência humana que alguém devia escrever um livro a respeito.


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