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Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

A verdade está lá embaixo

Os corruptos olímpicos e nossas fracassadas teorias da conspiração.

Postado em 29 de Janeiro de 2016 - Rodrigo Amém

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Já ouviu aquela teoria de que os políticos deliberadamente desestruturam a educação brasileira para garantir que o povo permaneça ignorante? Quem me dera.

No momento em que nós, fãs nerds, celebramos a volta da série Arquivo X, eu queria acreditar no governo paralelo. Meu sonho era uma classe política mancomunada em torno de uma sordidez comum: comunas petralhas infiltrados nos bastidores de Brasília com um projeto de poder perpétuo, por exemplo. É isso o que eu tenho em comum com os alunos do Olavo: nós dividimos fantasias paranoicas sobre um antagonista articulado, ambicioso e organizado para manipular gerações.

Infelizmente, assim como não existem super heróis, também carecemos de super vilões. Em seus lugares, a realidade nos oferece sobreviventes e ladrões de galinha. E lambamos nossos beiços. Nosso sistema de ensino foi sucateado não por um plano de dominação, mas por desvio de verba. A parte da grana que não parou no bolso de um ladrãozinho foi realocada em projetos de curto prazo. Sem paranoias ou conspirações.

A questão é que o político, assim como o atleta olímpico, pensa em ciclos de quatro anos. A licitação para a empreiteira que financiou a candidatura tem que sair nos primeiros meses de mandato. A obra superfaturada tem que estar fotografável antes do próximo ciclo eleitoral. Nesse círculo vicioso, construir estádios (e até escolas) é bom negócio. Pagar e treinar professores, não. Aprimoramento profissional não impressiona no horário eleitoral gratuito. Não adianta fotografar o professor com lente grande angular.

O Brasil não precisa de um cavaleiro salvador. A gente precisa do telefone de um bom dedetizador.

Por esse mesmo motivo, se uma obra qualquer leva mais de quatro anos para ser concluída, corre-se o risco de não ser reconhecido como seu idealizador. É assim que os projetos de modernização do transporte como metrôs, ferrovias e trens-bala fracassam. É esse modelo de negócio que criou o custo-brasil para o escoamento da nossa produção.

Quando um político brasileiro desvia verba, ele não está pensando nas mentes que manipulará pelas próximas décadas. Ele está pensando em 10% de comissão. Em pagar a produtora de vídeo. Em ficar bem com a empreiteira. Quando um político some com meia tonelada de cocaína, ele não está planejando financiar um exército para escravizar uma nação. Ele está pensando em saldar dívidas de campanha e, quem sabe, trocar de iate. Não há um plano megalomaníaco de dominação por trás da corrupção brasileira. Corrupto brasileiro não rouba para construir um império. Rouba para construir um tríplex. E em Guarujá.

Essa falta de propósito é que é desesperadora. Uma conspiração pode ser desmascarada. Ter seus planos desbaratados. Pode-se lutar contra uma organização malévola e ambiciosa. Mas o que fazer contra uma multidão de ladrões mesquinhos? O Brasil não precisa de um cavaleiro salvador. A gente precisa do telefone de um bom dedetizador.  


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