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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Artigo da semana

A guerra do trânsito e o impacto na economia

Em 40 anos, cresceram 15 vezes o número de feridos e seis vezes o total de mortes no trânsito.

Postado em 21 de Janeiro de 2016 - Claudio Contador

Após a implantação da Lei Seca foram registrados resultados expressivos, como a queda de 22,5% no número de mortos nas capitais dos Estados em 2008. Após a implantação da Lei Seca foram registrados resultados expressivos, como a queda de 22,5% no número de mortos nas capitais dos Estados em 2008.

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O Brasil está nas primeiras colocações de dois rankings bastante preocupantes. É o quarto país em registros de mortes no trânsito, superado apenas por China, Índia e Nigéria. Também ocupa a quinta posição na lista das nações com índice mais elevado na relação entre o número de acidentes e o de habitantes, atrás somente da Venezuela, Nigéria, África do Sul e Angola.

Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, em apenas um ano, o total de vítimas fatais do trânsito no Brasil supera o de soldados americanos mortos em 16 anos da Guerra do Vietnã. E esses números estão aumentando. Segundo o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), nos últimos 40 anos, cresceram 15 vezes o número de feridos e seis vezes o total de mortes no trânsito. No mesmo período, a população brasileira sequer dobrou de tamanho.

Em 2014, estatísticas de indenizações do Seguro DPVAT apontaram um total de 763 mil acidentados, sendo 52 mil mortos, 596 mil com alguma forma de invalidez e 115 mil feridos e recuperados sem lesão. Os números chocam pela gravidade. Os casos de invalidez, por exemplo, aumentaram 34%.

Esse cenário também afeta a nossa economia. Além dos custos com hospitalização e socorros, levantamento do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES), da Escola Nacional de Seguros, confirma que o país perdeu também a produção e a renda que essas pessoas deixaram de gerar.

O valor do produto perdido em 2014 atingiu R$ 220 bilhões, sendo R$ 102 bilhões de vítimas fatais e o restante de acidentados inválidos graves.

O valor do produto perdido em 2014 atingiu R$ 220 bilhões, sendo R$ 102 bilhões de vítimas fatais e o restante de acidentados inválidos graves. O custo do produto perdido atingiu 4 % do PIB. Com estes recursos seria possível construir 6,8 mil hospitais ou manter 73 milhões de estudantes do ensino médio e fundamental por ano.

Está comprovado que investir na prevenção e aprovar regras mais severas traz excelentes resultados. Após a implantação da Lei Seca foram registrados resultados expressivos, como a queda de 22,5% no número de mortos nas capitais dos Estados em 2008. Ao evitar acidentes graves, a lei trouxe uma economia de R$ 37 bilhões para o País, que corresponde ao que a nossa economia deixou de perder de renda e de produção ao evitar a morte e invalidez de pessoas produtivas.

Mas este drama não é exclusivo do Brasil. A OMS estima que 1,3 milhões de pessoas morrem anualmente no mundo. O número de acidentados se aproxima de 50 milhões. Países emergentes concentram a maior parcela de vítimas. A faixa mais jovem e ativa da população é atingida com maior intensidade.

Assim, capital humano escasso tem sido destruído por acidentes de trânsito. As consequências econômicas e na qualidade de vida da sociedade perduram por mais de uma geração.

A perda da produção e da renda dos inválidos e mortos no trânsito provoca efeitos diretos e duráveis para a sociedade. Por ser um tema com conotações políticas, religiosas e quase ideológicas, as pesquisas são esparsas e pouco difundidas.

Para reduzir os acidentes e suas consequências, existem soluções direcionadas à educação no trânsito, melhor sinalização e respeito aos pedestres e adoção de critérios mais exigentes para habilitação de motoristas, entre outros.

Com melhores práticas, alguns países obtiveram êxitos expressivos. Na Alemanha, o número de acidentados caiu 80% nos últimos 40 anos. Na China, as mortes diminuíram 43%.

No Brasil, algumas mudanças tiveram reflexo importante na redução dos acidentes e de acidentados. Porém, é preciso avançar mais rápido. Não é um problema insolúvel, mas é necessário reconhecê-lo e aplicar as medidas corretas.

Claudio Contador - economista e diretor do centro de pesquisa e economia do seguro da escola nacional de seguros


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