Semana On

Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Especial

Tecnologia do amor

Como a ciência está colaborando na busca pelo par perfeito?

Postado em 19 de Janeiro de 2016 - Redação Semana On

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Imagine se você pudesse responder um questionário para criar intimidade romântica, descobrir o tipo de hormônio predominante em seu cérebro e até fazer sexo virtual antes de entrar em um novo relacionamento. Num futuro não muito distante isso será possível.

Imagine se, em vez de se apaixonar perdidamente Romeu e fazer de tudo para viver esse amor (inclusive entrar em um plano furado que acabou em dois suicídios e um assassinato), Julieta tivesse escolhido com quem se casar a partir de um roteiro estabelecido. Primeiro passo: avaliar se o sujeito se encaixa na definição de parceiro ideal (ou seja, inimigo da família Capuleto nem pensar). Em seguida, um teste rápido para saber quais neurotransmissores dominam o cérebro do pretendente e, assim, verificar se suas atitudes combinam como casal. Por fim, uma das partes importantes de um relacionamento: será que os dois têm uma boa química na cama? Nada que uma experiência virtual não resolva. O(a) candidato(a) que não foi eliminado(a) até agora deve passar, então, por um questionário que supostamente provoca a paixão entre os envolvidos. Fim do dilema — e, claro, do ideal ocidental de amor romântico.

Mas a verdade é que, se quisesse, a Julieta de 2016 poderia se apaixonar, transar e se relacionar seguindo uma estratégia pouco falível, uma cortesia da dupla ciência e tecnologia.

No início do ano passado, um questionário com 36 perguntas e quatro minutos ininterruptos de contato visual ficou conhecido por causa de um artigo da escritora Mandy Len Catron, publicado no jornal norte-americano The New York Times. No texto, ela conta a história de como se apaixonou pelo marido com a ajuda de um método usado para criar intimidade romântica em laboratório, experimento criado há mais de 20 anos pelo professor de psicologia social Arthur Aron, da Universidade de Stony Brooks, nos Estados Unidos.

Em nove dias, o texto foi lido por mais de 5 milhões de pessoas e compartilhado 270 mil vezes no Facebook (inclusive por Mark Zuckerberg). “Criamos esse questionário a fim de ter um método para ser usado em laboratório e estudar os efeitos da intimidade na vida social de uma pessoa. Esse método já foi utilizado em centenas de estudos”, disse Aron.

Quando foi criado, o estudo tinha regras bem rígidas: um homem e uma mulher heterossexuais entram em um laboratório por portas separadas. Eles se sentam frente a frente e respondem às perguntas, que têm um teor cada vez mais pessoal (leia as perguntas). Essa fase leva cerca de 45 minutos, e em seguida é preciso encarar o outro nos olhos durante quatro minutos, sem desviar o foco. Na experiência conduzida pelo professor Aron, dois participantes do teste se casaram depois de seis meses e chamaram os funcionários do laboratório para a cerimônia.

Na vida real, a coisa funciona um pouco diferente. A começar pela duração da fase das perguntas, realizada num restaurante em São Paulo e que levou horas para ser concluída, e também pelo resultado um tantinho diverso: não necessariamente paixão, mas certamente uma intimidade romântica. “Não estamos tentando criar relacionamentos que vão durar, mas ao final desses 45 minutos o indivíduo vê o parceiro como uma das pessoas com quem tem mais intimidade na vida. É um procedimento bem poderoso”, afirma Aron.

Passo a passo para alcançar o amor

Antes de sair por aí com o questionário embaixo do braço e procurar repetir o teste com a primeira pessoa que encontrar na balada, o ideal é tentar achar seu par ideal. Existem algumas condições que podem tornar tudo mais fácil, como ter o mesmo contexto social e econômico, compartilhar interesses em comum, e o timing. Você pode achar o(a) parceiro(a) ideal e se apaixonar por ele(a), mas de nada vai adiantar se essa pessoa não estiver pronta para se relacionar, por exemplo.

Helen Fisher, doutora em antropologia biológica, professora da Universidade de Rutgers e especialista em cérebros apaixonados, acrescenta mais um componente importante nessa busca pela fórmula da paixão: os neurotransmissores. Segundo Helen, é possível classificar biologicamente as pessoas em quatro grupos relacionados a hormônios: exploradores (dopamina), construtores (serotonina), diretores (testosterona) e negociadores (estrógeno).

“Todos nós temos esses hormônios agindo em nosso sistema cerebral; a diferença é a quantidade deles no cérebro. Biologicamente, as pessoas tendem a se interessar por pessoas como elas”, disse Helen. Ou seja, se você é um explorador, melhor procurar outro explorador; se é construtor, seu par ideal é um construtor. A única diferença aqui é se você for um negociador, que se dá melhor com um diretor, e vice-versa.

A ideia de que as pessoas se apaixonam aleatoriamente, entregam-se e permanecem devotas uma à outra é questionada no livro Eu te amo: o amor não existe mais?, do filósofo francês Yann Dall’Aglio. Para ele, a forma como entendemos o amor é obsoleta, exigindo segurança e intensidade ao mesmo tempo, semelhante à ideia do amor religioso. “Queremos que o amor em casal tenha a segurança e a intensidade do amor que flui em uma comunidade de valores religiosos compartilhados, mas isso é impossível. Então é óbvio que estamos terrivelmente decepcionados. Todo casal pós-moderno tem duas solidões”, disse Dall’Aglio.

Sexo

Talvez o tipo de relação que se transformou mais rapidamente tenha sido o sexual — afinal, pornografia e internet estão umbilicalmente ligadas. Já existe até um termo para quem usa a web para se satisfazer: os internetsexuais. Não é uma referência aos que se masturbam com pornografia on-line ou aos que fazem sexo via Skype, mas a pes­soas que usam redes como Chaturbate. Trata-se de uma rede social com uma série de canais nos quais homens e mulheres com diferentes orientações e fantasias se expõem em troca de tokens (a moeda local, que equivale a US$ 0,80).

Um passeio rápido na rede revela que, em meio à prostituição on-line, há também perfis de pessoas que estão mais interessadas em dar e receber atenção. Como uma mulher nua toda tatuada que passeia distraidamente pela casa com o laptop em mãos, pergunta em chat aberto aos seus observadores como eles estão, o que estão fazendo, e pede dicas de séries para assistir no Net­flix. Ou um homem — vestido — que deixa a câmera ligada enquanto faz outras coisas no computador e agradece a todos que elogiam sua aparência.

Relacionamentos líquidos

A profundidade dos relacionamentos pós-modernos, aliás, foi bastante discutida no livro Amor líquido, de Zigmunt Bauman, sociólogo polonês considerado um dos mais importantes pensadores vivos do declínio da civilização. Nele, Bauman teoriza sobre como a globalização e a tecnologia estão transformando os relacionamentos amorosos.

“Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, e muito menos com compromisso a longo prazo), as relações virtuais parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de ‘ser a mais satisfatória e a mais completa’. Diferentemente dos ‘relacionamentos reais’, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear”, diz Bauman no livro.

É uma crítica ao deslumbramento com um “cardápio” cheio de opções e com a facilidade de se desconectar das pessoas, o que muitas vezes leva a decisões equivocadas. Decisões que você pode evitar.

O Chaturbate é uma evolução de sites conhecidos, mas até meados do ano deve ser lançada uma rede social que promete dar aos internetsexuais tudo de que eles precisam. A FriXion, atualmente em fase de testes, oferecerá uma plataforma de sexo interativa que permite que humanos e robôs (sim, foi isso mesmo que você leu) ou humanos e humanos transem remotamente através de uma interface e com a ajuda de dispositivos de toque, incluindo os chamados cybervibradores, ou vibradores inteligentes. “Agora você está interagindo com outras pessoas através de som, texto, toque, e quero adicionar mais uma camada nessa história”, disse Seth (assim mesmo, sem sobrenome), criador da FriXion.

Nos vídeos disponíveis no site, é possível ver como esses vibradores e outros equipamentos são capazes de “sentir” os movimentos uns dos outros. Se você se mover em uma direção, o vibrador do seu parceiro vai fazer ele se mover na direção contrária através do que Seth chama de “telemetria”, tecnologia que permite a medição e a comunicação de informações de um operador de sistemas. “A FriXion é a junção de várias ideias e tecnologias disponíveis tornando possível o sexo a distância”, afirma ­Seth. “Em termos de relacionamentos amorosos, a internet já mudou muito a forma como as pessoas se conhecem e mantêm a relação. Mesmo morando na mesma cidade, as pessoas usam Snapchat, WhatsApp, Skype.”

Os números de institutos de pesquisa mostram que o criador da FriXion tem razão. Segundo a comScore, empresa norte-americana de análise de dados da internet, o Brasil é responsável por 10% do tempo consumido globalmente nas redes sociais, atrás apenas dos Estados Unidos. Os brasileiros gastam mais tempo por mês na internet do que todos os países da América Latina somados. É natural, portanto, que parte significativa de nossas interações amorosas ocorram por aí, bem como a forma como são iniciados os relacionamentos. Tomemos o caso do Tinder: o Brasil também é um gigante do aplicativo de namoro, com 10 milhões de usuários — ou 10% do total de usuários no mundo.

Descartáveis?

Laurie Davis, fundadora do eFlirt, uma consultoria norte-americana de encontros on-line, é uma defensora da internet como mediadora de relações. “Quando conhece alguém on-line, você tem muitas informações sobre a pessoa, mas não sabe se tem química, então marca um encontro para descobrir isso. Quando conhece ao vivo, sabe que tem química, mas não tem certeza se combinam, então marca um encontro para ter acesso a informações. De certa forma, o primeiro encontro em cada uma das circunstâncias é oposto, mas depois disso a relação evolui da mesma maneira”, disse Laurie.

Ela fala com a propriedade de quem vive da combinação internet e amor — tanto financeira quanto romanticamente. “Meu marido e eu nos conhecemos no Twitter, então sempre tivemos um elemento digital em nossa relação. Frequentemente as pessoas pensam que a tecnologia prejudica os relacionamentos, mas, se você a usar como ferramenta para fazer seu relacionamento crescer, torna-se uma experiência poderosa.”

Para a antropóloga Helen Fisher, a única mudança é a interface. “Sites de encontro são na verdade sites de introdução. Eles te apresentam a pessoas de quem você pode gostar. Então você conhece a pessoa, e quando isso acontece o antigo cérebro faz o que sempre fez: você flerta, sorri, dá risada, da mesma forma”, diz Helen. Sua única preocupação? Emojis, aquelas figurinhas que usamos para demonstrar se estamos felizes, tristes ou com algum outro tipo de sentimento nas redes sociais. “O cérebro humano não mudou em 200 mil anos. A tecnologia não vai mudar nosso cérebro, vai mudar o que fazemos ao longo do dia ou a forma como demonstramos emoções. O que acho preocupante é todos usarem emojis para expressar suas emoções, o que pode tornar mais difícil demonstrar o que estamos sentindo”.

São vários os pensadores que estudam como as pessoas se relacionam hoje, mas nem todos acham que está pior do que já foi. A psicanalista Regina Navarro Lins, por exemplo, vê na poligamia o futuro dos relacionamentos. “O amor é uma construção social que em cada época se apresenta de um jeito. Acredito que daqui a algumas décadas menos pessoas vão se fechar em uma relação a dois e mais gente vai querer ter relações múltiplas”, disse ela.

Já Helen Fisher diz que teremos uma “nova monogamia”, semelhante à existente na pré-história. “Estamos vendo o retorno de comportamentos cotidianos que tínhamos há 500 mil anos. As mulheres vão para o trabalho todos os dias, há um aumento da sexualidade feminina, bem como do acesso a educação e empregos, e também do índice de divórcios. Estamos voltando a padrões de igualdade entre os sexos, família de renda dupla, alto índice de divórcios e de novos casamentos, e menor natalidade. Isso é ótimo para mulheres e homens: elas ficam mais livres, e eles têm uma parceira educada, saudável e que não depende deles.”


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