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Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Saúde

Estudo questiona ligação entre gordura saturada e doenças cardiovasculares

Pesquisas contestam a visão amplamente aceita de que a gordura saturada é inerentemente nociva à saúde.

Postado em 19 de Março de 2014 - Redação Semana On

Uma nova e exaustiva análise feita por uma equipe de cientistas internacionais não encontrou evidências de que o consumo de gordura saturada aumente os ataques do coração e outros eventos cardíacos. Uma nova e exaustiva análise feita por uma equipe de cientistas internacionais não encontrou evidências de que o consumo de gordura saturada aumente os ataques do coração e outros eventos cardíacos.

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Muitos de nós ouvimos há anos que a gordura saturada, o tipo de gordura encontrada em carnes, manteiga e queijo, causa doenças cardíacas. Mas uma nova e exaustiva análise feita por uma equipe de cientistas internacionais não encontrou evidências de que o consumo de gordura saturada aumente os ataques do coração e outros eventos cardíacos.

As novas descobertas fazem parte de um conjunto crescente de pesquisas que contestam a visão amplamente aceita de que a gordura saturada é inerentemente nociva à saúde, levando adiante a discussão sobre os alimentos mais recomendados para o consumo.

Há décadas as autoridades de saúde incentivam o público a evitar ao máximo as gorduras saturadas, dizendo que devem ser substituídas pelas gorduras insaturadas presentes em alimentos como nozes, castanhas, peixes, sementes e óleos vegetais.

Há décadas as autoridades de saúde incentivam o público a evitar ao máximo as gorduras saturadas. Isso pode mudar.

Mas a nova pesquisa, publicada no periódico "Annal of Internal Medicine", não constatou que pessoas que consomem mais gordura saturada têm grau mais alto de doenças cardíacas que aquelas que consomem menos. Tampouco encontrou menos doença cardíaca entre pessoas que comem mais gorduras insaturadas, incluindo gorduras monoinsaturadas, como azeite de oliva, ou poli-insaturadas, como óleo de milho.

"Minha interpretação é que não é a gordura saturada que deve nos preocupar" em nossas dietas, disse Rajiv Chowdhury, autor principal do novo estudo e epidemiologista cardiovascular no departamento de saúde pública e medicina primária da Universidade Cambridge.

Mas Frank Hu, professor de nutrição e epidemiologia na Escola Harvard de Saúde Pública, disse que a descoberta não deve ser interpretada como "luz verde" para aumentar o consumo de carne bovina, manteiga e outros alimentos ricos em gordura saturada. Para ele, analisar gorduras individuais e outros grupos de nutrientes isoladamente pode ser enganoso, porque quando as pessoas reduzem seu consumo de gorduras elas também tendem a comer mais pão, cereais frios e outros carboidratos refinados que também podem ser nocivos para a saúde cardiovascular.

"A abordagem do macronutriente único está superada", disse Hu, que não participou do estudo. "Acho que as diretrizes nutricionais futuras vão dar mais e mais ênfase à comida real, em vez de definir limites absolutos para determinados macronutrientes."

Hu disse que as pessoas devem tentar consumir os alimentos típicos da dieta mediterrânea, como nozes, peixes, abacate, grãos com alto teor de fibra e azeite de oliva. Um grande ensaio clínico realizado no ano passado e não incluído na análise atual constatou que uma dieta mediterrânea com mais nozes e azeite de oliva extra-virgem reduz ataques cardíacos e AVCs, quando comparada com uma dieta com teor de gordura mais baixo e com mais amidos.

A bioquímica nutricional Alice H. Lichtenstein, da Universidade Tufts, concordou que "seria lamentável se estes resultados fossem interpretados como autorização para voltar a comer manteiga e queijo sem restrições", citando evidências de que a substituição da gordura saturada por alimentos com alto teor de gorduras poli-insaturadas –em vez de simplesmente comer mais carboidratos– reduz o risco cardiovascular.

Pessoas devem tentar consumir os alimentos típicos da dieta mediterrânea, como nozes, peixes, abacate, grãos com alto teor de fibra e azeite de oliva.

Lichtenstein, que não participou do estudo mais recente, é a autora principal das diretrizes dietéticas da American Heart Association (associação americana de cardiologia). Estas recomendam que a gordura saturada forme apenas 5% das calorias ingeridas diariamente –aproximadamente duas colheres de sopa de manteiga ou 56 gramas de queijo cheddar, no caso de uma pessoa que consome 2.000 calorias por dia. A associação de cardiologia afirma que limitar a ingestão de gorduras saturadas e aumentar o consumo de gorduras insaturadas, feijões e verduras pode proteger as pessoas contra doenças cardíacas, ao reduzir a lipoproteína de baixa densidade, o chamado colesterol ruim.

Na nova pesquisa, Chowdhury e seus colegas procuraram avaliar as melhores evidências disponíveis hoje, baseando-se em quase 80 estudos envolvendo mais de meio milhão de pessoas. Eles analisaram não apenas o que as pessoas relataram ter ingerido, mas também medidas mais objetivas, como a composição dos ácidos graxos em seu sangue e seus tecidos adiposos. Os cientistas também reviram as evidências de 27 ensaios controlados randomizados –o padrão mais alto de pesquisa científica– que avaliaram se a ingestão de suplementos de gordura poli-insaturada, como óleo de peixe, promove a saúde cardiovascular.

Eles encontraram realmente uma ligação entre as gorduras trans –os óleos parcialmente hidrogenados, hoje altamente criticados, que durante muito tempo foram acrescentados a alimentos processados– e as doenças cardíacas. Mas não constataram evidências de perigos da gordura saturada, nem de benefícios de outros tipos de gorduras.

A razão principal pela qual a gordura saturada tem má reputação é historicamente o fato de ela aumentar as lipoproteínas de baixa densidade, ou LDL, o colesterol do tipo que eleva o risco de ataques cardíacos. Mas, disse Chowdhury, a relação entre gordura saturada e LDL é complexa. Além de elevar o colesterol LDL, a gordura saturada também eleva as lipoproteínas de alta densidade, ou HDL, o chamado colesterol bom. E o LDL que a gordura saturada eleva é um subtipo feito de partículas grandes e fofas que, de modo geral, é benigno. Os médicos descrevem uma preponderância dessas partículas como um padrão A de LDL.

A forma menor e mais densa de LDL é a mais perigosa. Essas partículas são facilmente oxidadas e têm mais chances de desencadear inflações e contribuir para o crescimento das placas que estreitam as artérias. Um perfil de LDL que consista principalmente dessas partículas, conhecido como padrão B, geralmente coincide com nível alto de triglicerídeos e baixos níveis de HDL, ambos fatores de risco para ataques cardíacos e derrames cerebrais.

A razão pela qual a gordura saturada tem má reputação é o fato de ela aumentar o LDL, o colesterol do tipo que eleva o risco de ataques cardíacos.

As partículas menores, mais tendentes a entupir as artérias, são aumentadas não pela gordura saturada, mas por alimentos açucarados e um excesso de carboidratos, disse Chowdhury. "É a dieta com alto teor de carboidratos ou açúcares que deve ser alvo de diretrizes nutricionais", ele, disse. "Se alguma coisa estiver impelindo suas lipoproteínas de baixa densidade de maneira mais adversa, são os carboidratos."

Enquanto as novas pesquisas não revelaram nenhuma relação geral entre a ingestão de gordura saturada ou poli-insaturada e eventos cardíacos, existem muitos ácidos graxos singulares dentro desses dois grupos, e houve algumas indicações de que eles não são todos iguais.

Quando os pesquisadores analisaram os ácidos graxos no sangue, por exemplo, constataram que o ácido margárico, uma gordura saturada presente no leite e laticínios, está associado a risco cardiovascular mais baixo. Dois tipos de ácidos graxos ômega-3, as gorduras poli-insaturadas encontradas em peixes, também são protetoras. Mas as descobertas sugerem que vários dos ácidos graxos poli-insaturados ômega-6 encontrados comumente em óleos vegetais e alimentos processados podem gerar riscos.

Os pesquisadores analisaram os dados dos ensaios randomizados para ver se a ingestão de suplementos como o óleo de peixe gerava algum benefício cardiovascular. A resposta foi que não.

Mas Chowdhury disse que essa discrepância pode ter uma explicação. Os ensaios com suplementos foram feitos principalmente com pessoas que apresentavam doenças cardiovasculares preexistentes ou que tinham alto risco de desenvolvê-las, enquanto os outros estudos envolviam populações de modo geral saudáveis.

Assim, é possível que os benefícios dos ácidos graxos ômega-3 estejam na prevenção das doenças cardíacas, mais que em seu tratamento ou reversão. Estão sendo realizados pelo menos dois grandes ensaios clínicos para averiguar se esse é o caso.


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