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Sábado 18.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Artigo da semana

O peixe Nemo e o Mais Médicos

Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Postado em 24 de Novembro de 2013 -

A indústria farmacêutica vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico. A indústria farmacêutica vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico.

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A indústria farmacêutica apresenta uma característica peculiar. Ela vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico.

Essa condição fez com que a indústria farmacêutica internacional desenvolvesse uma estratégia "sui generis" que, não obstante, imita um comportamento comum entre animais inferiores, a simbiose.

Observo em meu aquário o peixe palhaço percola Nemo colher um vôngole e leva-lo à boca de "sua" anêmona, antes mesmo que ele próprio se alimente. Em troca, recebe da anêmona - um animal com tentáculos venenosos - proteção contra eventuais predadores. Essa troca de favores chamamos simbiose.

A promoção de medicamentos se faz de porta em porta, nos consultórios médicos. Todo mundo sabe que os inúmeros congressos médicos nos mais pitorescos locais do mundo, de Paris a Cancun, são patrocinados pelas empresas produtoras de medicamentos, inclusive com passagens e estadia pagas.

O que não era percebido até recentemente é a importância e o volume de recursos repassados diretamente a médicos como remuneração pela promoção de medicamentos. Pois bem, embora sejam esses recursos diminutos em comparação com os gastos globais dessas empresas com propaganda, em que se incluem as conferências técnico-turísticas, elas ultrapassam só nos Estados Unidos uma centena de milhões de dólares por ano.

Se você cura o doente, você deixa de faturar. Se você simplesmente o mantém vivo, você fatura indefinidamente.

E onde fica a ética? E o ensinamento de Hipócritas? A prática quotidiana e a necessidade de sobrevivência geram padrões de comportamento que, por sua vez, estabelecem dogmas, tabus, que enfim são incorporados como princípios éticos à cultura de cada sociedade.
Aos poucos, os médicos acabam por sepultar sua própria percepção dos conflitos de interesse que regem essa maléfica simbiose. Três empresas multinacionais do setor farmacêutico foram há pouco multadas e 18 de seus funcionários presos na China por adotarem essa prática.
Recentemente, o médico britânico e Nobel de medicina Richard J. Roberts acusou as farmacêuticas de evitar a cura em prol da dependência, um fato já conhecido. Se você cura o doente, você deixa de faturar. Se você simplesmente o mantém vivo, você fatura indefinidamente. Uma estratégia também adotada por animais parasitas. Quantas corporações médicas denunciaram essa condição maléfica?

Médicos e suas associações já se opuseram, se não publicamente, pelo menos nos bastidores, a iniciativas positivas do Estado. Isso ocorreu com a instalação do SUS e com as poucas iniciativas de produção de medicamentos em laboratórios estatais. Agora acontece com o programa Mais Médicos, que, para as condições atuais da saúde no Brasil, é imprescindível. Tudo que pareça interferir com a tradicional simbiose médico-produtoras de medicamentos, mesmo que tangencialmente, passa a ser hostilizado.

Quantos dos médicos que se declaram contra o programa repudiaram ofertas de passagens e estadias em gostosas conferências? Quantos colocam o interesse da sociedade brasileira acima dos seus próprios e de sua corporação?

Rogério Cezar de Cerqueira Leite é Físico e professor emérito da Unicamp


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