Semana On

Sábado 14.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Palavra do Editor

O povo da mercadoria e a queda do céu

Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu. – Davi Kopenawa

Postado em 02 de Dezembro de 2015 - Victor Barone

Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu. – Davi Kopenawa Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu. – Davi Kopenawa

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As imagens de devastação, de morte e obliteração que nos inundaram a alma nas últimas semanas, consequência do crime cometido pela ganância e pelo descaso em Mariana (MG), podem ser facilmente relegadas a obra do acaso, acidente. Não são. São, isso sim, o reflexo de uma noção de civilização que valoriza as coisas em detrimento dos seres. Nunca, portanto, a ideia de que é preciso escapar da escravidão do consumo desenfreado foi tão importante. É ela quem, como sugere o líder yanomami Davi Kopenawa, nos transformou no “povo da mercadoria”.

“(os brancos são) o povo da mercadoria. Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido. Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios. Hoje já não resta quase nada de floresta em sua terra doente e não podem mais beber a água de seus rios. Agora querem fazer a mesma coisa em nossa terra. O valor que damos a essas coisas é maior até do que o que os brancos dão ao ouro que tanto cobiçam. Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles acabem enredados nela até o caos.” – Davi Kopenawa

No final da década de 80, uma corrida ao ouro sem precedentes devastava a terra dos yanomami, no noroeste da Amazônia Brasileira, fronteira com a selva venezuelana. Com uma longa experiência de relacionamento com o homem branco e de luta contra seus avanços sobre a floresta, o líder e xamã yanomami Davi Kopenawa estava profundamente abalado pela verdadeira catástrofe epidemiológica e ecológica de que seu povo era vítima e que lhe parecia anunciar seu iminente desaparecimento. Ele tinha começado a elaborar, com seu sogro e mentor, “grande homem” da aldeia de Watoriki, uma profecia xamânica sobre a “fumaça do ouro”, a morte dos xamãs e a “queda do céu" (o mito yanomami da queda do céu conta o cataclismo que acabou com a primeira humanidade e que, para os Yanomami, pode prefigurar o destino de nosso mundo, devastado pela cobiça do homem branco em sua busca infindável por ouro, petróleo e “mercadorias”).

“Se destruírem a floresta, o céu vai quebrar de novo e vai cair na terra! As costas do céu sustentam uma floresta tão grande quando a nossa, e seu peso enorme vai nos esmagar de repente com toda a sua força. Toda a terra na qual andamos será empurrada para o mundo subterrâneo, onde nossos fantasmas vão, por sua vez, virar vorazes ancestrais aõpatari. Vamos morrer antes mesmo de perceber. Ninguém vai ter tempo de gritar nem de chorar. Depois, os xapiri em fúria vão acabar atirando na terra também o sol, a lua e as estrelas. Então o céu vai ficar escuro para sempre.” – Davi Kopenawa

Em 24 de dezembro de 1989, após uma rápida visita a Brasília, Kopenawa enviou uma mensagem gravada em três fitas cassete ao seu amigo, o antropólogo Bruce Albert – proibido, como demais antropólogos e missionários que denunciavam a devastação, de entrar na região por ordem dos militares favoráveis à exploração do garimpo naquela região de fronteira. Na mensagem, Kopenawa relatava seu horror.

O xamã estava hospedado na casa da antropóloga Alcida Ramos. Em Brasília, havia percorrido mais uma vez os corredores do poder em busca da salvação de seu povo e de sua floresta. Tinha acabado de assistir a uma reportagem da TV Globo sobre o avanço dos garimpeiros pelo território yanomami. Os jornalistas mostraram a considerável extensão de suas escavações ao longo dos rios e igarapés das terras altas da região, que devastavam, sistematicamente.

“Logo compreendi que os garimpeiros eram verdadeiros comedores de terra, e que iam devastar tudo. O ouro não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de matar por ele. Seu pensamento está todo fechado. Só se importam em cozinhar o metal e o petróleo para fabricar suas mercadorias.” – Davi Kopenawa

Segundo o relato de Alcida, chocado com as imagens de depredação apocalíptica do centro histórico do território de seu povo, Kopenawa permaneceu mudo e pensativo por um bom tempo. Por fim declarou em tom grave, em português: “Os brancos não sabem sonhar, é por isso que destroem a floresta deste jeito”. A antropóloga, sob o impacto da afirmação enigmática, propôs a ele que gravasse, em yanomami, suas reflexões sobre o que acabara de ver.

Foi um relato angustiado das doenças e mortes, das violências e estragos provocados pela cobiça desenfreada do garimpo. Um relato entrecortado por reflexões xamânicas, tiradas da cosmologia yanomami e das sessões de consumo de yakoana (alucinógeno usado pelos xamãs yanomami para “fazer dançar” os xapiris – espíritos da natureza - que cuidam dos seres humanos e da floresta) realizadas com seu sogro em Watoriki. No final, Kopenawa pedia a ajuda de Bruce Albert para divulgar suas palavras.

Tanta destruição nos deixa muito preocupados. Tememos que a floresta acabe revertendo ao caos e aniquilando os humanos, como ocorreu no primeiro tempo. – Davi Kopenawa

Esta gravação foi o evento fundador que selou entre ambos o pacto político e “literário” que deu origem ao livro “A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami” (Companhia das Letras, tradução de Beatriz Perrone-Moisés e prefácio de Eduardo Viveiros de Castro), cuja leitura tive o imenso prazer de finalizar esta semana graças a um presente precioso dos queridos amigos Emerson Merhy e Erminia Silva.

Foram 100 horas de depoimento, gravados entre 1989 e 2001, que serviram de base para as mais de 700 páginas desta obra de enorme impacto na história da etnografia. Lançado em 2010 na França (na prestigiosa coleção Terre Humaine) e só agora traduzido para o português, o livro é uma rara interlocução entre dois universos culturais, em que um índio assume a (co)autoria do discurso para introduzir os seus sistemas cosmopolíticos e intelectuais aos brancos. “Trata-se de uma obra de colaboração na qual duas pessoas – o autor das palavras transcritas e o autor da redação empenharam-se em seu um só”, explica Bruce Albert.

O livro de Davi e Bruce não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a nossa noção de progresso e desenvolvimento.

“Os antigos brancos desenharam o que chamam de suas leis em peles de papel, mas para eles parece que não passam de mentiras! Na verdade, eles só escutam as palavras da mercadoria! Eles estão sempre impacientes e temerosos de não chegar a tempo a seus empregos ou de serem despedidos. Só falam do trabalho e do dinheiro que lhes falta. Vivem sem alegria e envelhecem depressa, sempre atarefados, com o pensamento vazio e sempre desejando adquirir novas mercadorias. Então, quando seus cabelos ficam brancos, eles se vão e o trabalho, que não morre nunca, sobrevive sempre a todos. Depois, seus filhos e netos continuam fazendo a mesma coisa.” – Davi Kopenawa

A obra é composta de três partes: a primeira, Devir Outro, retrata a vocação xamânica de Davi desde a infância até sua iniciação na idade adulta, descrevendo a riqueza de um saber cosmológico secular. A segunda parte, denominada A fumaça do metal, relata por meio de sua experiência pessoal, não raro dramática, a história do avanço dos brancos sobre a floresta – missionários, garimpeiros entre outros – e sua bagagem de epidemias, violência e destruição. Finalmente, a terceira parte, A queda do céu, refere-se à odisseia vivida por Davi ao denunciar a dizimação de seu povo nas viagens que fez à Europa e aos Estados Unidos.

“É um dos mais impressionantes testemunhos reflexivos jamais oferecidos por um pensador oriundo de uma tradição cultural indígena”, avalia o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do Prefácio da obra. “Fruto da colaboração exemplar entre dois intelectuais, um xamã ameríndio e um antropólogo europeu, o livro é uma prova eloquente do brilhantismo da imaginação conceitual indígena, de sua potência analítica e sua nobreza existencial”.

“Por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, os brancos ignoram os dizeres distantes de outras gentes e lugares.” – Davi Kopenawa

Encontro Improvável

O etnógrafo francês conheceu o futuro líder yanomami quando este ainda trabalhava como intérprete da Funai, em 1978. Ambos tinham 20 e poucos anos e uma ideia distorcida um do outro: Albert ouvira falar de Kopenawa como um índio aculturado a serviço dos militares, enquanto Kopenawa ouvira rumores de que Albert seria um perigoso estrangeiro infiltrado nas terras de seu povo.

As caricaturas cruzadas, porém, não demoraram para se desmanchar. Assim que se viram juntos em uma sessão xamânica, descobriram que compartilhavam o compromisso com os yanomami e o engajamento contra o garimpo dos brancos que exterminava a etnia.

“Davi sabia que eu falava yanomami e queria explicar aos brancos a história e a tradição do seu povo para não serem exterminados pela cobiça do ouro. Ele teve contato na sua infância com missionários evangélicos cuja referência constante era a Bíblia. Desde cedo ficou atento ao poder da escrita no mundo dos brancos. Sabia, portanto, que para adquirir existência para os brancos a história e o pensamento yanomami deviam ser escritos na forma de um (grande) livro. De minha parte, escrever este livro a partir dos depoimentos do Davi foi uma tentativa de inventar uma nova forma de escrita etnográfica para resolver meu crescente mal-estar em manter estanques interesses acadêmicos e ação política”, afirmou Bruce Albert em entrevista ao jornal O Globo.

No início, o céu ainda era novo e frágil. A floresta era recém-chegada à existência e tudo nela retornava facilmente ao caos. Moravam nela outras gentes, criadas antes de nós, que desapareceram. Era o primeiro tempo, nos quais os ancestrais foram pouco a pouco virando animais de caça. E quando o centro do céu finalmente despencou, vários deles foram arremessados para o mundo subterrâneo. As costas deste céu que caiu no primeiro tempo tornaram-se a floresta em que vivemos, o chão no qual pisamos. Por esse motivo chamamos a floresta wãro patarima mosi, o velho céu. Depois, um outro céu desceu e se fixou acima da terra, substituindo o que tinha desabado. Sempre que o céu começa a tremer e ameaça arrebentar, (nossos xamãs) enviam sem demora seus xapiri para reforçá-lo. Sem isso, o céu já teria desabado de novo há muito tempo!” – Davi Kopenawa

Um fim

Apesar de ter sido oficialmente homologada em 1992, quase 55% da Terra Indígena Yanomami já é objeto de mais de seiscentos pedidos ou concessões de prospecção mineral registrados junto ao Ministério de Minas e Energia, feitos por empresas públicas e privadas, nacionais e multinacionais. Os projetos de colonização agrícola implementados no limite leste do território yanomami a partir de 1978 por agências federais e depois regionais – amplificados por um grande movimento de ocupação espontânea – geraram uma dinâmica de povoamento e desmatamento que já atingiu os limites da terra indígena e ameaça invadi-la.

Tudo isso, em nossa língua, é urihi a pree – a grande terra-floresta. Acho que é o que os brancos chamam de mundo inteiro. – Davi Kopenawa

A queda do céu, profetizada pelo xamanismo yanomami é um espectro que nos persegue a cada dia. A cada imagem de Mariana, do Rio Doce, do mar contaminado, nos lembramos do quanto estamos imersos na lógica da mercadoria, que nos faz indignar, mas não sublevar.

“Davi nos diz que hoje só os xamãs dos povos indígenas sabem ainda chamar e fazer dançar os xapiri para conter os seres maléficos do mundo, combater as epidemias xawara e manter o céu em seu lugar. Se o ‘povo da mercadoria’ acabar exterminando os últimos povos indígenas e seus xamãs, os espíritos xapiri fugirão para sempre, abandonando o mundo ao caos. Chegará então o tempo da queda do céu”, avisa Bruce Albert.

Não são poucos os estudos científicos que apontam o início de um desastre ambiental global de magnitude ainda pouco imaginável. Estamos no começo do fim do modelo de predação generalizada dos povos e do planeta inventado pelo “povo da mercadoria” há poucos séculos. A palavra de Davi não é portanto, uma mera profecia exótica. É um diagnóstico e um aviso.

Victor Barone

Victor Barone
Diretor da Semana On



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