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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Cinema e linguagem

A dificuldade do cinema em lidar com as adaptações

Postado em 13 de Novembro de 2015 - Danilo Custódio

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Adaptações para o cinema de grandes obras realizadas em outras plataformas sempre foram vistas com certo preconceito por parte dos fãs e, geralmente, mal recebidas pela crítica. Isso porque, em uma obra literária por exemplo, o realizador se apropria da ferramenta de linguagem gramatical, que por sua vez nada tem a ver com a ferramenta de linguagem audiovisual. A gramatica possui certas características na forma com que comunica seu conteúdo: pontos, vírgulas, parágrafos, categorias diferentes de palavras na estrutura das frases (quem aqui nunca fez uma análise sintática?) e por ai vai. O cinema, por sua vez, possui outras características de linguagem: enquadramentos, movimentos de câmera, som, edição, etc.

Realizar uma obra cinematográfica que tem seu conteúdo extraído de uma obra literária é uma atividade que transcende a própria obra. É necessário recriar quase tudo para que o conteúdo seja transmitido de forma minimamente adequada. Sim, sabemos que a gramática é muito diferente do cinema. Já o teatro não. O cinema, aliás, se apropriou de várias características de linguagem do teatro. A encenação feita para as câmeras tem raízes nas técnicas de encenação para o teatro. E muitos atores que querem trabalhar com cinema começam suas carreiras estudando o teatro. Isso causa uma certa aflição em realizadores audiovisuais, uma vez que algumas técnicas de atuação precisam ser completamente anuladas quando se atua para a câmera. No cinema se busca a naturalidade, conceito completamente oposto à encenação teatral.

Um bom exemplo para observarmos de perto a relação do cinema com o teatro e a literatura é o Os Maias - Cenas da Vida Romântica, de João Botelho. O filme é uma co-produção entre Brasil e Portugal e chega as telonas brasileiras nessa semana. Trata-se de uma adaptação homônima da obra de Eça de Queiroz, super fiel ao livro no que diz respeito ao conteúdo (ações e personagens). A opção pela encenação teatral, bem como a cenografia pintada à mão em oposição às locações reais que o cinema costuma utilizar, imprime certa artificialidade que acaba nos afastando do filme. Isso faz com que o espectador acabe se relacionando de forma superficial com aquela história. Não vou dizer se isso é bom ou ruim, é apenas diferente. Além disso, é uma boa oportunidade pra prestigiarmos o cinema nacional. Bora conferir?

 

Conferência setorial do audiovisual

O Fórum do Audiovisual Paranaense organiza, na próxima terça (17) das 19:30 às 21:30hs, a Conferência Setorial do Audiovisual. Nessa oportunidade, a cada 10 participantes presentes, será eleito 01 delegado que irá representar o audiovisual na Conferência Municipal de Cultura. Um momento super importante de mobilização do setor, uma vez que sem voz, o audiovisual continuará à margem dos financiamentos públicos diante dos outros segmentos artísticos. Quanto mais participantes, mais delegados. Quanto mais delegados, mais força para as políticas públicas do audiovisual. O evento acontecerá no Auditório da Faculdade de Artes do Paraná, localizado na rua dos Funcionários, 1357 – Cabral – Curitiba/PR. Partiu?

 

Indicação

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes)

Luciano Maccio

O cinema latino-americano é rico em conteúdo narrativo, seja estabelecendo uma opinião política – em sua maioria – ou explorando o grande diâmetro espiritual do ser-humano. Hoje trago um filme de minha amada terra. Um filme que me arrepiou. Um misto de choque e deslumbramento.

Com direção do argentino Damián Szifron, produção do espanhol Pedro Almodóvar, trazendo o grande Ricardo Darín no elenco – dentre outros atores talentosos – Relatos Selvagens, como o próprio título deixa implícito, relata histórias curtas que exploram os limites do humano comum. Esse mesmo ser que cruzamos em dia a dia em nosso cotidiano.

As narrativas colocam em pauta a subjetividade do caráter do ser social, cada uma delas narrando o exato momento onde o indivíduo encontra seu limite moral e passa ao outro estado do homem, o selvagem. Aqui, as leis da sociedade não se aplicam mais e o que importa é o instinto; seja ele a autopreservação, a luxúria, a fome ou a violência.

O filme traz uma mensagem diferente ao público acostumado a ver produções latino-americanas usadas como ferramenta de crítica política. Pessoalmente sou fascinado pela natureza humana e suas nuances e acredito que uma história vale ser contada pela sua qualidade narrativa, mesmo que sua influência social seja subjetiva. Relatos Selvagens é uma obra humana antes de tudo, voltada para aqueles fascinados com esse animal que não se considera tal, o homo sapiens.


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