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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Entrevista

De olho na Prefeitura

Uma coisa é certa, a população reconhece meu legado, afirma Nelsinho Trad.

Postado em 11 de Novembro de 2015 - Victor Barone

"Uma coisa é certa, a população reconhece meu legado", afirma Nelsinho Trad. Foto: Erônemo Barros

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O ex-prefeito de Campo Grande, Nelson Trad Filho saiu enfraquecido da disputa pelo Governo do Estado, em fins de 2014. A derrota, no entanto, durou pouco. Diante do caos político-administrativo que se implantou na Prefeitura da capital sul-mato-grossense após a ascensão, queda e retorno do prefeito Alcides Bernal (PP), o nome de Nelsinho voltou a surgir entre os mais cotados na corrida eleitoral que se avizinha. Presidindo o PTB – partido liderado por seu pai durante muitos anos – Nelsinho aposta na boa política, acenando para o ex-governador André Puccinelli (PMDB) – seu desafeto desde as últimas eleições – e articulando uma possível aliança com o governador Reinaldo Azambuja (PSDB). Confira.

 

O senhor é candidato a prefeito de Campo Grande?

O foco da missão que me foi confiada pela executiva nacional do PTB é fortalecer o partido, reestruturá-lo, prepará-lo para as eleições municipais do ano que vem em todos os municípios do Estado. Para isso, temos três princípios. Primeiro: a busca da candidatura majoritária. Segundo: na impossibilidade da majoritária, a busca pela composição da chapa com candidato a vice. Terceiro: não deu majoritário, nem vice, a construção de uma chapa de vereadores competitiva, forte, para a gente crescer em representatividade nos legislativos municipais. Esta é a estratégia do PTB em Mato Grosso do Sul.

O senhor apareceu muito bem nas últimas pesquisas de intenção de votos para a Prefeitura de Campo Grande, promovidas pelo Instituto de Pesquisa Mato Grosso do Sul (Ipems) e pela Vale Consultoria. É um incentivo para avaliar uma possível candidatura no ano que vem?

Eu analiso estas pesquisas da mesma forma que sempre analisei pesquisas eleitorais.  São reflexos do momento. As pessoas remetem o que está acontecendo ao que se tinha antes. E, uma coisa é inegável: podem criticar, podem falar, tentar envolver o nosso nome em qualquer situação, mas na minha administração não tinha buraco nas ruas, pagava-se os salários do funcionalismo em dia, a educação funcionava com Escolas de Tempo Integral, merenda e uniformes, a saúde funcionava com remédios à disposição, a relação com os poderes era harmônica. Este é o reflexo da saudade de um tempo em que a cidade era referência em qualidade de vida.

Uma coisa é certa: no nosso mandato salários não atrasavam, o relacionamento com os poderes e a imprensa era harmônico. As coisas funcionavam. Hoje Campo Grande parece a superfície da lua.

Diante dos problemas que a cidade apresentou nas gestões compartilhadas de Alcides Bernal e Gilmar Olarte, tem sido comum ouvir discursos que pedem a sua volta à Prefeitura. É comum ouvir nas ruas a seguinte frase: “Saudades do Nelsinho”.

Isso faz com que a gente tenha a noção do reconhecimento do nosso trabalho. Na seara política, a gente tem opositores que nunca vão concordar com a forma com que administramos ou agimos politicamente. Isso faz parte da democracia. Mas, repito, uma coisa se constata: na época em que estive a frente do executivo municipal, nunca se atrasou, parcelou ou escalonou salários. O funcionalismo sempre recebeu no primeiro ou no segundo dia útil de cada mês. O décimo terceiro sempre foi garantido. Nunca deixamos de dar aumento. Merenda e material escolar em dia, assim como uniforme, mochila, par de tênis, ano após ano a disposição dos alunos. Relação com o funcionalismo sempre foi franca e transparente. Nunca deixamos de atender nenhuma categoria. Nunca tivemos problemas graves de manutenção na cidade. Campo Grande era reconhecida como uma cidade modelo, capital referência em qualidade de vida no Brasil. Hoje Campo Grande mais parece a superfície lunar. E não é só isso. A manutenção das ruas sem asfalto, da rede de iluminação pública, das pontes e estradas que dão acesso aos distritos, o equilíbrio da relação com os poderes, tudo isso está um caos.

Há um acordo mútuo, uma aliança já firmada entre o senhor e o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) com vistas as duas próximas eleições?

Conversas políticas com o governador Reinaldo existiram, existem e vão continuar existindo. O que nós pretendemos para Campo Grande e Mato Grosso do Sul é algo que nos une. Ou seja: uma administração que possa voltar a fazer a cidade crescer, resolver estes problemas que estão fazendo a cidade ser manchete negativa em todo o país e resgatar o que a cidade tem de vocação. Campo Grande tem que voltar a ser exemplo de qualidade de vida. O governador Reinaldo pensa assim, e eu também penso assim. A gente conversa politicamente para poder encaminhar os futuros desdobramentos para que Campo Grande volte a ser a cidade que era.

Sua resposta deixa transparecer que já há uma aliança estabelecida entre o senhor e o governador.

A parceria que existe entre o ex-prefeito Nelsinho Trad e o atual governador Reinaldo Azambuja nunca foi escondida. Eu o apoiei no segundo turno e acho que este apoio foi importante para que ele pudesse ter ganho. Quando você indica ou apoia alguém, você é co-responsável pelo sucesso ou eventual insucesso deste indicado. Acredito no governador Reinaldo Azambuja, gosto da forma como ele faz política. É muito parecida com a minha forma de fazer política: direto, sem rodeios, sem artimanhas, sem maldade. Vou continuar ajudando, sendo parceiro dele, para que ele possa vencer as dificuldades e implantar em Mato Grosso do Sul tudo aquilo de bom que ele deseja para o nosso Estado.

O que eu e o governador Reinaldo Azambuja pretendemos para Campo Grande e Mato Grosso do Sul é algo que nos une.

Nunca foi fácil administrar uma capital brasileira. Não há dinheiro sobrando. Ainda assim, os problemas em Campo Grande – atraso de salários do funcionalismo e de pagamento de fornecedores, problemas com merenda e uniformes, crise na coleta de lixo e na manutenção asfáltica, crise de relacionamento com os demais poderes - começaram a surgir mais fortemente no início do mandato de Alcides Bernal. O problema foi financeiro? Faltou dinheiro para que Bernal – e Gilmar Olarte - administrassem sem problemas?

Não foi só isso. O insucesso foi resultado de um conjunto de fatores que tornaram Campo Grande uma cidade deficitária. A começar pela falta de preparo e de habilidade político-administrativa de Bernal. E junto dele incluo seu vice: Gilmar Olarte. Quem escolheu o vice para fazer parte da chapa e vencer as eleições com uma proposta enganosa foi Bernal. Foi uma decisão dele. Despreparo total. Falta de planejamento, falta de humildade, falta de capacidade para escolher bem os seus colaboradores, inabilidade na busca da harmonia entre os diversos poderes que gravitam o chefe do executivo municipal, e que deveria ter sido conquistada tão logo se proclamou o resultado das eleições. Finalmente, um total despreparo na questão da relação entre receita (que se desprezou) e despesas (que aumentaram muito).

A questão do descontrole na manutenção da malha asfáltica tem sido atribuída a uma herança da sua administração.

Não é verdade. A cidade nunca viveu em nossa gestão uma situação tão calamitosa quanto esta. Penso que, em função da falta de planejamento, e até de capacidade administrativa é que a cidade chegou a este ponto. Nós tínhamos uma equipe de manutenção que trabalhava ininterruptamente. Mesmo em épocas de chuva, quando os buracos se abriam mais, a gente atuava para resolver o problema e, também, de forma preventiva, fazendo recapeamentos - como o que fizemos na Vitório Zeola, na Afonso Pena, na Joaquim Murtinho. Isso era feito com muito esforço, com equipe reduzida, sobrecarregando funcionários. Mas, trabalhávamos sempre dentro de um teto e o serviço realmente era feito. Tanto é que tínhamos instituído um decreto em 2011 concedendo o controle social da questão dos tapa-buracos. Em qualquer rua que a equipe fosse tínhamos que ter a assinatura de dois moradores para atestar que existiam os buracos e que o serviço tinha sido feito. Todos os questionamentos desta ordem, que porventura puderem surgir, serão respondidos prontamente.

A cidade nunca viveu em nossa gestão uma situação tão calamitosa quanto esta. Penso que, em função da falta de planejamento, e até de capacidade administrativa é que a cidade chegou a este ponto.

Em depoimento ao Ministério Público, a vereadora Luiza Ribeiro (PPS) fez uma série de acusações contra o senhor no que tange a pagamento de “mensalinho” aos vereadores da Câmara Municipal, articulação no processo que levou a cassação do prefeito Alcides Bernal e em desvios de verbas no serviço de tapa-buracos. Como o senhor recebeu estas acusações?

Lamento profundamente e fico sem entender. A vereadora Luiza Ribeiro participou do meu governo durante sete anos e seis meses. Não foram sete dias e nem sete meses. Foram sete anos e meio. Ela esteve no nosso governo por todo este tempo, ao lado do seu companheiro de partido, o ex-vereador Athayde Neri, que foi meu líder na Câmara. Nunca, em nenhum momento - e eu a desafio a provar isso -, houve da nossa parte alguma questão que pudesse nos colocar na condição que ela apontou em seu depoimento. Não sei o que a levou a isso. Penso que são motivações políticas do grupo a que ela pertence, o grupo do atual prefeito Alcides Bernal. São denúncias vagas, vazias, sem provas, que inclusive lhe renderam processos judiciais. Meus advogados aventaram a possibilidade de eu acioná-la também, mas não o fiz por uma razão: achei pobre, baixo, sem nexo. O tempo dirá quem tem razão.

É comum ao campo político que gravitava na oposição ao seu governo - e também ao do ex-governador André Puccinelli - o discurso segundo o qual a eleição e Alcides Bernal foi uma resposta da sociedade a um grupo político que dominava o Estado e que se locupletava dele. Como o senhor analisa este argumento?

É um discurso oportunista e eleitoreiro, de uma politicagem rasteira, suja. Não teve nenhum homem público neste Estado que teve a sua vida vasculhada como eu. Por ter me habilitado a enfrentar, exatamente, os verdadeiros e grandes esquemas de corrupção que margeavam e norteavam a política sul-mato-grossense. Sofri CPIs de todos os lados. Não descobriram nada. Fizeram auditorias em todas as ações polêmicas que a gente fez e enfrentou em nossa administração. Não descobriram nada. Vasculharam minha vida pessoal, financeira e patrimonial. Não descobriram nada. E tenho certeza de que, por estar na qualidade em que estou, sendo reconhecido pela população, principalmente de Campo Grande, haverá outras situações para tentar inibir esta forma natural de reconhecimento que a sociedade tem para com meu trabalho e meu nome. Nada disso me faz temer. Tenho a consciência tranquila de que todas as nossas ações e atos administrativos foram feitos dentro da lei.

Nesta semana, o ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Obras Edson Giroto (PR) e o empresário João Amorim, dono da Proteco Construções, foram presos a pedido da força-tarefa do Ministério Público Estadual (MPE) que investiga esquema de desvio de dinheiro público em Mato Grosso do Sul. Como o senhor avaliou estes acontecimentos?

Nós estamos vivendo um momento diferente na política nacional. O mesmo ocorre em Campo Grande e Mato Grosso do Sul. É bom que se deixe claro que todo e qualquer homem público que quiser se habilitar a representar a sociedade, especialmente nos cargos executivos, estará sujeito a ser alvo das investigações mais acuradas, dos controles mais aperfeiçoados e, principalmente, da vigilância social mais aguda. Eu vivi isso, principalmente no final do meu mandato, e, de forma tranquila e consciente, sempre respondi aos questionamentos que nos apresentaram. Esta situação atual vai, com certeza, trazer desdobramentos políticos em função da mácula sobre a imagem destas pessoas citadas. Mas, não se pode prejulgar antes do desfecho final, no âmbito da justiça, de toda a situação. Quando o ex-governador Zeca do PT saiu de seu governo, foi acusado de dezenas de improbidades administrativas, farra da publicidade, a questão do porto de Porto Murtinho, a questão de não ter pago o salário dos servidores. Passado este tempo todo, a justiça acaba de determinar a conclusão de sua investigação inocentando-o de todas as acusações. Será que isso não vai acontecer também com estes que agora estão sendo acusados? É uma pergunta que só o tempo vai responder. Quando se judicializa as questões, elas fogem da alçada política. Agora é o âmbito da justiça que vai dizer se este ou aquele é culpado deste ou daquele delito.

Quando o ex-governador Zeca do PT saiu de seu governo, foi acusado de dezenas de improbidades administrativas. A justiça acaba de inocentá-lo. Será que isso não vai acontecer também com estes que agora estão sendo acusados? É uma pergunta que só o tempo vai responder.

Algumas dessas pessoas gravitavam o seu governo. Estas investigações podem respingar de alguma forma no senhor?

Penso que o tempo é o senhor da razão. Todas as acusações que vierem e que porventura poderão surgir, elas deverão ser respondidas e esclarecidas. Quem tem a consciência tranquila de seus atos, como eu, não teme nenhum desdobramento negativo em relação as suas ações.

Uma das críticas que seus opositores sustentam é que o senhor faz parte de uma oligarquia política. Após o legado de seu pai (ex-deputado Nelson Trad) o senhor ingressou na vida pública, seguido por seus dois irmãos, o deputado estadual Marquinhos Trad (PMDB) e o ex-deputado federal Fabio Trad (sem partido), além de parentes. Como o senhor avalia esta crítica?

Quando a gente resolveu ingressar na política, e eu falo isso por mim e pelos meus dois irmãos, o fizemos espelhados por um grande líder político que era o nosso pai. Ele sempre nos deu um conselho: nunca sejam políticos profissionais, mas sim profissionais fazendo política. Esta questão já foi assimilada pela sociedade sul-mato-grossense. É uma página que estamos virando.

Uma das principais consequências políticas da última eleição foi a quebra da aliança entre o senhor e o ex-governador André Puccinelli. Como está esta relação hoje?

Não sou uma pessoa que guarda mágoas, ressentimentos, rancores. É da minha natureza saber perdoar e olhar para frente. Estive recentemente num jantar na casa do deputado LIdio (deputado estadual Lidio Lopes – PEN), com a presença do ex-governador André Puccinelli. Lá conversamos sobre política. Tenho por ele uma admiração pelo trabalho que ele fez, especialmente em Campo Grande. E, não vou esconder de você, tenho uma mágoa. Não pelo desdobramento da eleição de 2015, mas pela forma que fui tratado, sem a devida sinceridade que a nossa relação permitia um para com o outro. Ele tinha toda a liberdade de chegar para mim e dizer que tinha compromisso com outra candidatura e que não era a minha vez de me habilitar a concorrer. Eu iria entender isso perfeitamente e, com certeza, este desgaste não iria ter sido evidenciado como foi. Mas, isso são águas passadas. Estamos olhando para frente, na certeza de que ainda podemos, tanto ele quanto eu, contribuir para o desenvolvimento de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. Algo neste contexto é inegável: tanto André Puccinelli quanto Nelsinho Trad deixaram um legado de trabalho e de desenvolvimento que levaram Campo Grande a ser uma referência nacional em qualidade de vida. Podem dizer o que for, mas este legado existe e as pessoas reconhecem.


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