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Segunda-Feira 20.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Coluna

O ser “humano”

As transgressões de nossa espécie nas telas da internet e do cinema.

Postado em 23 de Outubro de 2015 - Danilo Custódio

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A natureza da raça humana resume-se à sobrevivência. E o principal instinto de sobrevivência que possuímos é o sexual, que diz respeito à procriação da espécie. Sabemos que nossa sociedade é baseada na herança, com pilares enraizados no que conhecemos como estrutura familiar, que acaba de ser institucionalizada por meio de um estatuto. Sinceramente, continuo acreditando que seja uma grande piada.

Feliciano, num vídeo feito por ele mesmo no dia da vitória na câmara, disse que “família” é um projeto de “deus” (as aspas são minhas interpretações). O problema é quando família se torna um escudo, usado muitas vezes para mascarar atos de atrocidade. Atos esses desencadeados por outro instinto muito importante no quesito sobrevivência: a agressividade. A sociedade cristã prefere chamar esses instintos de demônios. E a cada dia nossos demônios se revelam, como no atual caso das manifestações públicas, de ordem agressiva-sexual, contra a Valentina. E tudo ali, nas telas da internet, pra todo mundo ver.

Nas telas do cinema não é diferente e as representações dos nossos demônios sempre tiveram o destaque merecido. Da perspectiva agressiva-sexual, o mais impressionante dentre os filmes que assisti é sem dúvidas o Irreversível, de Gaspar Noé. Um filme pesado. Muito pesado. Que bate fundo na cachola e nos faz refletir sobre a vida de forma irreversível.

Trailer Irreversível

Outro grande filme que diz muito a respeito do ser vivo mais desenvolvido do planeta, graças aos instintos de sobrevivência somados a um encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores, é o Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Aqui somos apresentados a um demônio de múltiplas faces.

Ilha das Flores

Por fim, um exemplo que julgo interessante é uma experiência de minha autoria, que fiz como trabalho de conclusão num curso de documentário e diz respeito ao trabalho. Já diziam os mais velhos que “o trabalho dignifica o homem”. Será mesmo? Que dignidade é essa? Seria um policial capaz de cometer atos de atrocidade? E um professor? Antes de responder, considere que estamos falando de seres humanos. Tenha em mente que, em muitos casos, os profissionais são pressionados ao limite. E quem pode dizer quais demônios se revelam numa condição dessas? E ainda, para o benefício de quem as pessoas se sujeitam a essa condição?

O Ser Humano

 

CRÔNICA

Intrusão no olhar

Ive Machado

Segurava a ponta de um dos panos de muitos. Estávamos usando esses panos para cobrir uma cena externa na qual haveria nudez. O sol havia dado lugar a uma neblina no horizonte e à brisa gelada do interior. A produção “protegia” o corpo da menina mulata de olhos curiosos, mas não poupou a equipe de presenciar a cena de estupro que a direção visava criar. Cobri meu rosto com o pano, mas o som conseguia ser ainda mais cruel que a própria imagem. Reverberava, dentro de mim, o rosnar da fera que era o personagem, violando muito além daquela menina. Invadia e feria a dignidade de todas as mulheres ali no set. Uma delas começou a chorar. E as tomadas se sucediam. Perdi a conta de quantas foram feitas. Os panos foram amarrados em pilastras porque a equipe não aguentou presenciar aquele ato repetidas vezes. Tomada a tomada, a ação ficava cada vez mais banal diante dos nossos olhos. Os atores tinham seus semblantes caídos. E a mecânica do movimento aos poucos foi se tornando desastrosa e dolorida, um reflexo do processo antiquado que parecia querer nos levar à exaustão. Terminou prejudicando aquela que talvez seja a grande ferramenta para concretizar um filme: o relacionamento. Das leituras que poderiam ser dadas ao tema, a moça parecia reforçar alguns dos vários arquétipos que “motivam” – não sei como – os abusadores. Os olhares sobrevoavam os olhos do diretor, que não nos dizia nada a respeito do desconforto. Ficou o enorme ponto de interrogação e a sensação de indignação. Vivíamos uma suspensão moral, que ainda contou com a dicotomia entre proteger a atriz dos olhares que por ali passavam, ao mesmo em que permitíamos que à câmera olhasse tudo. Justo a câmera, o olho para todos os olhos. Parte da equipe posicionou-se e se retirou. A outra parte permaneceu sob uma náusea psicológica. E todos testemunharam a consequência dessa dinâmica. Não é mais admissível que vomitemos por de baixo dos tapetes.

 

CRÍTICA

O olho-por-olho em A vingança de Jennifer

Andy Jankowski

A spit on your grave, ou em português “A vingança de Jennifer” é um sexploitation de 1978 dirigido por Meir Zarchi. Na história, Jennifer é uma jovem escritora que quer produzir seu livro em um local tranquilo e aluga uma casa de verão no interior dos Estados Unidos, chegando à cidade é vítima de quatro homens que a estupram violentamente. Buscando vingança ela os caça um por um.

De estética relativamente clean para um exploitation, é sem dúvida um filme brutal para a época. Jennifer é a construção perfeita da mulher endeusada pelo American Way of Life. Branca, cissexual, heterossexual, classe média alta, magra (demais inclusive, há aqui uma exacerbação da fragilidade feminina desconstruída pela violência com que ela se vinga). Neste filme é possível analisar que os homens que desejam Jennifer e que por fim a estupram, sentem-se justificados em sua violência pelo fato de se tratar de uma mulher independente, que viaja sozinha, que paga as próprias contas, jovem, bonita e inteligente, um tipo de mulher que eles enquanto homens pouco instruídos do interior dos Estados Unidos acreditaram jamais serem capazes de possuir. Toda a construção do personagem de Jennifer parece pensada para provocar a ira e atacar ego masculino.

O fato de morar sozinha em uma casa afastada sem um homem que a proteja é motivo de revolta e desdém por parte dos homens do filme, praticamente uma afronta. Por ser escritora, uma profissão considerada historicamente pouco feminina já que a cultura, arte, literatura e as próprias letras foram negadas às mulheres durante séculos ofende e o estupro coletivo é uma maneira de colocá-la em seu lugar social de mulher, submissa ao falo. Falo este que é cortado em uma de suas vinganças. A crítica aqui está em saber que enquanto ser social um homem sem virilidade perde seu poder e função. A sensualidade natural e independente da protagonista é vista como provocativa e digna de abuso, afinal, uma mulher de sexualidade plena e livre é uma afronta à virilidade masculina, à frágil construção da masculinidade e da potência do macho alpha.

Ao buscar vingança e ameaçar um de seus estupradores com uma arma, em desespero ele confessa que o fato de Jennifer morar sozinha sendo mulher e andar tranquilamente de biquíni no quintal de sua própria casa num dia ensolarado foi vista por ele como um convite ao estupro, uma provocação intencional por parte da mulher como criatura-objeto, cuja função social é servir. Aqui temos um exemplo claro de tentativa de culpabilização da vítima e de redenção do agressor enquanto vítima de sua própria condição de homem. Jennifer cede como se sentisse culpa pelo abuso que sofreu e larga a arma.

Um incômodo: Os planos sexualizados numa tentativa de exposição sensual do corpo da atriz durante as cenas de estupro me causaram um certo desconforto. Pode-se, a partir daí, fazer duas análises: 1 - Temos um diretor sádico e hipócrita que se utiliza de uma das maiores violência que uma mulher pode sofrer como desculpa para expor e subjugar a mesma num espécie de fetiche doentio do artista; 2 - Gerar autocrítica no espectador que em sua posição de voyeur na sala escura questiona a própria sexualidade ao sentir atração e excitação sexual ao ver uma mulher ser violentada. Devido ao histórico dos filmes de sexploitation é difícil saber...

Download no Making Off

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