Semana On

Sábado 19.set.2020

Ano IX - Nº 411

Poder

Cunha e mulher ocultaram fortuna no exterior, diz PGR

Aliados começam a deixar o barco.

Postado em 16 de Outubro de 2015 - Redação Semana On

Informações da Procuradoria-Geral da República indicam que Eduardo Cunha e sua mulher, Cláudia Cruz, movimentaram milhões em contas no exterior. Informações da Procuradoria-Geral da República indicam que Eduardo Cunha e sua mulher, Cláudia Cruz, movimentaram milhões em contas no exterior.

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Informações repassadas pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) indicam que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e sua mulher, Cláudia Cruz, movimentaram milhões em contas no exterior e ainda contam com uma frota de carros –que inclui veículo de luxo – avaliada em quase R$ 1 milhão à disposição no Rio de Janeiro.

Segundo o Ministério Público Federal, o deputado abriu conta nos anos 90 no exterior, que teria sido precedida de análise de risco apontando patrimônio de aproximadamente US$ 16 milhões (R$ 62 milhões) na época.

De acordo com a Procuradoria, Claudia e as empresas do casal (Jesus.com e C3 Produções) têm oito carros registrados, que teriam preço médio que variam de R$ 18 mil a R$ 430 mil (um Porshe Cayenne ano 2013).

Os procuradores destacam que ao abrir conta em um banco da Suíça, a mulher do deputado afirmou que "era dona de casa".

A evolução patrimonial do casal é um dos indícios apontados pelo Ministério Público Federal para justificar a investigação do deputado e familiares por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, fruto de desvios de recursos da Petrobras. A abertura de inquérito foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal e os dois serão investigados por corrupção e lavagem de dinheiro. Uma das filhas do deputado que é dependente de uma das contas na Suíça também é alvo de investigação.

Crime

"Há indícios suficientes de que as contas no exterior não foram declaradas pelas pessoas mencionadas, ao menos em relação a Eduardo Cunha, e de que são produto de crime", diz o procurador-geral da República interino, Eugênio Aragão, em parecer ao STF para justificar a abertura de inquérito para investigar contas secretas na Suíça atribuídas a Cunha e a mulher.

O procurador enumera informações para ressaltar que apesar de declarar atualmente patrimônio de R$ 1,6 milhões, Cunha é beneficiário de contas no exterior que movimentaram valores bem mais expressivos do que esse.

"A análise de risco e perfil do cliente demonstram que Eduardo Cunha já mantinha conta junto ao banco Merril Lynch nos EUA há mais de 20 anos de perfil agressivo e com interesse em crescimento patrimonial. Sua fortuna seria oriunda de aplicações no mercado financeiro local e do investimento no mercado imobiliário carioca. Há também referências à sua antiga função de Presidente da Telerj. Seu patrimônio estimado, à época da abertura da conta, era de aproximadamente US$ 16 milhões", escreve o procurador.

O inquérito foi aberto contra Cunha, Cláudia Cruz e uma filha do primeiro casamento do peemedebista, Danielle Cunha. Aragão afirma ainda que na conta na Suíça atribuída à mulher de Cunha – que movimentou "despesas bastante consideráveis em cartões de crédito" e outros gastos – consta inclusive a assinatura de Cláudia Cruz. A essa conta está vinculada Daniella e a filha do primeiro casamento de Cruz, Ghabriela Cruz Amorim.

Eduardo Cunha tem negado reiteradamente envolvimento com desvio de recursos da Petrobras. De forma indireta, nega ter contas na Suíça. Mas afirma que somente seus advogados irão se manifestar, no momento adequado, assim que conhecerem o teor das acusações.

A Procuradoria-Geral da República já havia acusado Cunha de envolvimento com o esquema de corrupção descoberto na Petrobras. Segundo os procuradores, ele recebeu propina dos fornecedores de navios-sonda alugados à Petrobras entre 2006 e 2007. Cunha foi denunciado pelos procuradores ao Supremo Tribunal Federal, que ainda não decidiu se aceita a denúncia e dá início ao processo em que ele será julgado.

Cópias de passaporte e assinatura

As contas secretas de Cunha foram abertas com cópia do passaporte dele, assinatura e o endereço residencial do peemedebista, de acordo com cópia da documentação exibida no "Jornal Hoje", da TV Globo, nesta sexta (16).

Na semana passada, com base em fontes próximas ao caso, veio à tona o uso dos documentos pessoais de Cunha e de familiares dele para a abertura das contas que deram origem à investigação contra o peemedebista por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro na Suíça.

Nos formulários das quatro contas atribuídas constam como endereço a rua Heitor Doyle Maia, 98, na Barra da Tijuca, no Rio – endereço residencial do peemedebista e da mulher, a jornalista Cláudia Cordeiro Cruz. Duas contas foram fechadas no ano passado, semanas após as primeiras prisões da Operação Lava Jato.

De acordo com a TV Globo, um dos cuidados que o presidente da Câmara teve para manter as contas secretas foi direcionar toda a correspondência do banco Merryl Lynch, mais tarde absorvido pelo banco Julius Baer, para um endereço nos Estados Unidos sob alegação de que o serviço de correio no Brasil não era confiável.

Em um dos formulários mostrados pela TV Globo, Cunha justifica a abertura de uma das contas afirmando que pretende manter negócios na Suíça.

DEM e PSDB se afastam

A sequência de revelações sobre as contas do presidente da Câmara na Suíça levou os dois maiores partidos de oposição a ampliar a distância do peemedebista. Dirigentes do PSDB e do DEM dizem que a publicação da assinatura de Cunha na abertura das contas deixam o deputado em uma "situação muito difícil" de explicar.

Para o senador Agripino Maia (RN), presidente nacional do DEM, "para quem dizia que as contas não existiam, de fato as coisas ficam agora muito difíceis de serem explicadas".

No PSDB, a ordem de Aécio Neves (MG), dirigente nacional da sigla, é continuar defendendo publicamente o afastamento de Cunha da Presidência da Câmara para que ele possa se defender das acusações.

Há, no entanto, em outros partidos que trabalham pela instalação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, um sentimento de que é preciso "poupar" Cunha, para obter "um bem maior", que é o afastamento da petista.

É caso do deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP), que decidiu sair em defesa de Cunha. "O nosso negócio é derrubar a Dilma. Nada nos tira desse rumo", disse Paulinho. O deputado, dirigente do Solidariedade e da Força Sindical, afirma que as sucessivas revelações sobre a existência de contas secretas de Cunha no exterior só mostram que "o governo não cumpre o que fala".

Sem meias palavras, o discurso de Paulinho é uma referência às notícias de que, nos últimos dias, petistas e até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teriam trabalhado para firmar um acordo com Cunha para enterrar as chances de o peemedebista dar início a um processo de afastamento de Dilma.

"O governo bate nele porque sem ele não tem impeachment", afirma Paulinho. "E isso só me faz ficar onde estou", concluiu.


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